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Portal da Damba e da História do Kongo

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Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (56)

Publicado por Muana Damba activado 3 Mayo 2012, 13:33pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

 

 

Por Dr José Carlos de Oliveira.


 

 

 

A Comerciante das Praças, no Comércio Tradicional Zombo

 
 
As mamãs de hoje são o reflexo das ancestrais protagonistas dos nzandu ou praças de mercado e continuam a ser o elemento principal da compra e venda, não só entre os zombo, mas em toda a África negra. Nestes locais, exercitam diariamente o seu pendor ancestral para o ‘negócio’, aproveitando o tempo para colocar em dia as suas relações familiares, económicas, culturais e até políticas, no âmbito da solidariedade da família extensa.
 
O crescimento económico dos zombo depende fundamentalmente do seu espírito de iniciativa e parece ser a característica da figura familiar das mamãs, ‘mães‑galinha’, que contribuirá para tornar mais dependentes e ociosos os homens, dificultando o seu desenvolvimento face à idade adulta, acabando estes por sobrecarregá‑las desumanamente. O seu espírito de iniciativa fortemente vincado, influencia o ‘carinho’ que o homem kongo tem pela sua mamã. Pode parecer desajustada a opinião, mas D. Francisco da Mata Mourisca (ainda hoje – 2007 – bispo do Uíje) descreve assim as mulheres comerciantes das praças, face ao seu papel na família zombo e angolana em geral “O papel da mulher no comércio de Angola é de vital relevância…É que em Angola como no resto da África Ocidental, cerca de 80% dos produtos agrícolas são comercializados pelas mulheres7.
 
A comida sempre pronta que os homens encontram em casa (o lume sempre aceso) é uma constatação. É óptimo, mas a pressão sobre a mulher é demasiado forte para corpos que foram tão fragilizados pela fome e pela guerra, para que tanta gente lhes solicite permanentemente o auxílio alimentar. Presentemente, a pressão é de tal modo violenta que se vê obrigada a usar de um esquema para se desprender dos filhos, designadamente os da parte do marido, os conhecidos meninos feiticeiros. Esta figura é muito frequente em todos os países de África que foram avassalados durante décadas por guerras intensas. Poderíamos entrar nos pormenores desta miséria, mas não cabe aqui alongar a questão. Diremos só que a guerra colocou a mulher angolana de 20, 30, 40 e 50 anos, na infeliz situação de ter repetidamente filhos de combatentes da FNLA UNITA e MPLA. Vê‑se então na necessidade trabalhar 12 a 18 horas e na ânsia de sobreviver, muitas vezes como pequena comerciante de biscates, termo que se deverá entender como ‘pequenos serviços prestados’, gasta grande parte do seu tempo diário a correr de lá para cá numa ânsia de resolver os problemas do dia‑a‑dia.
 
O sistema tradicional de parentesco ajuda, e muito, à situação. Ou melhor, as vantagens inerentes à integração na sua família extensa, alarga desmedidamente os seus deveres de solidariedade, quantas vezes em detrimento dos seus interesses próprios. Certamente que as mudanças operadas nas últimas décadas, e especialmente as geradas pelos violentos conflitos armados, ocasionaram grandes modificações no sistema familiar que entendia que os bens e o trabalho deviam ser colocados à disposição da linhagem, dando‑lhes direito à hospitalidade, a constantes oferendas à prestação de trabalho em regime de reciprocidade, ao auxílio em roupas, alimentos ou dinheiro, a convites para festividades e celebrações, etc..
 
Tendo‑se destruído as estruturas e as técnicas para armazenagem de alimentos por longos períodos, é natural que o sistema dos valores de solidariedade alimentar se tivesse alterado. Embora as obrigações teóricas recaíssem e ainda recaiam sobre o guardião da matrilinhagem, teoricamente, continua a ter o dever moral de velar pelos seus tutelados e tuteladas, em todas e quaisquer circunstâncias, como por exemplo no nascimento e na morte, no casamento e no divórcio, nos êxitos e nos fracassos, na miséria e na abundância, chegando inclusive a sentir‑se responsável pelas dívidas dos seus tutelados. Na prática toda a protecção social recai sobre as mamãs que fazem o impossível por manter a paz familiar através da sua incomensurável eficácia de ecónomas, a que acrescentam uma resistência física e psicológica sem paralelo na família.
 
As mamãs encontram, no comércio familiar e na pequena indústria na fabricação de pão e de outros processos afins da indústria alimentar, tal como na fabricação do carvão, em casa e nos mercados, a parte mais importante do seu mecanismo económico de sobrevivência. Começam por exercer específicas funções subsidiárias no mercado, como negociantes ocasionais, porém, o seu objectivo é criar o seu próprio negócio. Conhecedoras dos produtos sazonais e das suas flutuações de preços, procuram tirar o melhor proveito deste saber. É este saber que as conduz ao sucesso mercantil, acabando muitas, já no fim da vida, com uma pequenina banca a vender um só produto (por exemplo tomates ou bananas) porque não concebem a vida sem o seu pé‑de‑meia. Outra nota curiosa, contribuem para o fenómeno sociológico do mercado, juntam‑se em aglomerados informais mantendo‑se afastadas dos homens, o suficiente para os controlarem, e este controle tem a ver com o poderem fazer o seu tal pé‑de‑meia sem que eles disso se apercebam. Nunca sabem quando eles partem para não voltarem mais. Especializam‑se, por exemplo, na produção de refeições que os homens acabam necessariamente por lhas comprar na praça do mercado, escutando assim parte dos seus segredos.
 
 
A constatação de uma boa parte se ter confrontado muito cedo com a viuvez e outra parte já não poder contar com possíveis relacionamentos maritais passíveis de dar estabilidade aos filhos, faz com que venham ao de cima forças de que não suspeitavam, conseguindo frequentemente rasgos de liderança para os esquemas mercantis ao seu alcance. O mesmo acontece com as mulheres sós. Estas oferecem a sua ajuda às anteriores viúvas e mulheres casadas.

 

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