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Portal da Damba e da História do Kongo

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Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (46)

Publicado por Muana Damba activado 19 Marzo 2012, 05:56am

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

 

Por Dr José Carlos de Oliveira.


 

 

No posto do Beú, estava destacada uma pequena unidade militar da companhia constituída por uma secção de nove homens que viviam na ‘Paz do Senhor’. Mais uma vez, se prova a proverbial técnica dos zombo ‘A guerra não deve interferir no nosso negócio’. Os homens da FNLA, não tinham de andar sempre fardados, além de que isso seria impossível de acontecer no mercado do Béu. Usavam, por norma, casacos que eram vendidos também nos nzandu, em fardos importados dos EUA. Vestiam‑se também de calções e camisa, em cujos bolsos traziam as munições, em conjunto com carteiras de documentos, para além da secular saca às costas, onde transportavam os alimentos para a viagem, como a kikuanga e os pedaços de cana‑de‑açúcar, de kola e de gengibre.
 
 
A partir de 1960, logo após a independência do Zaire (a agora República Democrática do Congo), os Estados Unidos da América começaram a activar fortemente o seu auxílio às populações carenciadas da nova república. Dezenas de milhares de toneladas de farinha de trigo; de arroz, de leite Nido e de leite condensado Nestlé, de sabonetes Lux, de bacalhau miúdo em fardos, entre outros, eram desembarcados, todos os meses, em Matadi e Kinshasa, como amparo às populações, em situação de precariedade.
 
Uma elite muito especial estava atenta e ‘procedia em conformidade’ – os comerciantes zombo. Desviavam pura e simplesmente, através da conivência e benefício de partilha com altos funcionários do governo Congolês, os produtos oferecidos. Uma parte chegava à fronteira portuguesa e a troca, por peixe seco ou sal, era inevitável e urgente. Aliás é perfeitamente compreensível pois de que lhes servia o arroz se tinham a farinha de mandioca? De que lhes servia também o bacalhau miúdo se o peixe preferido era o Judeuou Merma? Recomeçaram então, para além desses dois produtos, a solicitar a troca, por cebola, por feijão, por garrafões vazios (de preferência incolores para acondicionarem o seu vinho de palmeira e o seu óleo de palma) e ainda por sabonetes medicinais da mais apreciada marca, o já referido – Assepso  para combate à sarna e outras doenças de pele, adquiridos nas farmácias de Luanda.
 
 
Como explicar que, em pleno teatro de guerra colonial, tenha lugar este fenómeno? As explicações que nos ocorrem, pela nossa experiência de vida, já as demos. Hoje, nenhuma guerra poderia ter estes contornos.
 
Os pequenos comerciantes zombo (kankita ou minkiti) tinham aprendido, pela tradição secular nos nzandu, que deveriam evitar (quando pudessem) trazer dinheiro de volta a casa. A alternativa era o velho ‘bula táxi senhor chefe’. Este termo relacionava‑se tanto com os guardas‑fiscais portugueses, bem como com os funcionários congoleses dadouane (alfândega). Para que a ‘paz fiscal’ fosse conseguida, havia que pagar direitos de importação e exportação de uma parte dos artigos que vendessem e comprassem, tanto de um lado como do outro da fronteira. Porém, torna‑se necessário prestar aqui um esclarecimento: este outro tipo de contrabando tratava‑se do contrabando de sobrevivência. O mesmo não se podia aplicar a este novo tipo de negócio. A partir de 1963, os ‘commerçants zairois de Kinshasa’ começaram por aparecer na fronteira e, até 1974, passaram a vir reabastecer‑se com os seus camiões a Maquela do Zombo, isto tudo debaixo da ‘vigilância’ dos operacionais militares, do administrador do concelho, do chefe da alfândega e do chefe da guarda‑fiscal.
De um lado, os zombo, com as suas relações familiares no espaço político de contrabando, beneficiavam da consanguinidade, da parentela por aliança, das particularidades linguísticas, da cultura geral kongo e do espírito religioso dos diversos clãs zombo (neste caso os Kanda)Do outro lado, os portugueses que, há muito anos, tinham deixado de rezar um Padre‑nosso ou uma Avé Maria, aliás, já os tinham esquecido, o que não era de admirar, uma vez que, a Igreja Católica, na zona dos zombo (excluída a vila de Maquela do Zombo), não se mostrava interessada no apoio religioso aos comerciantes do mato. Claro que, a seguir aos acontecimentos do 15 de Março, todos passaram a ser fervorosamente católicos.
 
Voltemos às relações entre os dois comerciantes: o zombo e o português. Aqui, abrimos um parêntesis para recordar que, quando se estava, para lá da fronteira, e se perguntava a um kongo de onde era, ele respondia sempre ‘mono bazombo’, ou seja, pertenço ao povo zombo. Por outro lado, quando se perguntava a um europeu de onde era, mesmo que fosse natural de Maquela do Zombo, ele não dizia que era de Maquela, dizia sim: ‘sou português’. Estas posições eram assumidas com a maior naturalidade, tanto por um como por outro. Talvez resida um pouco aqui, por mais paradoxal que pareça, a proximidade entre ambos, afinal mestres do mesmo ofício. Esta dicotomia entre o pensar tradicional e o pensar do português, seria, digamos, uma solidariedade mecânica, apesar do etnocentrismo de ambos, jogava um papel deveras importante, nas relações sociais, entre os diferentes interesses dos dois grupos étnicos intervenientes no Zombo. Formavam um ‘tecido composto de fibras sintéticas e de fibras têxteis’, faziam parte do mesmo sistema planetário Kongo. Enfim, a abordagem que se pretende tecer, nesta secção, permita‑se‑nos a expressão, é o eterno Estado das Trocas, ou melhor, o Estado Planetário do Comércio, a que Fernand Braudel (1985:9) chama o Valor de Troca:
“(…) Entre «vida material» (no sentido de economia muito elementar) e vida económica, a superfície de contacto, que não é contínua, materializa‑se em milhares de pontos modestos: mercados, quitandas, lojas…Cada um destes pontos é uma ruptura: de um lado a vida económica com as suas trocas, as suas moedas, os seus pontos nodais e os seus meios superiores, praças de comércio, bolsas ou feiras; do outro lado, a «vida material», a não‑economia, sob o signo repetitivo da auto‑suficiência. A economia começa no limiar do valor de troca”.22
 
A análise da trajectória dos diferentes actores, comerciantes locais portugueses ecommerçants zombo da então República do Zaire mostra que, apesar das profundas divergências de pertença política e comercial, estavam ambos unidos, numa experiência comum, com o novo sistema de trocas, criado pela guerra, e de que ambos começavam a tirar partido, especialmente os zombo, do lado de lá da fronteira, através da acumulação de riqueza e prestígio provenientes da circunstância que a guerra lhes proporcionava.

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