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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (4)

Publicado por Nkemo Sabay activado 8 Junio 2011, 12:55pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr José Carlos de Oliveria.

 

De acordo com Roberto Correia (2001:32), durante o governo de António Nogueira Mimoso Guerra (de 31/03/1914 a 02/09/1914), em “Abril – Buta continua na região de Maquela, tentando lançar todos na revolta contra os portugueses. Foi novamente derrotado, sendo incendiadas as aldeias dos zombo.” De facto, e logo em fins de Abril, o capim está pronto a arder. O terreno fica completamente raso, só vingando os arbustos mais fortes e mesmo esses ficam quase reduzidos a cinzas. Consequentemente, todas as vantagens que a época do ano oferecia às intenções bélicas de Buta se esvaiam. Por isso se dá a notícia de que em “Agosto – 13 – Buta foi vencido em MBanza‑a‑Kongo, conseguindo escapar‑se mais uma vez.” (Correia 2001:34).
 
O novo Governador‑geral, José Mendes Ribeiro Norton de Matos (de 02/09/1914 a 08/03/1915), não podia esperar mais tempo. As tropas estavam exauridas, com muitos homens fora de acção, não tanto pelas perdas de vidas humanas causadas pelo inimigo, mas, acima de tudo, pelas febres, sendo que a malária era a principal causadora de tanto sofrimento. É então que em “Setembro – ao norte de S. Salvador do Congo os chefes locais estavam dispostos a negociar a paz.” (Correia 2001:35).
 
Na posse dos dados supracitados, já poderemos compreender as dificul­dades por que passaram as autoridades portuguesas no seu avanço pela tomada de posições no norte de Angola. De facto, e conforme relatório do Chefe do Estado‑Maior em Cabinda, datado de 18 de Setembro de 1914:
 
 
“Uma campanha em África, mais que em qualquer outra parte, e no Congo mais do quer em qualquer outro districto, em razão da sua topografia que exclue qualquer meio de transporte que não seja o carregador, exige um intenso e demorado trabalho de preparação; ora nas operações realizadas no Congo em 1914 não houve preparação alguma.” 6
 
Para os Kongo estava em causa um sistema de sobrevivência agrícola que não deixava recursos de alimentação para o ano seguinte, o que os obrigava a fazer a guerra sempre que tivessem as colheitas dos produtos de que se alimentavam já feitas. Não causará então estranheza que os zombo soubessem, do ponto de vista da sobrevivência das populações, quando o tempo lhes era favorável para fazer a guerra ou a paz. Era o seu modo de vida secular que estava em causa. Os zombo sabiam negociar a paz e fazer a guerra como poucos. Para eles a paz sempre foi tão importante como a guerra, desde que, com cada uma delas, pudessem ir fazendo a sua inveterada vida comercial ambulante. Viviam os dois extremos com a mesma forma astuta de ultrapassar todo e qualquer obstáculo, demorassem o tempo que demorassem a contorná‑lo. Em última instância, partiam para a guerra não como um fim, mas como um meio para conseguir utilizar as suas nzil’a bazombo, ou melhor, os seus velhos itinerários mercantis.
 
Conhecendo o governo português esta forma de estar dos zombo (enquanto povo raiano), utilizava, conforme a situação das populações, diferentes métodos para atingir o mesmo fim: a ocupação efectiva. Prova disso é o seguinte trecho que encontrámos numa circular do governo do distrito:
 
“Neste caso nem sempre o imposto nos dará a justa medida da submissão – Depois dá‑se também o caso de em um dado momento não ser propriamente a cobrança do imposto de cubata o objectivo imediato dos problemas de ocupação os quais na realidade e na maioria dos casos, sempre, digo, na maioria dos casos, assumem sempre um aspecto geral que exige uma bem meditada sequência de medidas administrativas […] No distrito do Congo, ainda estamos nas circunstâncias que tornam necessário proceder‑se na ocupação como este governo refere na página 22 do seu relatório de 20 Fevereiro de 1911, isto é: realizá‑la pelas linhas de menor resistência até à fronteira.” 7
 
Embora, em termos teóricos, o problema da divisão de fronteiras geográficas e dos povos que habitavam a região parecesse resolvido, as autoridades portuguesas confrontavam‑se com problemas decorrentes da aplicação prática das decisões operacionais que viessem, efectivamente, concretizar a estabilização das populações. Neste sentido, consideremos a seguinte citação, da mesma circular do governo de distrito (o sublinhado é de nossa autoria):
 
“O problema de ocupação ao longo da fronteira, se é certo que não oferece um aspecto de contingência internacional, porque está feita a delimitação, tem todavia uma importância capital, porque evita o deslocamento dos povos, principalmente dos arraianos tão frequente ao longo da fronteira Luso‑Belga em ambas as citadas regiões e evita ainda um outro facto não menos importante, a saída pelos portos belgas dos géneros coloniais produzidos em território nosso, sem deixarem à nossa bandeira, quer sob a forma de lucro para o comércio particular, quer sob a forma de regime aduaneiro para o Estado”.8
 
Os zombo tinham encontrado uma nova forma, muito mais rentável e menos cansativa, de ganhar a vida. Infelizmente, para eles, seria por pouco tempo. A nova oportunidade, para os zombo, de independência comercial só surgiu em 1975 quando tomaram posse de vez das casas comerciais dos portugueses. Anteriormente, para sobreviverem à ocupação dos comerciantes portugueses enquanto principais agentes da ‘bandeira portuguesa’ na fronteira noroeste de Angola, desceram à categoria de vendedores ambulantes e comissionistas (os célebres minkiti conhecidos no Zombo por kankitas) integrando‑se e ‘subordinando‑se’ de modo exemplar à ocupação portuguesa. E de tal forma desempenharam os serviços de que eram encarregados, que os melhores colaboradores eram altamente disputados e relativamente bem pagos, dada a sua influência sobre os povos muxikongo, sossos, pombos e yakas, o que muito ajudaria os portugueses a estabelecerem a capitania‑mor do Kuango.
 
Porém, uma ocupação é sempre vista, por quem é ocupado, como uma forma de violência. Os menos avisados reagem de imediato e, por esse motivo, pagam com a vida a sua rebeldia. Outros, como foi sempre o proverbial caso dos zombo, tornam latente o seu orgulho de independência (no sentido de liderarem a sua vida sem obstáculos). Submergiam e submergem ainda, esperando com a maior paciência, sempre acautelados pelos seus ‘sábios’, a melhor ocasião para emergir adequadamente. Esse adequadamente era visível quando, por exemplo, traziam hasteada, à frente da caravana, a bandeira que permitia que fossem reconhecidos ao longe, indicando o povo a que pertenciam.9 Se antes não faziam ideia do propósito de qualquer comitiva trazer hasteado um ‘pano’, não lhes foi difícil relacionar esse mesmo ‘pano’ com as pessoas que integravam a caravana e avaliar se lhes interessava ou não contactar com eles. Esta noção foi‑lhes incutida pela forma como as comitivas portuguesas, francesas, belgas e inglesas se apresentavam perante eles, também com a bandeira hasteada. Tal pode ser observado na fotografia que se segue.
         Com a colaboração de Associação dos Bazombos "Akwa Zombo, AKZ"
                             e-mail: joão_daves@yahoo.fr
 

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