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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (44)

Publicado por Muana Damba activado 15 Marzo 2012, 05:52am

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr José Carlos de Oliveira.


 

 

Como poderá constatar‑se pelas manchas a tracejado no mapa acima, a situação geográfica das vata, construídas, destruídas e voltadas a construir, assumiam uma posição estratégica para prestar auxilio aos guerrilheiros que entravam pela zona Kimbata e Kibenga, com destino ao núcleo da serra da Kanda, e daí partiam para os diferentes comandos de ataque ao norte de Angola.
 
Tivemos o cuidado de ler em pormenor toda a história da unidade porém não encontramos qualquer vestígio de terem tido qualquer recontro com as hostes da UPA no trajecto da Damba para Maquela do Zombo, passando por Kibokoloo que reforça a nossa tese de que aos zombo nunca interessou que as nzil’a Kimbata/Maquela e Banza Sosso/Maquela bem como Maquela/Kibokolo, fossem alvo para desferirem os seus ataques, conclusão retirada mais tarde desta frase da história do batalhão: “No dia 5 de Junho a Companhia partiu para Maquela do Zombo, onde chegou à noite, depois de ter passado por Kibokolo e sem incidentes com os terroristas”.17 
 
Mas não foram só as mencionadas nzil’a bazombo, que os dirigentes políticos quiseram preservar “Quilo Futa foi ocupada em 12 de Setembro de 1961 às 08h00 por um pelotão reforçado que partindo do Béu em 11 necessitou de construir dois pontões não tendo entrado em contacto com o inimigo. A povoação não foi saqueada e praticamente a casa do Chefe de Posto estava intacta. Nas cubatas onde viviam os cipaios estava escrito numa parede exterior «o cabo de cipaios foi‑se embora no dia 18 de agosto de 1961»”.
 
Quando da sua saída prudente e calculada do posto administrativo ele quis acompanhar os brancos porque dizia também o ser, mas já na jangada do ZADI recebeu ordem para ir guardar o posto o que fez fazendo todo o percurso a pé (90 kms aprox.). Ali permaneceu até 18 de Agosto de 1961”.18 
 
Entretanto, as populações zombo, foram‑se instalando a escassas centenas de metros do lado de lá da fronteira e, mais uma vez, recebendo ordens dos seus novos chefes os comissários políticos que lhes prometiam que a guerra ia durar pouco, que não deviam fazer a guerra, essa não era a sua forma de combate, iriam continuar a fazer o seu negócio, o seu contrabando. Não podiam perder a possibilidade que tinham de malembe malembe, ‘devagar, devagar’ ir entabulando conversações com os portugueses através da nzil’a Kimbata e nzil’a Banza Sosso. 
Terminamos esta secção com mais uma referência da história do Batalhão 88 a reforçar a nossa tese:
Tendo havido comunicação do Posto Fiscal de Banza Sosso de que havia grande concentração de indígenas a cerca de 500 metros do Posto foi mandado seguir de Maquela uma força de efectivo de 1 pelotão de caçadores (+) que atingiu o referido posto em 31JUL61 às 23H45. Na manhã seguinte foi feito patrulhamento a pé em direcção à fronteira tendo‑se verificado: um numeroso grupo de indígenas, nacionais e congoleses trabalhavam nas lavras situadas junto à fronteira. Os mesmos fugiram precipitadamente à aproximação da tropa, tendo transposto a fronteira. A força capturou uma mulher o que provocou um grande alarido dos restantes indígenas. Como vissem que a tropa não a maltratava, aproximaram‑se tendo o comandante da patrulha entrado em contacto com os mesmos. Os indígenas, no entanto, recusaram‑se a atravessar a fronteira para o território nacional, pelo que o comandante da patrulha depois de tomadas as devidas precauções e de se assegurar não haver elementos militares estrangeiros na proximidade, avançou alguns metros para território estrangeiro, tendo contactado com o soba da região, o qual explicou que a concentração assinalada tinha sido motivada por um funeral.”19
 
Os kongo, em geral, sempre entenderam que os militares portugueses nunca os atacariam se utilizassem a figura de estilo ‘Estamos a fazer um óbito’. Desde o final do século XIX, que registamos na dissertação a evidência desses factos.
 
Enfim, os zombo foram percebendo que a situação política não se definia, que era extremamente vantajoso para eles continuarem a negociar com os portugueses pois aajuda alimentar que os EUA estavam supostamente a prestar às populações carenciadas da República do Congo, era desviada para armazéns de comerciantes zombo, sedeados especialmente, em Kinshasa. Ora isto, punha à prova a sua capacidade de concorrência no negócio de fronteira, no qual continuavam a fazer jus à qualidade da sua ancestral profissão como dos melhores e mais eficientes comerciantes de Angola e do Congo.
 
 
O Comércio Legal e Contrabando de Fronteira em Tempo de Guerra
 
Uma das principais preocupações das chefias militares portuguesas era a de limitar, ao máximo, o acesso de bens alimentares bem como dificultar a logística do armamento às unidades de guerrilha da UPA, instaladas nas matas do norte de Angola.
 
Dois produtos eram vitais para os guerrilheiros da UPA (células de comandos operacionais em zona de combate): o sal e o peixe, uma vez que os restantes alimentos, como a kikuanga, o óleo de palma, a cana‑de‑açúcar, o gengibre, o gindungo e a kola lhes eram fornecidos pelas respectivas famílias, como já tivemos ocasião de abordar a questão.
 
O peixe, em especial, o judeu ou merma, da família do atum, fazia parte, desde há muito (como o bacalhau para os portugueses), dos alimentos mais apreciados por estas populações e o sal era permanentemente procurado. Logo no início de 1963, se recomeçou a normalizar o fluxo de entrada e saída de pessoas e bens essenciais à vida das populações, pelos postos fronteiriços de Kimbata e Banza Sosso (especialmente pelo primeiro). As autoridades administrativas e militares procuravam facilitar as condições de apaziguamento das populações envolvidas pela guerra na zona e, por sinal, essa situação era também altamente favorável aos desígnios da proverbial política comercial zombo.
 

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