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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (47)

Publicado por Muana Damba activado 21 Marzo 2012, 06:05am

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

 

Por Dr José Carlos de Oliveira.


 

 

Admitimos ou estamos quase certos, que os portugueses da fronteira norte de Angola seriam os que mais consciência tinham do perigo em que viviam, mas embalados pelo lucro imediatista, (muito oportuno) condicionados pela apetência para este tipo de negócio, só em caso de extremo perigo, abandonariam a sua longa e sofrida vida. Mantinham a esperança de uma convivência pacífica, preconizada pelo conceito do Luso Tropicalismo, que se traduzia na ideia de que encaminhar os povos colonizados para a independência não era incompatível com uma sã convivência, segundo Adriano Moreira (1960:138,139):
“(…) seja incompatível com a regra da igualdade do género humano, parece todavia certo que o objectivo da assimilação se apresenta como uma afirmação muito mais vigorosa de tal princípio, com o qual não pode logicamente conceber‑se que esteja em contradição, em quaisquer circunstâncias. Sendo uma tradicional atitude portuguesa, por toda a parte onde a acção colonial portuguesa se fez sentir se verificou um fenómeno não só de interpenetrarão cultural, mas também de mestiçagem. Desde que o fenómeno colonial se mostrou geograficamente localizado nas zonas tropicais, que hoje constituem o centro das acções colonialistas, esta conduta aparece como um fenómeno revestido de unidade, que Gilberto Freyre pôs em evidência, com felicidade, falando no Luso Tropicalismo (…).”23
 
Porém, os zombo, politicamente mais evoluídos, que a maioria dos sub‑grupos étnicos de Angola, não permitiriam, com uma independência à vista e há tanto tempo esperada, que os europeus continuassem a usufruir das maiores e mais apetecíveis vantagens comerciais. Iriam preparar o assalto ao poder, mas até lá os membros seniores das suas famílias iriam receber os seus conselhos que visavam, acima de tudo, acautelar os seus parcos bens e especialmente a nova elite que começava a aprender a lutar por uma bandeira. No local de trabalho e em casa, recomendavam, constantemente aos seus, que evitassem disputas entre si e não discutissem as ordens dos seus patrões europeus. Além disso, que se afastassem de amizades duvidosas (com outros sub‑grupos). Os zombo que não sabiam “conter a língua”, acabavam frequentemente nas mãos da PIDE. Esta forma de estar dos zombo ‘mais velhos’ era respeitada pelos mais novos, que percebiam a vantagem de absorverem os ensinamentos dos mais experientes.
 
Contudo, a vida dos comerciantes europeus não era só desvantagens. O facto da população nativa ter desaparecido foi colmatado pela necessidade que os batalhões na ZIN (Zona de Intervenção Norte) tinham na satisfação das necessidades básicas. Os militares das companhias acantonadas, na zona do Zombo, vinham, duas vezes por semana, à vila de Maquela do Zombo abastecer‑se e uma boa parte do comércio local foi‑se adaptando para responder às novas exigências, desde o aproveitamento dos exímios alfaiates zombo, que trabalhavam, nas suas casas comerciais, na confecção de vistosas camisas, calças e até casacos de paletó que os militares, nas suas idas, aos cabarés de Luanda, faziam questão de exibir. Parte do comércio misto, assim se chamava o comércio do mato, por ter um pouco de tudo, transformou‑se em provisórios e precários restaurantes e bares.
 
A firma JOJ, por exemplo, fazia os seus pedidos de requisição de mercadoria, para Luanda, via rádio e diga‑se de passagem, por um instrumento de ‘recepção/transmissão’ tão sofisticado como os mais modernos equipamentos de transmissões das companhias militares metropolitanas a actuar na altura no terreno. No espaço máximo de dois dias, tanto militares portugueses como clientes congoleses tinham os seus pedidos satisfeitos.
 
Uma mais valia estava à mão de todos os comerciantes que se tinham acantonado na vila de Maquela pois cedo começaram a lidar com câmbios das diferentes moedas com que o mercado zombo lidava. Raramente se transaccionava com a moeda angolana. A preferência ia sempre para a moeda zairense e a razão era simples: a desvalorização da moeda zairense face à moeda belga (o Franco Belga) era muito menor que a desvalorização do Escudo angolano face ao Escudo metropolitano. Todos os comerciantes portugueses começaram a perceber (nos cerca de doze anos que tiveram de experiência, 1963 a meados de 1975) a vantagem que tinham à mão. Talvez fosse esse o maior motivo que os forçasse a não terem enveredado pela compra clandestina de diamantes. Algum, poucos é verdade, chegavam a deslocar‑se por avião, via Joanesburgo, a Bruxelas a fim de cambiar a moeda zairense. Na zona da bolsa, havia sempre corretores que, de imediato, faziam a conversão e até aconselhavam a abertura de contas bancárias, chegando a haver casos em que os mesmos indivíduos que tinham procuração para negociar contas de comerciantes portugueses, negociassem também contas de gente do ‘núcleo duro’ da FNLA. Todavia, alguns europeus, especialmente os funcionários públicos portugueses não tiveram essa sorte, viriam a beneficiar, contudo, com a reforma em Portugal. Há bem pouco tempo (2005), estivemos em Valença do Minho e, trocando impressões com um velho amigo guarda‑fiscal, ao serviço na área do Zombo entre 1966 e 1970, confessou‑nos, com alguma amargura, não ter podido aproveitar o que tantos outros aproveitaram.
 
Aqui estão algumas das razões que faziam do mercado da vida zombo, um mercado especial. Este ajudou a prevenir muitos dos comerciantes portu­gueses locais para a fatalidade que se aproximava: o seu adeus definitivo à terra onde pensavam e gostavam de ser enterrados. Permitiu, acima de tudo, que alguns dos ditos retornados pudessem albergar nas suas casas, compradas à pressa em Portugal, outros em dificílima situação, contribuindo assim, com a sua estabilidade, para se apoiarem mutuamente. Assimilavam lentamente a nova cultura, (não nos esqueçamos que muitos já tinham duas, três e quatro gerações nascidas em Angola) e agora, passados que são trinta e dois anos após a independência de Angola, a esmagadora maioria, ainda viva, acabou por absorver os valores vigentes e está perfeitamente integrada.
 
Começa‑se, com demasiada frequência, a utilizar a Internet para obter informações sobre todo o tipo de matérias e os académicos não fogem à regra. Por aquilo que nos diz respeito (como conhecemos “o mar em que esta dissertação navega”) não desprezamos os seus motores de busca. Porém, é necessário estarmos prevenidos para as apetecíveis mas muito escorregadias ‘dicas’ que por lá andam. Neste caso, vale a pena tomar em linha de conta um texto publicado por Nsimba Joani Dias, em Outubro de 200624, sobre o contexto político, social e económico zombo actual, mais propriamente dos municípios do Béu, Kuilo Futa e Sakandika, de 1974 a 2006 e dele extraímos textualmente o seguinte:
“(…) Circulava‑se, em forma de múrmuros, numa tradição de boca para boca a notícia da breve independência de Angola. Os poucos assimilados da terra se escondiam sob uma máscara com um silêncio desconfiador. Os amigos portugueses, comerciantes como militares também com olhadas silenciosas se enrolavam num incognito comportamento que ninguém podia na altura adivinhar. Os autóctonos que tinham radios foram negados o direito de comprar pilhas. Portanto a mudança física era tão notável que mesmo cegos podiam descrever. Houve um fluxo de nossos filhos que regressavam da cidade de Carmona ou talvez de Luanda. Alguns comerciantes brancos sumiram e certas lojas fecharam eternamente suas portas. As idas e voltas de tropas coloniais diminuíram nos corredores das pequenas cidades das terras santas do norte de Angola. O sururu sobre a breve independência vinha soprando desde os ventos da rádio congolesa (…). Ao amanhecer de um dia tranquilo, os sobas foram surpreendidos quando carros da administração passavam para recolher todas as bandeiras verdes de orgulho‑português que flutuavam o espaço aéreo de todos os kimbos desafiando a lei física da natureza. O sinal foi apercebido e a festa vai começando. O efetivo militar começou a emagrecer e o contingente de civil brancos entrofiou‑se sem pressões. Contrariamente o vulto de filhos mercenários, civis como militares vai duplicando‑se diáriamente até quando um dia começaram misteriosamente desfilar ruidos estranhos rompendo os ares e quer com o tempo se familiarizaram na audição do povo. Não eram ruidos mas apenas vrombissos de grandes mercêdes que vinham do Congo transportando o nossos filhos, netos, primos e sobrinhos que lá refugiram, nasceram ou cresceram. (…)”
 
Admitimos ou estamos quase certos, que os portugueses da fronteira norte de Angola seriam os que mais consciência tinham do perigo em que viviam, mas embalados pelo lucro imediatista, (muito oportuno) condicionados pela apetência para este tipo de negócio, só em caso de extremo perigo, abandonariam a sua longa e sofrida vida. Mantinham a esperança de uma convivência pacífica, preconizada pelo conceito do Luso Tropicalismo, que se traduzia na ideia de que encaminhar os povos colonizados para a independência não era incompatível com uma sã convivência, segundo Adriano Moreira (1960:138,139):
“(…) seja incompatível com a regra da igualdade do género humano, parece todavia certo que o objectivo da assimilação se apresenta como uma afirmação muito mais vigorosa de tal princípio, com o qual não pode logicamente conceber‑se que esteja em contradição, em quaisquer circunstâncias. Sendo uma tradicional atitude portuguesa, por toda a parte onde a acção colonial portuguesa se fez sentir se verificou um fenómeno não só de interpenetrarão cultural, mas também de mestiçagem. Desde que o fenómeno colonial se mostrou geograficamente localizado nas zonas tropicais, que hoje constituem o centro das acções colonialistas, esta conduta aparece como um fenómeno revestido de unidade, que Gilberto Freyre pôs em evidência, com felicidade, falando no Luso Tropicalismo (…).”23
 
Porém, os zombo, politicamente mais evoluídos, que a maioria dos sub‑grupos étnicos de Angola, não permitiriam, com uma independência à vista e há tanto tempo esperada, que os europeus continuassem a usufruir das maiores e mais apetecíveis vantagens comerciais. Iriam preparar o assalto ao poder, mas até lá os membros seniores das suas famílias iriam receber os seus conselhos que visavam, acima de tudo, acautelar os seus parcos bens e especialmente a nova elite que começava a aprender a lutar por uma bandeira. No local de trabalho e em casa, recomendavam, constantemente aos seus, que evitassem disputas entre si e não discutissem as ordens dos seus patrões europeus. Além disso, que se afastassem de amizades duvidosas (com outros sub‑grupos). Os zombo que não sabiam “conter a língua”, acabavam frequentemente nas mãos da PIDE. Esta forma de estar dos zombo ‘mais velhos’ era respeitada pelos mais novos, que percebiam a vantagem de absorverem os ensinamentos dos mais experientes.
 
Contudo, a vida dos comerciantes europeus não era só desvantagens. O facto da população nativa ter desaparecido foi colmatado pela necessidade que os batalhões na ZIN (Zona de Intervenção Norte) tinham na satisfação das necessidades básicas. Os militares das companhias acantonadas, na zona do Zombo, vinham, duas vezes por semana, à vila de Maquela do Zombo abastecer‑se e uma boa parte do comércio local foi‑se adaptando para responder às novas exigências, desde o aproveitamento dos exímios alfaiates zombo, que trabalhavam, nas suas casas comerciais, na confecção de vistosas camisas, calças e até casacos de paletó que os militares, nas suas idas, aos cabarés de Luanda, faziam questão de exibir. Parte do comércio misto, assim se chamava o comércio do mato, por ter um pouco de tudo, transformou‑se em provisórios e precários restaurantes e bares.
 
A firma JOJ, por exemplo, fazia os seus pedidos de requisição de mercadoria, para Luanda, via rádio e diga‑se de passagem, por um instrumento de ‘recepção/transmissão’ tão sofisticado como os mais modernos equipamentos de transmissões das companhias militares metropolitanas a actuar na altura no terreno. No espaço máximo de dois dias, tanto militares portugueses como clientes congoleses tinham os seus pedidos satisfeitos.
 
Uma mais valia estava à mão de todos os comerciantes que se tinham acantonado na vila de Maquela pois cedo começaram a lidar com câmbios das diferentes moedas com que o mercado zombo lidava. Raramente se transaccionava com a moeda angolana. A preferência ia sempre para a moeda zairense e a razão era simples: a desvalorização da moeda zairense face à moeda belga (o Franco Belga) era muito menor que a desvalorização do Escudo angolano face ao Escudo metropolitano. Todos os comerciantes portugueses começaram a perceber (nos cerca de doze anos que tiveram de experiência, 1963 a meados de 1975) a vantagem que tinham à mão. Talvez fosse esse o maior motivo que os forçasse a não terem enveredado pela compra clandestina de diamantes. Algum, poucos é verdade, chegavam a deslocar‑se por avião, via Joanesburgo, a Bruxelas a fim de cambiar a moeda zairense. Na zona da bolsa, havia sempre corretores que, de imediato, faziam a conversão e até aconselhavam a abertura de contas bancárias, chegando a haver casos em que os mesmos indivíduos que tinham procuração para negociar contas de comerciantes portugueses, negociassem também contas de gente do ‘núcleo duro’ da FNLA. Todavia, alguns europeus, especialmente os funcionários públicos portugueses não tiveram essa sorte, viriam a beneficiar, contudo, com a reforma em Portugal. Há bem pouco tempo (2005), estivemos em Valença do Minho e, trocando impressões com um velho amigo guarda‑fiscal, ao serviço na área do Zombo entre 1966 e 1970, confessou‑nos, com alguma amargura, não ter podido aproveitar o que tantos outros aproveitaram.
 
Aqui estão algumas das razões que faziam do mercado da vida zombo, um mercado especial. Este ajudou a prevenir muitos dos comerciantes portu­gueses locais para a fatalidade que se aproximava: o seu adeus definitivo à terra onde pensavam e gostavam de ser enterrados. Permitiu, acima de tudo, que alguns dos ditos retornados pudessem albergar nas suas casas, compradas à pressa em Portugal, outros em dificílima situação, contribuindo assim, com a sua estabilidade, para se apoiarem mutuamente. Assimilavam lentamente a nova cultura, (não nos esqueçamos que muitos já tinham duas, três e quatro gerações nascidas em Angola) e agora, passados que são trinta e dois anos após a independência de Angola, a esmagadora maioria, ainda viva, acabou por absorver os valores vigentes e está perfeitamente integrada.
 
Começa‑se, com demasiada frequência, a utilizar a Internet para obter informações sobre todo o tipo de matérias e os académicos não fogem à regra. Por aquilo que nos diz respeito (como conhecemos “o mar em que esta dissertação navega”) não desprezamos os seus motores de busca. Porém, é necessário estarmos prevenidos para as apetecíveis mas muito escorregadias ‘dicas’ que por lá andam. Neste caso, vale a pena tomar em linha de conta um texto publicado por Nsimba Joani Dias, em Outubro de 200624, sobre o contexto político, social e económico zombo actual, mais propriamente dos municípios do Béu, Kuilo Futa e Sakandika, de 1974 a 2006 e dele extraímos textualmente o seguinte:

“(…) Circulava‑se, em forma de múrmuros, numa tradição de boca para boca a notícia da breve independência de Angola. Os poucos assimilados da terra se escondiam sob uma máscara com um silêncio desconfiador. Os amigos portugueses, comerciantes como militares também com olhadas silenciosas se enrolavam num incognito comportamento que ninguém podia na altura adivinhar. Os autóctonos que tinham radios foram negados o direito de comprar pilhas. Portanto a mudança física era tão notável que mesmo cegos podiam descrever. Houve um fluxo de nossos filhos que regressavam da cidade de Carmona ou talvez de Luanda. Alguns comerciantes brancos sumiram e certas lojas fecharam eternamente suas portas. As idas e voltas de tropas coloniais diminuíram nos corredores das pequenas cidades das terras santas do norte de Angola. O sururu sobre a breve independência vinha soprando desde os ventos da rádio congolesa (…). Ao amanhecer de um dia tranquilo, os sobas foram surpreendidos quando carros da administração passavam para recolher todas as bandeiras verdes de orgulho‑português que flutuavam o espaço aéreo de todos os kimbos desafiando a lei física da natureza. O sinal foi apercebido e a festa vai começando. O efetivo militar começou a emagrecer e o contingente de civil brancos entrofiou‑se sem pressões. Contrariamente o vulto de filhos mercenários, civis como militares vai duplicando‑se diáriamente até quando um dia começaram misteriosamente desfilar ruidos estranhos rompendo os ares e quer com o tempo se familiarizaram na audição do povo. Não eram ruidos mas apenas vrombissos de grandes mercêdes que vinham do Congo transportando o nossos filhos, netos, primos e sobrinhos que lá refugiram, nasceram ou cresceram. (…)”

 

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