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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (28)

Publicado por Muana Damba activado 22 Diciembre 2011, 14:36pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr José Carlos de Oliveira.

 

Catequista de Dia, “Comissário Político” à Noite
 
Comecemos pelo título e, a breve trecho, se verá como os termos catequista e comissário político estão relacionados. A designação de catequista, em kikongo, é “nlongui a mambu ma Nzambi”, que traduzido à letra é: ‘aquele que ensina os assuntos de Deus’. Assim que o Congo (Congo ex‑Belga) se tornou independente ouvimos, pela primeira vez, o termo comissário político. Durante a década de sessenta do século passado, tivemos no mercado de Malele (a parte Zombo do lado Congo) um catequista (católico) como nosso representante comercial na diocese de Kinsantu. Quando passávamos de noite, à ida ou à vinda de Kinshasa, o nosso catequista vestia‑se da cabeça aos pés como um figurino Lumumba referencia ao primeiro ministro da República do Zaire (ex Kongo Belga) Patrice Lumumba. Paletó (casaco que fechava com um só botão) preto, impecavelmente passado a ferro, camisa branca, lacinho preto, calça preta, sapato e meia preta. Fazia questão em aparecer‑nos com óculos à Lumumba, (duvidamos que fossem graduados, porque, em 1975, conhecemos um oculista na avenida Almirante Reis em Lisboa que fazia um excelente negócio com a venda de óculos, de aro preto e falsas lentes transparentes) e a Bíblia, na mão esquerda. Alguém que lhe cobiçava o lugar de nosso representante, veio confidenciar‑nos que se tinha tornado comissário político da UPA.
 
Façamos então agora a introdução à figura do catequista. Desde os primórdios do século, ia absorvendo e adaptando, ao seu mundo, as técnicas europeias dos nlongixi wa ngangu za Nzambi (os que ensinam a Inteligência Divina) sempre muito atentos, conduzindo prudentemente a actuação do catequista. Os missionários procuravam construir geralmente um centro rural cristianizado, que era comum ser constituído por alojamentos diversos que incluíam uma senzala, uma escola e uma pequena igreja definitiva. Em casos de situação precária, limitavam‑se a uma escola à beira dos povoados.
 
Neste mundo, vivia o “nlongui a mambu ma Nzambi” o catequista, que era "o sal do missionário", dele dependia a comunicação com o universo da comunidade, a alfabetização e a explicação, não raro, do comportamento dos indígenas face ao padre. Este tinha pouca dificuldade em lhe transmitir alguns conceitos de base, visto que, por exemplo, o culto dos antepassados constituía conceito do seu próprio saber.
 
Segundo D. Manuel Gabriel Nunes, na sua obra Angola, Cinco Séculos de Cristianismo (1978:595):
“(…) é justo fazer aqui uma referência especial a estes obreiros humildes, mas tão preciosos, da acção missionária. Certamente nem todos têm igual preparação nem idênticas qualidades de zelo e de trabalho apostólico. Mas eles constituem os soldados da vanguarda e os guias dos cristãos, respon­sáveis pela instrução e pela vida religiosa em inumeráveis aldeias do interior e nos grandes aglomerados populacionais das cidades e de algumas vilas. As estatísticas diocesanas referem cerca de 13.300 catequistas que em 1974 se encontravam ao serviço das 8 dioceses de Angola. (…)”
 
Em paralelo com esta figura, os estudiosos da África negra, cedo deparam com um mundo misterioso e dominante personagem, o possuidor do poder ndoky e uma figura que o domina, aquele a quem se conhece vulgarmente pelo nome de feiticeiro, (já abordamos a personagem em diversas ocasiões). Para recordar a sua força, basta dizer que, entre os zombo, um cadáver é um corpo sem sombra e que esta, outra coisa não é, senão o princípio vital que dá vida ao corpo. Pois bem, o também conhecido por nganga a nkisi pode manejar magicamente o indivíduo, pode "comer o homem". Consegue também roubar a vida a um animal e introduzi‑la no homem, para o robustecer, é por isso um especialista em magia.
 
Só ele deve pronunciar o nome de determinadas entidades. A sua palavra é poderosa e entendida pelos bantú como insuperável. Ao pronunciar os nomes pelos quais são conhecidos esses seres, influencia‑os, domina‑os, actua sobre a sua identidade profunda. O especialista "chama" quem quer e o "chamado" fica sujeito ao poder do especialista. O "feiticeiro" e o curandeiro eram e ainda são figuras centrais da sociedade africana. O cristianismo tinha interpretações que explicavam fenómenos da mesma natureza. Devemos relembrar que a noção de "feiticeiro" é diferente da de curandeiro. O primeiro termo deve reservar‑se para o conceito de malignidade anti‑social, descoberta pelos ordálios.
 
No entanto, a igreja cristã agia com prudência. Era necessário muito cuidado para enfrentar a diversidade. O missionário percebia que o negro, em geral, imitava tudo quanto observava nos europeus e, muitas vezes, a atitude triunfalista do europeu estava eivada dos piores males. O resultado era muito prejudicial à sociedade tradicional africana.
 
Não admira pois, que o catequista merecesse da parte dos superiores das missões religiosas um particular afecto. A sua preparação constituía um problema de base, para essa função, que era o ensino rudimentar da língua portuguesa, dedicando uma especial atenção à forma como explicitava perante os seus, os conceitos a transmitirem, procurando a sua melhor adaptação. Muitos abandonavam e abandonam a profissão por razões económicas, visto que as missões não estavam e continuam a não estar dotadas de meios financeiros, para remunerar suficientemente essa função. Os missionários faziam quase o impossível para os manter ao seu serviço. O catequista era, muitas vezes, obrigado a recorrer a uma outra profissão porque o que recebia da instituição cristã não chegava para o sustento da família.
 
Feita esta explicação, convém agora introduzirmo‑nos no mundo real que se apresenta ao catequista e nas lutas que é obrigado a travar como intermediário entre dois mundos em presença. Esta duplicidade de actuação custou e custa, a muitos catequistas, a própria vida. No tempo da colonização era uma figura que, por iniciativa própria, mantinha o comerciante europeu a uma distância tal que não permitia a este último aprofundar o contacto com as populações. Com a maior das dissimulações e, aparentando o maior respeito, desviava as atenções do comerciante de modo a que não atingisse um razoável conhecimento dos costumes e tradições. Se tal acontecesse, seria desvendar o mundo dos seus antepassados perante aqueles que não tinham o direito a esses conhecimentos. Também é verdade que sempre houve comerciantes que alcançavam esse privilégio, mas os seus filhos já não eram brancos. O catequista sabia que, em matéria de religião, o "senhor padre" mantinha com frequência o comerciante do mato fora das suas relações. Na altura, não descortinávamos o porquê. Sabia‑se que o comerciante era, na maior parte das vezes, menos letrado do que ele e até analfabeto. Só na cidade os brancos eram mais instruídos. Apesar disso e não raro, o catequista sujeitava‑se a ouvir dizer frases como: "Olha lá seu preto, seu burro".
 
Vulgarmente dizem‑se católicos ou protestantes, porém, apesar da intensa actividade missionária, são ainda os nkisi (o tal poder), a mola real que inspira a sua vida. Daí que, sem algum conhecimento da matéria, se não possa compreender minimamente a alma dos zombo, como aliás da tradição bantú, em geral.
 
Frequentemente, a conversão ao cristianismo durante a colonização foi o meio de entrar na sociedade dos brancos e de apreender as suas técnicas. Curiosamente, após a independência de Angola, em frequentes e intencionais idas ao aeroporto de Lisboa, pudemos constatar que uma significativa percentagem de angolanos, com nítida falta de meios para fazer turismo, como aliás se percebe pela parca bagagem (malas muito usadas e outros pormenores não menos elucidativos) traziam ostensivamente na mão uma Bíblia.
 
Voltando ao catequista, sabia que, quanto menos aparecesse por perto da autoridade administrativa portuguesa da localidade, melhor. Os seus elos de ligação eram o já anteriormente citado kapita (nessa altura, a melhor tradução para português, seria o termo capataz) da granja da administração ou o cabo dos cipaios. Por estes, conseguia saber quantas pessoas tinha determinada povoação, quantas mulheres podiam ser deslocadas para o arranjo das estradas. Enfim, em reuniões conjuntas, prestava esclarecimentos ao mfumu a nsanda, representante do poder matrilinear e ao mfumu a Luyalu, chefe representante do governo português. Dava conhecimento e estes posteriormente chegavam a um acordo sobre as informações a serem passadas ao chefe de posto português. Verdade seja dita que muitos chefes de posto conheciam bem o modo de contornar todas estas dificuldades. Para isso, contavam alguns com longos anos de experiência adquirida.
 
O catequista nunca perdia uma ocasião para explicar aos miúdos que ensinava o motivo por que deviam ser estudiosos, dava como exemplo, aqueles que frequentemente encontravam emprego em casa dos europeus residentes na zona. Desta forma, alguns conseguiam chegar ao liceu da cidade, os restantes e eram a esmagadora maioria, podiam encontrar na escola de carpintaria da missão, através da profissão, forma de atingir a cidade com muito êxito.
 
Entre os kongo, os aforismos, as lendas, as histórias, são um elemento cultural riquíssimo. Entre os poucos incumbidos de contar histórias encontrava‑se pelas suas características especiais o catequista. A história é sempre rodeada de cerimonial, como aliás todos os actos sociais da comunidade. As fábulas são as mais frequentes, estas representam funções humanas, como por exemplo a astúcia, a delicadeza, a força, entre outras. Em cada uma destas fábulas está implícito um ensinamento moral e é, com raro talento, que o narrador costuma evidenciar a supremacia da inteligência sobre a força ou vice‑versa, conforme a intencionalidade exigida pelo momento.
 
Conhecemos o caso curioso de um catequista. Chamava‑se Simão Dambu. Quando o conhecemos, por volta de 1953, ele teria cerca de dez anos de idade. Ia muitas vezes à casa sede da firma JOJ, em Kibokolo, escolher o amendoim comprado no seu povoado. Muitas vezes, junto ao produto iam também pequenas pedras, algumas vezes, colocadas intencionalmente e ainda folhas ou amendoins com bolor. Ganhava um escudo por dia, dinheiro com que depois comprava bolachas. Ao domingo, era nosso companheiro na caça aos pássaros. Ele armava aos pássaros com visgo (seiva da mulemba, o célebre látex do tempo da borracha ‘nsanda’, entretanto aquecida e que era envolvida em pequenas hastes de mais ou menos cinquenta centímetros onde depois pousariam os pequenos pássaros que ficavam com as patas grudadas ao visgo). Nós acompanhávamo‑lo com uma espingarda de nove milímetros (Flaubert). Quando as rolas poisavam nos abacateiros, nas palmeiras ou nas mangueiras, o Simão descobria‑as imediatamente, nós não. Embora ele apontasse na direcção onde se encontrava o pássaro, era necessário que aquele se movesse para nos denunciar a sua localização. Crescemos sem dar por isso, tornamo‑nos hábeis nestas caçadas juvenis graças ao Simão. Passaram‑se os anos e o Simão desapareceu. Um dia reapareceu, homem feito, informou‑nos que tinha conseguido o lugar de catequista, na missão protestante de Kibokolo, era então já “nlongui a mambu ma Nzambi”, na vata Kiluango, nome por que são conhecidas muitas povoações no Norte de Angola, como começou por ser o caso da povoação onde foi rezada a primeira missa, em terras de N´goio: a povoação da capitania‑mor de Santo António do Zaire.14
 
Acrescentou na mesma altura ser o mfumu Grenfell, director da missão evangélica do Kibokolo, quem o tinha colocado. Com esta informação, queria fazer entender não ter sido escolhido por um qualquer missionário, já que David Grenfell era desde há décadas um missionário muito respeitado em todo o Norte de Angola. Repentinamente, em 1960, o Simão Dambu foi preso pela autoridade administrativa de Maquela do Zombo. Viemos a saber do acontecimento pouco tempo depois. Indagando na sua vata, dada a amizade que nos ligava que algo de anormal se passava e como tal deixamos, à boa maneira zombo de fazer perguntas.
 
Os portugueses do Norte de Angola não conseguiam entender a independência do Zaire, nesse ano de 1960, ou antes, não queriam entendê‑la. Já tinham sido avisados pelos refugiados europeus belgas e portugueses que, em Junho/Julho, tinham passado por Maquela com destino a Luanda, a fim de embarcarem para a Europa, que algo de muito sério se iria passar no Norte de Angola, porém as informadas autoridades portuguesas guardavam sobre o assunto a maior reserva.
 
Passaram‑se os meses e um dia, num mercado de Kenge (nome pelo qual é ainda conhecido o mercado semanal de Kibokolo), vimos o Simão. Cumprimentou‑nos, com um estranho constrangimento. Soubemos mais tarde o porquê na administração do concelho: Simão andava a espalhar "conversas esquisitas” sobre a independência de Angola. Parecia até ser o causador de algum mal‑estar que se ia sentindo na zona. A parte do Simão que pertencia ao seu povo tinha vencido, tinha mesmo uma "missão a cumprir", em Março de 1961.

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