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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (26)

Publicado por Muana Damba activado 9 Diciembre 2011, 15:41pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

Por Dr José Carlos de Oliveira.

 

O Princípio do Fim do Comércio Europeu entre os Zombo (1960‑1961) 2.

Na realidade, os comerciantes do mato, estavam e estão, bem longe do conceito de Marx. São herdeiros dos pumbeiros, dos funantes e dos minkiti, da zona da Bacia Convencional do Zaire, conheciam bem a flutuação das diferentes moedas da Europa e, por isso, o dinheiro não lhes interessava. Investiam em panos ricos, em colchas, em cobertores, entre outros produtos. Através desse ‘tipo de dinheiro’ concretizavam o seu grande desejo: integrar a fundação de novas povoações comerciais, ansiosamente esperada pelas autoridades administrativas.


 
  
Referindo‑nos novamente ao Dicionário Corográfico‑Comercial de Angola da autoria do, já citado, António Coxito Granado e que já na sua terceira edição, em 1955, actualizava os dados gerais e os referentes às povoações comerciais nas zonas habitadas pelos zombo, tanto no concelho de Maquela do Zombo como do concelho da vizinha vila da Damba:

“(…) Dados sobre povoações comerciais dos Concelhos do Zombo e Damba
De Maquela do Zombo: (transcrevemos as notas mais relevantes)

Vila, terra comercial de 2ª, sede do concelho do Zombo, distrito e comarca do Congo diocese de Luanda, tendo os Postos de Sede de Béu, Cuilo Futa, Quibocolo e Sacandica. Notário, CTT (correio, telegrafo e telefone), Hospital com médico, Delegado de Saúde e Sede do sector sanitário com médico privativo. Ensino: Escolas primárias. Vias de comunicação: Aeródromo com carreiras regulares. Camionagem Zombo‑Negage com carreira diária para Uije. Economia populacional indígena: Amendoim, feijão, batata doce e europeia, fibras têxteis, algum café e óleo de palma.
Economia dos Europeus e civilizados e minas: Mais de quinze casas comerciais na zona sendo seis na vila (chegou a ter na época do ciclo da borracha, 22 casas comerciais que nesse tempo não passariam de barracos) uma fazenda agrícola (roça S. José) cultivando especialmente café, laranjas, tangerinas, e fazendo criação de porcos e animais domésticos em pequena escala.

Indústrias: no Quibocolo está instalada a Empresa do Cobre de Angola que emprega a sua actividade na exploração de Cobre e Zinco, ali trabalhando já (1954) 140 europeus (…) Em 1953, exportou 1,182 toneladas de cobre em lingote.

Missões: Tem uma Missão Católica na Vila – Missão de Sto. António, fundada em 1920 e uma Missão Protestante Evangélica no Posto de Quibocolo.

É um concelho que pode ter muito maior desenvolvimento. Tem um Club recreativo, Guarnição Militar (Companhia Indígena de Caçadores), e as repartições públicas próprias de uma sede de concelho. Já foi capital de todo o Congo.

Posto Sede do Béu: Povoação comercial 4ª classe.
Economia populacional indígena: Amendoim, mandioca, milho, feijão tabaco, fibras urena‑lubata e outras
Economia de Europeus e civilizados: Tem uma casa comercial, andando o seu negócio à volta do amendoim e óleo de amendoim, feijão e fibras.
Nota: o solo dá tudo, mas os transportes são ainda caros para certos produtos: Vivendo perto do Congo Belga, o indígena vai lá vender algumas coisas e comprar outras.

Posto Sede do Cuilo Futa: Povoação comercial de 4ª classe. Sede do Posto do mesmo nome, concelho do Zombo. Tem Posto Sanitário. Distância a Maquela do Zombo 133 quilómetros. Distância a Luanda 733 quilómetros. Tem uma picada para Quimbele, o que encurtará muitíssimo a distância ao Uije e a Malange. Economia Populacional Indígena: Mandioca e fuba de mandioca, amendoim, milho, batata doce e outros géneros alimentares. Tem uma casa comercial, filial de uma outra de Malange, andando o seu negócio à volta do amendoim, óleo de amendoim, feijão e fibras.

Posto Sede do Quibocolo: Povoação Comercial de 4ª classe, Sede do Posto do mesmo nome. Tem Posto Sanitário.

Ensino: Na missão Protestante importante que vale a pena visitar, tem professor de português.
Vias de comunicação: Luanda 602 kms, Maquela do Zombo 32 kms. Damba 70 kms.
Economia Populacional indígena idêntica à dos outros Postos Sede
Economia de Europeus e civilizados: Duas casas comerciais girando o seu movimento à volta do comércio misto de vendas aos indígenas e ao pessoal da Empresa do Cobre de Angola e o seu comércio de compras à volta de amendoim e óleo de amendoim, feijão.

Posto Sede do Sacandica: Povoação comercial de 4ª classe. Sede do Posto do mesmo nome. Tem Posto sanitário.

Comunicações: Luanda 784 kms. Maquela do Zombo 160 kms.
Economia populacional indígena: Mandioca, fuba de mandioca, feijão, batata doce e europeia, alhos, amendoim, fibra de panga e urena lobata, gado suíno, caprino e ovino em pequena escala. Tendo o Congo Belga à porta, compram lá algumas coisas e vendem outras.
Economia de Europeus e civilizados: uma casa comercial, andando o seu negócio de compras especialmente à roda do amendoim, óleo de amendoim, feijão, fibras e peles de caça miúda.13(…)”
 
Após a independência de Angola e com o gradual abandono das populações profundamente flageladas pela guerra civil e, mais uma vez, em direcção às zonas fronteiriças da vizinha República Democrática do Congo que, como se pode perceber, pela descrição anterior era aberta durante a ocupação portuguesa tornou‑se território sem qualquer controlo administrativo.
 
Como se compreendeu, pelas secções que se referem à ocupação portuguesa, os zombo pareciam ter perdido grande parte do seu prestígio tradicional, e pior, parecia que o seu poder político se tinha esvaído. Tal não aconteceu. A aparente ausência de agressividade e astúcia submergiu, é importantíssimo que se diga, para que elites muito selectivas se encontrassem, a um só tempo, em organizações e associações secretas mágico religiosas e políticas. Tudo isto, porque as lições recebidas pelos portugueses até finais dos anos vinte do século passado, não eram já do conhecimento dos novos portugueses do Congo português de então. A noção que estes tinham é que os zombo eram atrasados, como aliás eram no seu entender, todos os indígenas. Esta ignorância, permitia que se instalassem nas novas povoações comerciais (sem elas, a ocupação do norte de Angola não teria existido) vivessem e convivessem com as populações nativas. Para que tal acontecesse aos mais cafrealizados já então tinham modificado a sua opinião acerca dos zombo. Este termo cafrealizados, foi usado por Silva Cunha (1956:40,41) ao classificar os intervenientes no contacto de culturas, no seu livro Movimentos Associativos na África Negra:

“(…) Os efeitos de transformação traduzem‑se na adopção recíproca de usos dos grupos em contacto. Os mais típicos, porém, são os que resultam da imitação pelos nativos primitivos dos usos dos civilizados. A esta imitação, que é a mais intensa e que produz a evolução cultural dos primitivos, dá‑se o nome de imitação de baixo para cima.
A sua forma extrema é a «assimilação».

Opõe‑se‑lhe a imitação pelos civilizados de hábitos dos primitivos (imitação de cima para baixo). É muito menos intensa do que a primeira e à sua forma extrema dá‑se o nome de «cafrealização» (…).”

 

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