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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (60)

Publicado por Muana Damba activado 28 Mayo 2012, 04:09am

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr José Carlos de Oliveira.

 

 


 

Conclusão
 
Olhando retrospectivamente para o que de mais significativo foi transmitido, principalmente àquelas focalizações a que as pessoas são mais sensíveis, pelo contacto directo e participante com os agentes concretos, o mais importante deste processo será, sem dúvida, o esforço que fizemos para compreender, interpretar e analisar dentro do possível, o mundo dos zombo.
 
Um fio condutor ressalta de todo o discurso: a ideia de que os zombo são comprovadamente um modelo de misto de mercadores e diplomatas. Esta consideração tem sido motivo da nossa maior reflexão e os factos históricos conduziram‑nos sempre à mesma conclusão: os zombo foram, são e continuarão a ser, negociadores de primeira água, nas relações internacionais de Angola, não sendo, por acaso, que têm sido escolhidos para este cargo, ao longo dos tempos, como parte integrante da chave da governação dos povos que constituem o agora Estado Angolano.
 
Uma palavra agora para as mulheres zombo que não podem, ou melhor, não deverão ser subestimadas, em toda e qualquer negociação familiar e mercantil. Por elas, passará sempre o controle da subversão das barreiras políticas, militares e mercantis. Verificamos ao longo da dissertação, que os zombo sempre tiveram (tendo em conta a sua situação geográfica de povo de fronteira política) uma apetência extraordinária para a aprendizagem de línguas afins e estranhas. Presentemente quase todos os adultos falam fluentemente, para além do kikongo (a sua língua materna) o lingala (uma das línguas oficiais da República Democrática do Kongo) e quando estão na zona de influência dos kimbundo, falam esta língua. Finalmente, as línguas veiculares, respectivamente o francês e o português são presença fundamental.
 
Por esta última língua se têm vindo a esforçar, denodadamente, os missionários católicos e protestantes uma vez que a sua religião está agora fortemente implantada em toda a Angola no ensino recorrente a adultos ministrado especialmente por catequistas, com influência nas suas aldeias de origem, continua a ser uma excelente aposta de divulgação e aperfeiçoamento da língua portuguesa. Saliente‑se o pessoal especializado das equipas das ONG portuguesas (Organizações Não Governamentais) que tem dedicado muita atenção ao ensino do português.
 
Mas não nos iludamos, a tendência dos zombo é para preferirem a língua francesa à portuguesa. E porquê? Porque fazendo constantes peregrinações aos mercados abastecedores de Kinshasa e Luanda (como grandes pólos de atracção política e mercantil) acabam por estender as suas viagens até Paris ou Lisboa. Estão consequentemente a desenvolver os seus conhecimentos face a estas duas culturas. Então, sugere‑se aqui, que deverá ser encarada como prioritária a tarefa do constante ataque à velha deficiência que é o ensino do português na iniciação escolar e agora, mais do que nunca. Convêm recordar os grandes sacrifícios feitos pelos professores espalhados pelo interior de Angola, em prol da língua portuguesa durante a colonização, coadjuvados pelos catequistas de então. Sem o ensino básico do português as dificuldades escolares dos jovens zombo serão, no desenvolvimento das suas apetências profissionais e intelectuais muito maiores.
 
Em nossa opinião, e não somos os únicos a pensar assim, bem pelo contrário, não privilegiamos, para os zombo, o ensino ministrado em bases meramente intelectualizadas, porque ao propagar e defender valores morais e normas de conduta radicalmente diferentes dos seus costumes, fazem‑se brotar conflitos entre os estudantes e o seu ambiente social e familiar, conflitos estes que poderão originar graves desajustamentos emocionais. Os modernos métodos de ensino aplicados, sem privilegiarem o ensino tecnológico, redundariam em fracos e contraproducentes resultados face aos esforços dispendidos. Estamos certos que as crianças zombo escassos proveitos poderiam extrair de programas concebidos para populações evoluídas e urbanizadas, já que se encontram actualmente privadas de qualquer acesso ao uso da leitura, da escrita e da aritmética.
 
Esse ensino em nada contribuiria para uma mais‑valia dos conhecimentos dos educandos, incentivando‑os a adaptarem‑se a novas tecnologias que levem em consideração a agricultura e a pecuária, que continuam a ser a principal fonte de riqueza da população zombo. Um ensino predominantemente técnico, profissionalizante, poderia corresponder suficientemente às suas necessidades reais. Este conhecido modelo conquistaria a colaboração dos estudantes, nos esforços de modernização, interessando‑os activamente, numa promoção social e económica global, sem que, com isso, sofressem ainda maiores desajustamentos e perturbações.
 
Esta nossa posição é suportada, por exemplo, pelo Jornal de Angola online que em notícia assinada por Alexa Sonhi de 14/10/2007 refere o seguinte: “A falta de infra‑estruturas como escolas, unidades sanitárias e económicas em perfeitas condições estão a condicionar o desenvolvimento do município de Maquela do Zombo, na província do Uíje…a falta de energia eléctrica e de um sistema de água potável em Maquela do Zombo são outros dos vários problemas que o município enfrenta”. Enfim… é preciso recomeçar tudo de novo.
 
Na sequência de todo este fio condutor, diremos que os currículos escolares deveriam organizar‑se em torno de pequenos projectos de carácter familiar, de ordem comercial, industrial e agro‑pecuária, de maneira a facilitar a adaptação dos jovens, tanto à economia de mercado como ao emprego de técnicas cuja eficiência e rentabilidade se encontram plenamente asseguradas entre os zombo.
 
Não desconhecemos que se podem contrapor argumentações de peso que adiantamos na esperança de que fomentem a discussão e a troca de ideias. Que a educação anteriormente proposta, para ser eventualmente útil, não poderá ser iniciada em idades demasiadamente baixas e, além disso, depara‑se com inegáveis dificuldades para se conseguir aplicar na vida prática o que se ensinou.
 
Presentemente, as instituições escolares do Município de Maquela do Zombo (como de todo interior angolano) não dispõem de capital para adquirir o equipamento moderno, sendo que a solução se encontra estreitamente dependente da eliminação das contrariedades de ordem económica, técnica e social, fora da alçada dos serviços de educação: financiamentos, comercialização, cooperação, investigação, assistência técnica, concessão de terrenos, sobrevivência de tradições e de costumes ancestrais, entre outros aspectos.
 
 Por outro lado, a aplicação deste ensino, com base profissional, além de levantar obstáculos, no respeitante à selecção de alunos para os estudos secundários, poderia minar seriamente as bases de um sistema de educação que deverá ser nacional e integrado. Aumentaria, assim, o fosso já existente entre o mundo rural e o urbano. Finalmente as famílias zombo farão, decerto, algumas reticências a um tipo de ensino que procure deliberadamente "fixar o educando à terra" e que colida frontalmente com os conhecimentos empíricos herdados de gerações anteriores de grandes comerciantes. Será frustrar drasticamente um dos maiores anseios dos zombo: viajar, viajar, (a tal peculiaridade antiga de andar de povo em povo) traindo assim, as suas esperanças e ambições.
 
O último capítulo da dissertação aponta linhas de orientação para os problemas actuais que poderiam, com muito êxito, ser enfrentados e grandemente diminuídos através de projectos de antropologia aplicada, com o apoio da metodologia de dois autores de projecção internacional. O primeiro, Ernst Friedrich Schumacher (1911‑1977) que com a obra Small is Beautifull 9, ainda percorre o mundo académico e profissional, ao propor‑nos o fomento das tecnologias intermediárias (ou seja, aquelas que ainda estão em uso, embora não sejam fruto da tecnologia actual) que requerem muito menos aplicação de capital e são, ao mesmo tempo, menos exigentes no consumo de matérias‑primas, indo assim ao encontro das possibilidades de aplicação prática às populações zombo. O segundo autor permite‑nos aplicar uma excepcional ferramenta: O Princípio de Peter. Trata‑se de Laurence J. Peter (1989) e a sua forma de nos fazer entender até onde somos úteis: “Numa hierarquia todo o empregado tende a ser promovido, até ao seu nível de incompetência” 10, e mais com a noção da lei dos rendimentos decrescentes, faz‑nos perceber até onde será prudente prosseguir com os nossos intentos de cooperação.
 
Acrescentaremos que, para o nosso caso concreto, grande parte da nossa atenção deve focalizar as mamãs como pilar básico do desenvolvimento económico zombo. Os homens são, por exemplo, proverbiais especialistas da indústria de vestuário, pois, apesar da sua relutância ancestral de cederem espaço nesta indústria às suas mulheres torna‑se urgente que, de forma suave mas decisiva, lhes permitam dividir o seu tempo entre a indústria mercantil familiar e o trabalho de casa. Os rendimentos conseguidos através desta forma de pensar trarão, de certeza, resultados muito importantes para as suas famílias. É urgente dar oportunidade a que as mamãs se realizem criativamente e permitir aos filhos deste povo que pisem o seu chão com firmeza.
 
Com estas realidades terminamos o nosso estudo, fruto de muito e penoso trabalho, às vezes, com risco da própria vida durante as duas viagens de 1991 e 2005 ao Norte de Angola.
 
Congratulamo‑nos por nos terem permitido e ajudado a avançar com hipóteses de trabalho, capazes de harmonizar a elevação cultural, social e económica das mais novas gerações zombo.

 

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