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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (53)

Publicado por Muana Damba activado 13 Abril 2012, 05:04am

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

 

 

Por Dr José Carlos de Oliveira.


 

 

O Regresso às Origens

 
 
Também nesta secção, convirá, antes do mais, lembrar que parte das populações refugiadas junto das suas famílias e residentes na fronteira política do espaço Zombo, bem como as que se dirigiram às zonas periféricas da cidade de Kinshasa, foram ao longo dos anos, interiorizando o demorado processo de adaptação e integração, facilitado pelo apoio dos seus familiares, residentes de longa data, em todo o chamado ‘Bas Kongo’ (Nsi Kongo) da República Democrática do Congo. Isto significa que o seu regresso não podia ser tão linear como possa parecer, à primeira vista, uma vez que envolve, ainda hoje, no mínimo, a deslocação geográfica de duas gerações.
Passaram‑se quarenta e seis anos, desde o primeiro êxodo, as populações estão exaustas, após décadas de luta, sabem simplesmente que estão aliviadas por a guerra ter finalmente acabado. Têm de esquecer frases, como por exemplo: ‘O MPLA decepou o braço do meu pai com uma catana.’, ‘Não nos podemos agarrar às terríveis memórias da guerra, senão não viveremos’.
 
Não se tratou, como no caso dos portugueses de um grande pesadelo (de quem tinha partido com a ideia generalizada de não voltar, de morrer em Angola) de qualquer forma, o regresso dos zombo foi sendo protelado por causa dos conflitos armados. Foi muito complicado. Foi‑o, muito menos, para os oportunistas, para aqueles que lá como cá, nunca fizeram nada. Foi‑lhes fácil aproveitar as circunstâncias, arvorarem‑se em patriotas de gema e solicitarem, nessa base, os direitos de combatentes do lado vencido. Não foi fácil a opção pelo regresso, para as famílias com filhos jovens, quer dum sexo quer do outro que estudavam em Kinshasa, para não falar em outras cidades ou até pequenos aglomerados populacionais.
 
No entanto, existem organizações internacionais para dar apoio aos refugiados, que envolvem quantias e recursos humanos impressionantes. Contam com décadas de experiência, como é o caso da ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), em todo o mundo que, neste momento, tem como alto‑comissário um português, António Guterres. Um dos problemas levantados para a ajuda às populações é: Como fazer o repatriamento voluntário? Esta nossa dissertação não está dirigida para esta questão, mas deixamos aqui uma breve reflexão.
 
Durante um dos contactos que tivemos com as comerciantes das praças zombo (são as célebres ‘mamãs’ que, do nada fazem tudo o seu sofrimento pela sobrevivência é tremendo) nos arredores da cidade do Uíje, à pergunta feita a uma mamã – ‘Porque só vendia carvão?’ – a ‘comerciante’ respondeu:
A minha família está no Inkisi (Bas Kongo), o sofrimento era muito, a minha família estava sempre a dizer: ‘quando é que tu voltas na terra? ‘ Então eu viajei para a fronteira e pedi para regressar na minha terra, fui em Makela do Zombo, na ACNUR e pedi para entrar, mas eles falaram que não íamos encontrar comida, tínhamos que fazer casa e que havia muitas minas. Apesar disso tudo, encontrámos algum apoio nas ONG (Organizações não Governamentais) que trataram de mim e dos meus filhos. Estou sozinha com oito filhos, todos ainda crianças (a mais velha ficou em casa a tomar conta dos irmãos, eu trouxe estes dois mais pequenos). Sou viúva, não consigo fazer mais nada, senão ir na mata, apanhar lenha, fazer carvão e vender na porta de casa e no mercado.
 
Muitos dos que regressaram não possuem, ainda hoje, documentos de identidade. A longa guerra destruiu os arquivos de registo de nascimento da maior parte do país. O estado angolano percebeu que era vital para as pessoas adquirirem a documentação, assim começariam a movimentar‑se sem medo. Houve casos em que os livros de registo se esgotaram, houve muitos casos de extorsão, de abuso sexual, por parte dos militares e funcionários encarregados do controlo exigido. Os documentos continuam a ser fornecidos, na base de que a pessoa é de facto angolana, sendo‑lhe então fornecido o bilhete de identidade e cédula de identidade às crianças. Os velhos soba Makanda, os mfumu a vata e mfumu a nsi continuam a ser preponderantes nestas situações, especialmente aqueles que têm ainda a prerrogativa de redistribuir as terras ou de as conceder. Em Maquela do Zombo, os militares fizeram (oficialmente desconhecem‑se os argumentos) rusgas, com a finalidade de travar o tráfico de diamantes, numa operação que ficou conhecida como Operação Brilhante; expulsou doze mil garimpeiros, especialmente de origem Tutsi e Hutu, famosos pela sua técnica de garimpo e que vinham reivindicando a cidadania angolana. Escusado será dizer que muitos dos diamantes só mudaram de mãos.3
 
Quantas vezes os pais se teriam interrogado, se retornariam ou não? Como iriam reorganizar a sua vida? Que empregos encontrariam nas terras da sua origem? Como seria possível habituarem‑se ao novo sistema marxista?
 
Como iriam prescindir das suas autoridades tradicionais para se submeterem aos novos comissários políticos? Ouvimos, em 1991, aquando da nossa penúltima estada em Angola, este rosário de perguntas, muitas vezes, feitas de forma angustiante.
 
O Estado português tinha deixado bases precárias, para os primeiros anos de escola entre os zombo, embora as missões católicas e protestantes se tivessem empenhado na diminuição deste problema. As raparigas sempre sofreram o estigma de serem mulheres. Os rapazes podiam estudar, elas não, eram necessárias, em casa, para tomar conta dos irmãos mais novos.
 
Agora, as populações instaladas ainda têm que viver o flagelo das minas anti‑pessoal espalhadas por toda a parte. As crianças, especialmente, saem de casa de manhã à procura de bananas, mangas, abacates, entre outros frutos. Apesar de já informadas e de verem os vizinhos estropiados, continuam a deambular pela vizinhança da aldeia. De repente, o inevitável acontece e fica física e psicologicamente prejudicada para toda a vida. As organizações internacionais reconhecem o drama, sabem que as minas são uma das principais ameaças à integridade física das pessoas e às suas operações de repatriamento. Todos os refugiados são avisados e treinados acerca dos riscos das minas (e já o tinham sido, quando iniciaram o seu regresso) pelo serviço da ACNUR de Maquela do Zombo. O que hão‑de fazer face aos regressados que querem voltar ao seu chão (nsi) perigosamente registado como minado? No final de contas, a necessidade desse chão parece ser mais imperiosa do que o impedimento das minas.
 
Agora o mais importante não é o regresso, é a reintegração, muito especialmente para as mulheres que, a todo o momento, são vítimas da continuada opressão e brutalidade dos homens.

 

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