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Portal da Damba e da História do Kongo

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Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (8)

Publicado por Muana Damba activado 15 Julio 2011, 20:26pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr José Carlos de Oliveria.

 

 

 

Quatro componentes da colonização portuguesa do norte de Angola, tornaram‑se relevantes para a importância do seu legado no futuro desenvolvimento dos zombo. Estamos a referir‑nos aos comerciantes do mato, em primeiro lugar, por serem os intérpretes das trocas mercantis, e delas, muitas vezes, se  aproveitaram indevidamente não tendo o menor escrúpulo em enganar o indígena, que também não era assim tão inocente, se nos lembrarmos da secular concorrência dos mercadores islamizados na área. Seguidos dos militares, que se serviram das informações dos comerciantes, para poderem progredir no terreno, porque foram eles os principais intérpretes da ocupação efectiva, os que eram obrigados a pagar muitas vezes com a vida, a missão de que estavam investidos, carregando com o ónus do ódio ao branco.
 
Devemos acrescentar que os valores morais pelos quais se pauta o militar e que são a ‘honra, a vergonha e o dever’. Esses princípios trazem na sua essência os mais elementares conceitos de justiça, sendo evidente que as grandes agruras passadas em campanha também levam ao desleixo e, muitas vezes, ao rompimento com os valores acima mencionados.
 
De seguida, referimo‑nos aos missionários que não necessitam de apresentação, dada a sua presença por estas paragens desde a chegada de Diogo Cão (1483). À sua acção dedicámos já uma parte substancial da primeira parte da dissertação quando demos a nossa contribuição para os “Antecedentes dos Zombo com o Reino do Kongo”, porém, devemos acrescentar que as relações entre duas igrejas – a católica e a protestante e o Residente em S. Salvador do Kongo, não foram nada fáceis – a partir de 1878, com o início das relações de George Grenfell, primeiro director da Baptist Missionary Society, relatadas numa obra extraordinária (da qual não demos fé nem nas Biblio­tecas das Universidades Portuguesas nem na Biblioteca da própria Sociedade de Geografia de Lisboa) que o autor Harry Johnston (1908) intitulou ‘George Grenfell and the Congo28.
 
Abaixo reproduziremos uma célebre fotografia de George Grenfell em S. Salvador. No nosso estudo, não estamos interessados em filiações religiosas, interessam‑nos sim as figuras e as obras destes dois homens excepcionais, por ordem de chegada a S. Salvador: George Grenfell e o padre António Barroso.
 
 
  
A nossa formação antropológica dedica particular atenção à Antropologia Visual, e a fotografia acima sugere‑nos dois reparos: Grenfell está apoiado numa carabina e devidamente vestido para enfrentar os caminhos do mato. Perguntamo‑nos como o faria o padre António Barroso. Não é a nossa opinião que está em causa, mas sim os factos e as relações consequentes das preocupações sociais dos missionários para com os povos kongo da região. Iremos ao encontro da história com documentos, e neste caso, embora saibamos das posições ideológicas tanto de Heliodoro Faria Leal, como de Norton de Matos, lembremo‑nos que um era localmente o representante do governo e outro a autoridade máxima na altura em Angola. Comecemos por dar a palavra ao primeiro, acerca do trabalho missionário, em geral, e depois, em particular, acerca de António Barroso:
 
 
 
Embora, pelo que deixou escrito deixasse entender a sua inclinação para privilegiar os missionários protestantes, o que escreveu sobre o padre António Barroso deixa entender o respeito pelas atribuições do missionário, que se seguem descritas:
“Inteligente e activo o padre Barroso lançou as bases da moderna propaganda religiosa católica e se não levou de vencida os seus antagonistas protestantes sustentou, contudo, briosamente a contenda e criou um forte núcleo de adeptos, no que teve como auxiliares e seguidores os padres Sebastião José Pereira, Mathias, Gata, Albuquerque e Pequito, jazendo este último no abandonado cemitério de S. Salvador do Congo” 30
 
 
  
A última componente, por ter sido a última a chegar, os administradores de circunscrição e os sacrificados chefes de posto que viriam a substituir os capitães‑mores, note‑se que dizemos sacrificados porque Portugal e a administração colonial portuguesa nunca os recompensou devidamente, especialmente nos seus vencimentos e regalias (só facultadas a administradores de circunscrição). Algumas vezes, foi‑lhes apontada brutalidade e injustiça no cumprimento dos seus deveres, que diga‑se em abono da verdade alguns mereceram, mas a maioria sabia, isolada como estava, que impor pela força a autoridade era condição sine qua non para uma vida passada a ser odiado sem necessidade.
 
Aqui, não se abordará a colonização dirigida porque pura e simplesmente não se verificou nesta parte de Angola. Os percursos, que os europeus faziam em caravana ou isolados, eram os mesmos que os zombo percorriam há séculos. Poucos fazem ideia do que era passar o terreno dos dembos, o calor insuportável, o andar, ou melhor, o arrastar dos pés pelos areais do Libombo ao Tabi e daqui por sua vez ao Ambriz. A falta de água potável, os lamaçais, o corpo rasgado pelas espinheiras, o medo de ser mordido por uma serpente e, acima de tudo, os mosquitos que com as suas constantes picadas não deixavam as gentes em paz, tornavam‑se as mais implacáveis dificuldades. Entre os inconvenientes climáticos, havia a destacar a predominância de um tempo quente e húmido, que fazia com que a roupa estivesse permanentemente colada ao corpo, fazendo dos viajantes presas fáceis dos agentes infecciosos, como os insectos vectores, os protozoários, os fungos, os vírus e bactérias. Alguns são cosmopolitas, como os da lepra, tuberculose, febre tifóide e desinteria amebiana, outros eram de origem exclusivamente africana como os da bilharziose, das tripanosomíases e da febre‑amarela. Sem dúvida, que esses europeus ‘compradores de ilusões’ se encontravam em terrenos da maior concentração de doenças malignas existentes nas terras africanas. Não admira que muitos desses viajantes morressem logo após os primeiros meses da chegada.
                      
                Com a colaboração de Associação dos Bazombos "Akwa Zombo, AKZ"
                   
                                       e-mail: joão_daves@yahoo.fr

 

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