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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (5)

Publicado por Nkemo Sabay activado 15 Junio 2011, 13:43pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr José Carlos de Oliveria.

 

 

Esta qualidade, inerente a todos os povos, de se libertarem do jugo de estranhos parecendo que se submetem ao domínio daqueles que deles se tentam aproveitar, está bem patente no artigo no Diário de Notícias assinado pelo governador do distrito do Congo, José da Silva Cardoso:
“Em todos os casos o objectivo real da rebelião é sempre o forte desejo que o preto tem de sacudir o jugo do branco, ao qual se submete aparentemente, respeitando a sua força, e admirando o seu engenho, mas detestando o seu ascendente.” 10

 
Os sucessivos aumentos das taxas de imposto de cubata, que incidiam sobre os povos da área, iam criando as condições favoráveis ao início da rebelião a que se adicionavam as exigências da prestação de serviços dos carregadores não remunerados pela administração colonial. O insucesso das operações tentadas em 1913, que resultou na morte do Capitão Praça, deu aos rebeldes a ideia real da forma como podiam e sabiam fazer frente às forças de que dispunha o exército português.

 
Encontramos aqui condições relevantes que propiciaram a actuação guerreira do grande chefe Álvaro Tulante Buta. Este ainda não tinha perdido as esperanças de chegar aNtotila, até porque, e acima de tudo, a sua linhagem uterina lho permitia. Mais uma razão para que movesse a guerra aos portugueses e conseguisse concretizar o seu desejo. Ele acreditava que, uma vez derrotados os portugueses, conseguiria a reunificação do antigo reino do Kongo. Assim pensaram os primeiros dirigentes da UPNA nos finais dos anos cinquenta do século passado.

 
Os hábitos adquiridos com a transigência das autoridades de S. Salvador (depois Maquela do Zombo, Damba e Bembe, para nos reportarmos à zona de influência dos chefes zombo) para com as missões inglesas sedeadas no então Congo Português facilitaram o crescente ascendente das mesmas sobre os povos da sua zona. A esfera de acção da companhia inglesa Cadbury, transformadora dos produtos do cacau, tinha, no entender do autor do manuscrito em nosso poder,11 como responsável pela angariação de mão‑de‑obra indígena o missionário inglês Bowskill12. Acrescenta ainda o mesmo documento:

 
 
 
  
“As manobras da Cadbury na sua campanha pseudo‑anti‑esclavagista, estendendo‑se ao Congo Português onde tinha por agente o missionário inglês Bowskill. Director da British Baptist Missionary Society, explorando o recrutamento de mão‑de‑obra para S. Tomé e para as fazendas do enclave”.13

 
Este mesmo assunto é referido em pormenor por René Pelissier (1986: 312), que a determinado momento confirma o que vimos dizendo:

“O novo administrador de S. Salvador, o Capitão Martinho José de Sousa Monteiro, que realizara havia pouco a junção Noqui‑S. Salvador, não era, decididamente, defensor dos protestantes, em especial do Rev. Bowskill, que parece não ter sido tão inocente como dizia e que, libertado mas vigiado, ficou em S. Salvador até ao Outono de 1914.”.

 
Pelo que temos deixado transparecer, a posição, até mesmo pessoal, do Capitão José de Sousa Monteiro relativamente a Bowskill era de total desconfiança. No entanto, Bowskill era um missionário da inteira confiança de Faria Leal, administrador de S. Salvador, e que o Capitão José de Sousa Monteiro veio substituir. Segundo este, o missionário era muito respeitado por todos e, em especial, pela parte da família do Ntotila, que tinha optado pela religião cristã baptista. Estas circunstâncias revelam, de certo modo, os diferentes interesses que envolvem sempre os representantes económicos, políticos e religiosos. Foi, é e será um tema de difícil tratamento e análise.

 
Como última referência à estratégia comum a todos os interessados no domínio da região, não é de mais repetir citações que apontem para a importância das vias de comunicação e do seu domínio. Neste sentido, citamos novamente a circular do governador de distrito José da Silva Cardoso:

 
“Em Maio de 1911 a região do Zombo pretendia impor‑se à nossa autoridade […] Esta última sublevação forçou‑nos a ir ao Zombo […] Reconhecendo que a Damba se servia do caminho do Bembe para as suas relações com Maquela, procuramos assenhorar‑nos desses caminhos […] É necessário policiar os caminhos para activar as marchas das caravanas.” 14

 
Numa última referência a Buta, citamos o mesmo governador de distrito porque a lição das enormes dificuldades colocadas por Buta ao domínio político e territorial dos portugueses não serviu às chefias militares da Zona Intervenção Norte a partir de 1961, e no nosso entender até finais de 1965:


“Note‑se de passagem a simultaneidade d’estes ataques: adeante veremos que proximamente na mesma época era atacado o posto da Damba e em face d´isto não háverá quem ouse contestar que todos estes ataques obedeciam a um bem elaborado plano, que levando‑nos a dividir as poucas forças de que poderíamos dispor, nos conduzia à fraqueza em toda a parte e que, se não nos colocasse em risco de sermos batidos e aniquilados, nos crearia, pelo menos graves dificuldades em subjugação da revolta. Não havia dúvida de que um tal projecto abona a capacidade táctica e estratégia do autor, que ainda reservava para si a vantagem de manobrar pelas linhas interiores, como parece provado que o fez; e, em face disto, a admitirmos que um tal projecto foi elaborado por Buta, estensivo chefe de guerra, absolutamente analfabeto, teremos que curvar‑nos reverentes em face deste génio, só igualado pelo que os seus subordinados manifestaram na arte da fortificação.” 15

 
O documento que a seguir apresentamos é um esboço topográfico da estrada de Noki a Maquela do Zombo e deixa uma reflexão: poderemos nós agora imaginar o que foi a luta pela abertura das vias de comunicação em Angola a partir de meados de 1915 a 1930?

 
 

 
 
Quanto teria custado, em termos de impopularidade, a obrigatoriedade de parte de população válida ter de trabalhar, sem salário, na desmatação e derrube das árvores? Enfim, no nivelamento das estradas, sem esquecer a confiscação de terras aráveis por onde viriam a passar essas mesmas estradas? Deixamos a este respeito uma nota retirada do mesmo documento do esboço e que se refere à estrada de Noki a Maquela do Zombo:

 
“Estrada esta já construída entre Noqui e a ribeira Mavoura na extensão de 15 quilómetros. Isto não é nada para a extensão total dela que anda por 300 quilómetros (e não 202 como erradamente se fez supor […] Não segue ele o traçado já esboçado pelo pessoal das Obras Públicas e mais ou menos seguido pelas comitivas entre Noqui e o rio Kenguel […] Em todo o caso não se pode afirmar, sem um estudo prévio, que o actual caminho possa ser aproveitado por uma estrada regular”. 16

 
Este traçar do futuro começaria a trazer uma grande instabilidade à organização social tradicional dos zombo, habituada que estava, desde há séculos, a exercer a sua vida económica através de trocas, impondo com as razões do seu poder, que muito bem sabiam equacionar, o domínio comercial de grande parte do baixo Congo. Os panos foram sendo substituídos ‘lentamente’ por moeda, tanto portuguesa como belga, adquirida através do trabalho compelido em Angola ou com o ganho na emigração zombo para o Congo ex‑Belga, a que não era estranha a necessidade de mão‑de‑obra sentida pelos belgas, especialmente nas explorações mineiras e na construção dos caminhos‑de‑ferro. No caminho‑de‑ferro de Matadi, era comum o uso da inequívoca expressão kikongo Bula Matadi para designar o caminho feito só a ‘partir pedra’. Esta expressão tem a ver com a forma das populações da zona compreenderem como forma de desobstruírem o caminho fazendo explodir pedras por vezes com centenas de toneladas de peso recorrendo ao uso da dinamite. Este tipo de tecnologia utilizado na construção de uma via‑férrea era completamente inacessível à capacidade financeira do estado português, embora este reconhecesse como era imperiosa a instalação da via‑férrea para o desenvolvimento do domínio português em Angola. A introdução do salário no trabalho obrigatório começava a ser defendida com grande firmeza, embora também com grande prudência pela administração colonial. Sobre esta problemática, Sampayo e Mello (1910: 333) lembra:

 
“(…) Mgr. Angouard, bispo do alto Congo Francêz ainda há poucos mezes, num livro sobre o Congo, defendia o trabalho obrigatório para os pretos e sustentava que ele deve ser mantido com grande firmeza, embora com grande prudência, acrescentando que a exploração do trabalho indígena em África longe de poder‑se classificar de escravatura, representava um bem estar social bem mais favorável do que os brancos da metrópole, verdadeiros escravos sob o jugo dos impostos, do serviço militar, e das rudes exigências do trabalho rural.”

 
Contudo, a aplicação do pagamento em dinheiro por serviços prestados custou aos orgulhosos e omnipotentes zombo a gradual adaptação a tarefas que normalmente não aceitariam, pela sua vinculação aos seus seculares costumes tradicionais e, por consequência, mais dificuldade tiveram em se adaptar às novas regras mercantis dos portugueses. Foi necessário ainda que a ocupação efectiva desse lugar, de uma forma gradual, ao cimentar da colonização branca e que tomasse efectivamente a forma peculiar da autoridade militar, que se traduz por inequívoca obediência, seguida de perto pela administrativa para que os zombo se aquietassem.

 
Parte do dinheiro auferido pelos zombo na construção de estradas e vias‑férreas do Congo ex‑Belga viria a ser aplicado no pagamento do alembamento da primeira e talvez única mulher17. Pela primeira vez, alguns jovens zomboque normalmente tinham dificuldades em conseguir das suas patrilinhagens o pagamento da compensação nupcial, estavam agora em condições, através do salário auferido com o trabalho na nova economia monetária, de satisfazer as exigências das matrilinhagens da noiva. Porém, a adaptação aos novos critérios de vida e o ‘esquecer’ das obrigações sociais para com os seus maiores precisava de tempo, tanto tempo que ainda hoje essa adaptação se está a processar.

 
            Com a colaboração de Associação dos Bazombos "Akwa Zombo, AKZ"
                   
                                    e-mail: joão_daves@yahoo.fr


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