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Portal da Damba e da História do Kongo

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Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (7)

Publicado por Muana Damba activado 4 Julio 2011, 12:39pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

 

Por Dr José Carlos de Oliveria.

 

Entre os zombo, os colonos brancos raramente se estabeleciam na condição de colono da terra ou o célebre xicoronho, como era conhecido o emigrante português no planalto da Huila. A título de curiosidade, quanto à corruptela de colono por xicoronho, a palavra é composta pelo prefixo nsi ou xi que, mais uma vez, significa terra, no sentido de país, e coronho, que, como se torna claro, indica colono, designando assim o branco que trabalhava a terra.

 
Dos autores que conhecemos e que se dedicaram ao assunto, optamos por nos debruçar atentamente sobre cinco deles. Mantê‑los‑emos no nosso horizonte de memória, enquanto dissertarmos sobre a colonização entre os Zombo. O primeiro é conhecido da generalidade dos portugueses, foi Ministro do Ultramar, em época difícil da governação portuguesa nas colónias, ou seja, por finais dos anos cinquenta e princípio dos anos sessenta do século passado. Trata‑se de Adriano Moreira sobre quem recaiu também a responsabilidade da direcção do Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina, sedeada em Lisboa, escola de onde saíram os diferentes escalões dos responsáveis pela governação das colónias, embora fossem conhecidas ultimamente porprovíncias ultramarinas. O segundo autor trata‑se de René Pélissier, o reputado investigador das questões coloniais das potências colonizadoras europeias. A ele recorreremos com frequência, pela actualidade das suas referências em relação à vida dos zombo, durante o período colonial, com as suas obras “La Colonie du Minotaure” (1978)19, “Le Naufrage des Caravelles” (1979)20 e “Histórias das Campanhas de Angola,Resistências e Revoltas 1845/1941 21. Em terceiro lugar, referir‑nos‑emos a João Baptista Nunes Pereira Neto, e sobre ele citamos René Pelíssier (1978:36) (“Le meilleur spécialiste de la question démontre qu’en vingt ans (1931‑1951) l’Etat se desintéressera a peu pré complètement de la colonisation dirigée…” acrescentando que a sua tese de doutoramento ‘Angola Meio Século de Integração22 nos tem vindo a servir para perceber a importância da sua envolvência face ao nosso tema. Em quarto lugar apontamos para Manuel Alfredo Morais Martins, por ser um investigador que trabalhou e conheceu os zombo, durante a década de cinquenta do século passado pois ali exerceu o cargo de Administrador na vila da Dambao que o levaria a escrever a obra ‘Contacto de Culturas no Congo Português’(1973)23. Finalmente, o quinto autor é Arthur Ramos de Araújo Pereira, médico psiquiatra, psicólogo social, indigenista, etnólogo, folclorista e antropólogo. O que mais nos aproxima deste autor são as comparações que podemos estabelecer muito nitidamente, com os kongo e por consequência, com os zombo, através de três obras de sua autoria: O Negro Brasileiro(1934)24O Folklore Negro do Brasil (1935)25 e finalmente Estudos de Folk‑Lore (1951)26. Pensamos não ser um pretensiosismo, apontarmos este escritor brasileiro, como de leitura indispensável para discorrermos sobre o pensamento zombo, especialmente pela relação temporal e pelo espírito Zeitgeist, ou seja, o "espírito da época" ou "espírito dos tempos".

 
Retomemos agora o título deste sub‑capítulo: A ‘Situação Colonial ’ entre os Zombo.”. O seu significado é entendido segundo Adriano Moreira (1966:23) “Como um complexo peculiar de relações humanas sistematizadas tendo como fulcro um certo tipo de dependência”. De seguida, desenvolveremos os mais variados aspectos da questão, derivados da consulta de documentos históricos. Através da sua leitura, foram‑se enraizando, crescendo e desenvolvendo ideias sobre a peculiaridade da colonização entre os zombo, e continuando a citar sobre a questão, Adriano Moreira (1966:25), mais claro e evidente se torna o nosso pensamento:

“É que a sociedade responsável pela constituição da situação colonial, quer no aspecto do colonizador, quer no aspecto do colonizado, era inteiramente diferente, nas suas características, da sociedade formada por aqueles que actualmente se encontram envolvidos no fenómeno colonial. Bastará lembrar, como nota de primeira evidência, que não tinham por essa altura, nem experiência de colonizadores nem experiência de colonizados, e que não podiam sofrer nas respectivas personalidades as pressões peculiares de uma vida em comum segundo o esquema colonial que eles próprios estabeleceram”.

 
Um pouco mais à frente, Adriano Moreira (1966:30) acrescenta para melhor esclarecimento:

 
“(…) será então preferível, para os fins da ciência política, substituir a noção de colónia pela noção de situação colonial e dizer que esta se verifica sempre que no mesmo território habitem grupos étnicos de civilização diferente, sendo em regra o poder político exercido só por um deles, sob o signo da superioridade e acção modificadora de uma das civilizações em contacto. Quando os órgãos do poder político têm sede em território geogràficamente distinto, por acidente natural ou histórico, diz‑se que a situação colonial decorre numa colónia.”

 
Convirá finalizar, por agora, o pensamento de Moreira (1966:37) para o enquadrar no objecto de estudo da dissertação de Neto (que transcreveremos abaixo:

 
“Pelo que toca ao destino da relação de dependência colonial, pode o esquema colonial ser definido em função de uma final separação entre o Estado colonizador e o povo colonizado, que vem a adquirir a independência; ou pode acontecer que o fim procurado para a independência colonial seja a integração numa unidade política, que pode revestir qualquer das formas clássicas de Estado unitário ou federado, ou mesmo qualquer outra forma nova, como parece ser o objectivo da União Francesa”

 
Na posse deste esclarecimento, entenderemos então que a questão colonial não foi ‘uma linha recta’. Houve que agir operacionalmente conforme a conjuntura política internacional se apresentava a dado momento, e sobretudo nunca perdendo de vista os magros meios financeiros portugueses e o seu fraco excedente demográfico disponível. Apesar de todos os esforços, houve sempre grande cautela em gerir o recurso à força, com que, por vezes, a sociedade colonizadora se viu obrigada a utilizar. Os zombo reagiriam à pressão a que estavam condenados.

 
É por isso, oportuna e sintomática a dissertação de João Pereira Neto. Será bom que atentemos no título e na data da publicação, 1964, e daí podermos retirar algumas e preciosas ilações, bastando substituir o termo usado diferença tecnológica por poder político. Voltaremos a esta citação noutra ocasião (1964:19).

 
“O estrito cumprimento desses princípios é condição essencial de sobrevivência para o grupo tecnologicamente mais evoluído, se for demograficamente minoritário, porque se assim não proceder, na altura em que for superada a diferença tecnológica a reacção do grupo até então considerado inferior não só destruirá, na sua ânsia de superar o condicionalismo em que se integra, tudo o que considere revelador da sua condição de inferioridade, como inutilizará também tudo o que de bom houver sido feito pelo outro grupo”.

 
Com o respeito devido à autoridade do autor no tratamento deste assunto, gostaríamos de lembrar aqui uma frase que ouvimos em 1975 a Jonas Malheiro Savimbi: “Quando os elefantes se zangam quem sofre é o capim…”, na versão portuguesa: “Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão…”. Embora fosse essencial o respeito pelas condições de vida do grupo tecnicamente menos evoluído, Neto estava muito atento e diga‑se de passagem que na dissertação não se referiu a questões que sabia seremcruciais para o seu objecto de estudo. Na abordagem e referências face aos zombo, só Adriano Moreira parece não ter referido em qualquer obra ou artigo os zombo. Ainda assim, que saibamos, só Alfredo Morais Martins (1973:99) conheceu no terreno e bem os zombo, afirmando o seguinte:

  
“Os mercados em todo o Congo, abstraindo da referida evolução derivada de alterações sofridas pelo comércio de exportação, tinham e têm características especiais e dignas de nota, que devem vir de recuadas eras em que a instituição se criou e se têm mantido quase incólumes até aos nossos dias, pelo menos nas áreas onde se radicaram mais firmemente e que são, precisamente, as que melhor conhecemos: Zombo e Damba” 27.

 
Para reforçar o título da nossa dissertação em kikongo, diz a respeito apoiando‑se em J. Van Wing, autor da obra Etudes BakongoHistoire et Sociologie, Bruxelas, (1921:107):

  
“Na região de Mpangu que actualmente tem como centro principal a importante povoação de Thysville, no Congo Belga, a influência dos Bazombo era tanta, as visitas comerciais eram tão frequentes, que a Via Láctea, por apresentar no firmamento a mesma direcção do principal caminho trilhado pelas caravanas daqueles caminhantes infatigáveis, passou a ser conhecida por Nzila Bazombo, isto é, caminho dos bazombo”.

 
Veremos ainda que o nosso discurso fluirá como contribuição ao estudo das características do povo zombo, e que, umas vezes, coincidirá com as opiniões do autor citado e outras vezes rondará particularidades e factos históricos deste povo de fronteira o que, até aqui, que saibamos, não foram abordadas em dissertações académicas, nem dela demos conta em qualquer outro texto. Vamos realçar a dinâmica da plasticidade dos zomboface à administração dos portugueses, veremos como souberam iniciar a nova adaptação à prática do contrabando de sobrevivência. A adaptação à agricultura de tráfico que as suas famílias, melhor as suas mulheres e filhas se viram compelidas a aprender, equilibrando o que precisavam para a alimentação da família até à nova colheita de outro alimento vegetal substituto, vendendo o restante nos nzandu (mercados), debaixo da tutela do chefe de família, sendo certo que talvez fosse a partir daqui que começaram a fazer o seu mealheiro e subtilmente fazerem o seu próprio mercado paralelo face ao marido. Terá sido com este povo que os portugueses terão de se entender nesta zona até 1975.

 
 
                Com a colaboração de Associação dos Bazombos "Akwa Zombo, AKZ"
                   
                   
                                    e-mail: joão_daves@yahoo.fr

 
 

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