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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Recordações...Cheiros, sabores e sons da Damba.

Publicado por Muana Damba activado 1 Julio 2011, 11:10am

Etiquetas: #Coisas e gentes da Damba

 

 

Por Luís Alberto da Conceição Moreira.


 

Como são diferentes de tudo e todos, os cheiros, os sabores e os sons da Damba!

 

De acordo com o poeta recordar é viver… Talvez por isso, de tempos a tempos, haja da minha parte essa necessidade inexplicável de fazer percorrer pela minha memória essa trilogia – cheiros, sabores e sons – da Damba.

 

Foi nessa bela vila do Norte de Angola que nasci, no dia 16 de Dezembro de 1960. Foi ali que as minhas brincadeiras e sonhos de criança se desenrolaram. Tenho pena e grande tristeza por paulatinamente o tempo ter apagado da minha memória muitos dos nomes daqueles miúdos que comigo partilharam desses sonhos e dessas brincadeiras. Talvez alguns deles ainda se recordem de mim. Sou um dos netos do Sr. Nicolau Francisco. Sou filho da sua filha Fátima (a mais velha) e de Alberto Moreira.

 

                                   Milú Neves Ferreira

                              Milú Neves Ferreira, uma das filhas do Sr Nicolau Francisco.

 

Na maioria das brincadeiras participavam os meus primos, Rui Moreira e Alexandre Moreira (tratado por toda a gente por Xanoca), e que eram filhos do meu tio António Moreira (irmão do meu pai) e da minha tia Emília Moreira, que eram os donos da padaria da Damba.

 

Mas voltemos às minhas recordações:

 

 

Dambianos de origem lusitana.

Crianças em festa na Damba, mas...onde está Luís Alberto da Conceição Moreira? e quem são os outros?


 

Recordo os Cheiros. Ah, os cheiros da Damba…

 

Recordo o cheiro a terra molhada. Depois de uma intensa chuvada, era inebriante o cheiro a terra molhada, ao mesmo tempo que a água se evaporava rapidamente por acção do calor que brotava do chão. Recordo as vezes que corri com toda a outra garotada pela rua da Damba a baixo, fugindo à frente da chuva que caía,caía, até sermos apanhados.

 

Recordo o cheiro intenso das queimadas. Recordo as fagulhas que caíam do céu como se de neve se tratasse.

 

Recordo o cheiro dos sacos de ginguba (amendoim) e café, muitas vezes amontoados/empilhados na varanda do edifício onde se situava a padaria da Damba e outros comércios da Damba, como o armazém da loja do Sr. Morais. Aqueles sacos eram galgados vezes sem conta por toda a miudagem que via ali o melhor local para nos escondermos uns dos outros nas nossas brincadeiras. É claro que com a ponta dos dedos faziam-se sempre mais uns buraquinhos nos sacos para nos podermos deliciar com a ginguba ali guardada.

 

Recordo os cheiros da maçaroca (milho) e da ginguba assada, da ginguba cozida, da mandioca, do peixe seco…

 

Recordo o cheiro dos eucaliptos que circundavam a vila da Damba.

 

Os Sabores. Ai como eu recordo os sabores da Damba.

 

Recordo principalmente o sabor das frutas, principalmente aquelas que infelizmente não são possíveis ou são mais difíceis de encontrar em Portugal. Recordo o sabor das pitangas que comia directamente da pitangueira junto à casa do meu avô Nicolau Francisco.

 

Recordo o sabor das fíuas (fruto com a aparência da azeitona mas com origem numa árvore de maior porte que a oliveira), que apanhava na fíueira nas traseiras da minha casa. Recordo a aspereza com que a minha boca ficava depois de comer um punhado de fíuas. A boca ficava áspera, carrascosa.

 

Recordo o sabor ácido das massassas que todos nos apressávamos a arrancar do chão e a devorar quando havia queimadas.

 

Recordo o sabor e o cheiro das goiabas. Tinha uma goiabeira mesmo encostada à varanda de minha casa. Recordo as vezes sem conta que íamos em magotes apanhar goiabas para a mata por de trás da escola primária da vila. Depois devorávamos tudo, principescamente sentados na longa escadaria do edifício do clube, ficando ali espalhadas as cascas que deitávamos para o chão. Recordo-me de por vezes sermos expulsos/corridos da mata por bandos de macacos que viam em nós uns perigosos concorrentes à sua cadeia alimentar.

 

Recordo o sabor do safu. Que delicia o safu. Todo aquele ritual até ser degustado. Colocados em água a ferver, tirar-lhes a pele, impregná-los em açúcar e depois saboreá-los, chupá-los.

 

Recordo o sabor do malavo (bebida fermentada extraída da palmeira). Eu era uma criança e como é certo, o fruto proibido é o mais apetecido.

 

Recordo o sabor dos churrascos da Damba. Que me desculpem, mas os churrascos na Damba eram únicos.

 

Os Sons. Como tudo o resto também os sons da Damba são únicos.

 

Recordo o acordar pela manhã ao som do cair dos abacates. Como eram saborosos os abacates da Damba. Em frente à minha casa, do outro lado da rua várioseram os abacateiros. De manhã, pegava-se num balde ou numa caixa, e percorria-se aquela zona apanhando os abacates que caíam durante a noite e madrugada. Eram depois arrumados em cima de jornais na varanda lá de casa e iam sendo comidos à medida que maduravam.

 

Recordo o som respeitoso e assustador das trovoadas na Damba. Nunca vi nada igual em lado nenhum. Como eram intimidatórias as faíscas que caíam e traçavam ao meio eucaliptos de grande porte.

 

Recordo o som da diversa bicharada quando se dava o anoitecer. Principalmente das andorinhas. Também os morcegos rodopiavam em voos rasantes junto às casas.

 

Recordo o som dos aviões Dakota que todas as Sextas-feiras sobrevoavam os céus da Damba antes de aterrarem na pista. Assim que os ouvíamos, corríamos para junto da padaria da Damba, subíamos para a carrinha e lá íamos atrás, agarrados às grades, numa viagem louca até ao aeródromo. Para a miudagem, a chagada do avião, a viagem de ida e regresso até ao aeródromo era um acontecimento a não perder.

 

Recordo os jogos de futebol esgotantes e disputadíssimos no ringue da Damba, mesmo por trás do edifício do clube. Muitas mazelas têm as minhas pernas, porque aquele piso era duma aspereza tal que quem caísse ficava com marcas na certa.

 

Recordo os anéis de coconote que fazíamos com o fruto da palmeira – demdém. O ringue quando não se jogava nele, faziam-se anéis de coconote. Com o pé, arrastava-se o coconote pelo piso do ringue, que dada a sua aspereza desgastava não só o coconote, mas também as sapatilhas (quedes como lhe chamávamos na Damba). O pior era depois quando chagávamos a casa, com os quedes todos rotos por baixo e havia raspanete na certa.

 

Recordo o cinema na Damba. Principalmente os westerns ou mais conhecidos “filmes de cowboys”, tão na moda naquela altura. Lembro-me do som das palmas batidas pela criânçada sentada lá bem na frente, nos bancos de madeira, sempre que o herói do filme, “o artista”, resolvia mais uma situação complicada.

 

Recordo, recordo, recordo… Porque recordar é viver!

 

Covilhã (Portugal), 25 de Junho de 2011

 


 


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