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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (39)

Publicado por Muana Damba activado 4 Marzo 2012, 05:37am

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr José Carlos de Oliveira.


 


Dois defensores da povoação de Kibokolo e pertencentes à mesma entidade patronal, não sabendo que o Joaquim já não estava no Kusso, deslocaram‑se numa carrinha, sem mais apoios, à povoação. À sua chegada, constataram que o Joaquim tinha ido para a Damba, segundo o relato dos miúdos ‘que tinham ficado a tomar conta da casa’. O espanto dos dois europeus foi enorme, quando viram surgir do caminho de pé posto, que levava à serra da Kanda, um branco seguido por uma branca trazendo atrás o seu caçador com a carabina às costas. Foi‑lhes perguntado se sabiam que havia uma guerra, espantados, disseram que não sabiam, foram aviados das mercadorias que necessitavam e voltaram pelo mesmo caminho.
 
Em 1963, o ‘Joaquim do Kusso’ propôs à sua entidade patronal que o autorizasse a recuperar a casa comercial do Kusso. O negócio foi feito, a troco de parte dos ordenados em atraso, incluídos os meses que esteve ao serviço do administrador da Damba. Restaurada a casa, passou a ir à Damba, reabastecer‑se de mercadorias. De 1963 a 1974, nunca teve problemas com a UPA nem com o administrador da Damba. Assim que começou a trabalhar, levou consigo uma filha do soba Luvumbo. Foi a sua inseparável companheira durante onze anos. Um dia, nos finais de 1974, o ‘Joaquim do Kusso’ informou‑a que desejava visitar os seus familiares, em Portugal, uma vez que, há vinte anos que não os via. O que o Joaquim não sabia é que a sua companheira sabia de muita ‘mãe preta’ que tinha ficado na vila da Damba e mesmo de Maquela porque, segundo ela, os brancos fizeram os filhos, casaram depois com brancas e nunca reconheceram nem a companheira nem os filhos de ambos. É certo que ela sabia de alguns que levaram para Portugal as suas companheiras, mas foram poucos, comparados com os outros. Um dia, o Joaquim começou a sentir‑se mal do estômago, foi duas ou três vezes consultar o médico militar à Damba, infelizmente pouco tempo depois piorou, não recuperou da doença e morreu.
 
Como podemos facilmente constatar, só foram transcritos documentos referentes à zona política dos zombo e, por eles, se confirma a sua influência no processo de independência de Angola. Estimava‑se que, nos finais da década de 1950, residissem na zona de Kinshasa cerca de sessenta mil angolanos, sendo a sua maioria pequenos e médios comerciantes de origem zombo.
 
Os testemunhos descritos demonstram, como essa mesma época foi vivida pelos portugueses, entre os zombo. Nos últimos anos da década de 60, a intuição de alguns comerciantes (e não só) portugueses ‘falava‑lhes ao ouvido’ para se despacharem. Tinham na mão um instrumento: transformar o resultado das suas transacções comerciais em escudos ou francos belgas para não dizer dólares americanos. Foram acautelando o que podiam (é certo que nem todos, mas os poucos que não acautelaram os seus bens, mesmo publicamente avisados, se fosse hoje tê‑lo‑iam feito. Pedro fez o mesmo: Jesus mandou avisá‑lo três vezes e ele não O ouviu (Mateus 26:34). Quem não teria compreendido ao longo de 14 anos de guerra que “os ovos não se colocam todos debaixo da mesma galinha”? Quem não teria compreendido que antes de chover o “ar cheira a chuva”?)
 
Os comerciantes zombo residentes em Kinshasa, todos eles informados pela ALIAZZO11,especialmente os mais esclarecidos politicamente, já mandavam há algum tempo os seus filhos espreitar pelas vilas de Maquela e Damba e pelos postos sede de Kibokolo, Beu, Kuilo Futa e Sakandika, o que de melhor lhes caberia após a independência.
 
Será então razoável ponderar sobre o seguinte pensamento de Neto, (1964:248) quanto aos ‘avisos à navegação’ ao afirmar a certa altura do texto: “ (…) o que de certo modo invalida a opinião de Herskovitz, de que em África as tensões raciais aumentam na razão directa do crescimento da população branca”. Tudo indica que bem fizeram os portugueses residentes no Zombo em se acautelar.
 
Transcrevamos então agora a totalidade do excerto da obra do autor supra citado –‘Angola Meio Século de Integração’:
“De facto, neste período praticamente não se constataram referências a atitudes discriminatórias da população branca para com a não branca, de tal forma que até os mais acérrimos dos nossos detractores, por mais voltas que dêem ao assunto e por mais ilações que pretendam tirar de certos pormenores, como fez por exemplo Duffy, no seu último livro, não conseguem demonstrar a existência de práticas discriminatórias por parte dos europeus, o que de certo modo invalida a opinião de Herskovitz, de que em África as tensões raciais aumentam na razão directa do crescimento da população branca. É possível que assim aconteça integralmente noutros territórios, mas em Angola, neste período, essa constante não se verificou no domínio das relações sociais e da vida do dia‑a‑dia.”
 
Antes de terminarmos, reiteramos o nosso apreço por quantos de forma dedicadatrabalharam por Angola nesta fase tão delicada da vida portuguesa, limitando‑nos a dizer, o que não é de nossa autoria mas subscrevemos inteiramente: “Muito se engana quem cuida”.
 
 
A 5ª Companhia de Caçadores Indígenas versus Batalhão de Caçadores 88

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