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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (25)

Publicado por Muana Damba activado 5 Diciembre 2011, 15:37pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr José Carlos de Oliveira.

 

O Princípio do Fim do Comércio Europeu entre os Zombo (1960‑1961) 1.
 
A partir deste momento iniciamos, a fase da dissertação, em que a observação participante, modelo de investigação da antropologia aplicada, estará frequentemente presente. A nossa observação directa será também um contributo incontornável, embora nos confrontemos com a subjectividade que se encontra inerente à descrição dos acontecimentos factuais. Parece‑nos não termos outro caminho para a descrição dos factos históricos, na zona do Zombo, em tempos de paz e em tempos de guerra, tanto uma como a outra situação provocam grande constrangimento, quando após quarenta anos as recordamos. Esse aperto vale tanto para os europeus que ocupavam o “chão” dessas zonas como se em Trás‑os‑Montes estivessem, como os zombo, que há séculos reclamavam o direito à sua posse, tendo em conta, a sua ancestral ocupação territorial por via de conquista e velhas alianças.
 
Apoiamo‑nos, assim, no filósofo Jean Wahl (1962:32,33) que afirma superiormente o seguinte, referindo‑se tanto aos seus congéneres Heidegger como Jaspers e à forma como estes analisam os acontecimentos históricos:
“(…) distinguem a História, isto é, a historia no sentido vulgar da palavra, a sequência dos acontecimentos, e a Geschichtlichkeit, que é a nossa profunda situação na história, o facto de nos inserirmos, nos encarnarmos, num momento da história (…)”.
 
Será talvez aqui, o melhor lugar, para relembrar René Pélissier (2006:609) quando acerca da nossa dissertação de mestrado ‘O Comerciante do Mato’ e, que se prende particularmente com a presente dissertação, teceu considerações e palavras que muito nos honraram, dirigindo‑nos embora o seguinte comentário acerca dos acontecimentos de 1961 nas povoações de Kibokolo e Bembe:
“(…) Tout cela est plein d´enseignements, mais pourquoi ne parle‑t‑il pas des événements de 1961‑1974 ? Quibocolo un 1961, ce n´etait quand même pas le Parque Eduardo VII, ni Bembe le Casino d’Estoril ! Ni en 1961 (cf. René Pélissier, La Colonie du Minotaure, Editions Pélissier, Orgeval, 1977), ni en 1966 (cf. René Pélissier, Explorar, Idem, 1979), hélas ! (…)”
 
 
 
Muito embora haja ainda alguém para quem este tipo de fotografia represente algo de familiar, vale a pena descrever o contexto. Como se pode observar, o lugar é um ermo, o mato, o horizonte a perder de vista, é o planalto zombo. Não se nota, mas o sítio ficava perto do encontro do cruzamento entre Kibokolo, Kusso e Damba (cada uma das povoações a cerca de quarenta quilómetros deste ermo). Repare‑se nas duas mulheres, logo em primeiro plano, a da esquerda traz o pequeno filho às costas e, mesmo assim, tal como a outra está preparada para transportar à cabeça, um dos fardos que jaz no chão (peixe seco) que pesa por norma trinta quilos. Em cima da furgoneta e por cima das tábuas, estão os garrafões de vinho e um copo. Os europeus fazem o negócio com os homens zombo, estes esperarão que os europeus se cansem e lhes façam o melhor preço. Alguns são clientes habituais.
 
Através da história que se segue tentaremos aproximar‑nos da realidade, quanto às exigências administrativas tanto do Governo Central de Lisboa como do Governo‑Geral de Angola face à política indígena: “Conta‑se que um velho soba usava, por baixo do pano que o cobria da cintura aos pés, pequenas campainhas num dos tornozelos. Um dia, foi interpelado por um chefe de posto, intrigado por tal fantasia, uma vez que este já tinha reparado que ele nem sempre as fazia soar. O soba, complacentemente respondeu‑lhe: quando ao longe percebo uma reunião dos meus subordinados, faço uma ligeira pressão sobre o tornozelo que tem as campainhas e assim faço‑as soar dando a perceber aos meus que me aproximo. Isto é salutar porque bem sei, como algumas vezes me faltam ao respeito, desautorizando‑me. Porém, também sei que quando dou ordens importantes os tenho de mandar vigiar, no sentido de verificar se as ordens foram cumpridas ou não. Alguns deles contestam e criticam mesmo as minhas ordens. Ao fazer soar as campainhas evito que sejam apanhados em flagrante murmúrio. Desta forma mantenho a tranquilidade entre o meu povo”.
 
Esta história vem a propósito, para citarmos Neto (1964:110), no que se refere à instalação de povoações comerciais:
“(…) A prática do comércio ambulante pelos funantes ficava imediatamente proibida, deixando de lhes ser passadas guias de trânsito e licenças para o exercício do comércio, e as povoações comerciais, cuja criação deveria ser requerida pelo menos por 10 comerciantes, deveriam ter pelo menos 10 casas comerciais (…).”
 
O autor estava naturalmente a referir‑se aos decretos e portarias. Bem sabia quão difícil se tornava implementar as ordens superiormente emanadas e, por outro lado, como profundo conhecedor da situação do norte de Angola (finais dos anos cinquenta/sessenta do século passado), também sabia que sem a implantação das povoações comerciais a manutenção da ocupação efectiva do norte de Angola teria sido impossível. O mato era impiedoso quanto às pretensões dos responsáveis administrativos. Mais à frente, na página seguinte, tece considerações acerca dos comerciantes do mato, que a nosso ver entendemos serem (embora por vezes verdadeiras) nem sempre justas, dadas as circunstâncias excepcionais então vividas.
“(…) Na nossa muito modesta opinião, é bem possível que essa portaria, assinada por Morais e Castro, o homem sob cuja orientação, como já se viu, se efectuara anos antes a ocupação efectiva da grande parte do distrito do Congo, tenha contribuído decisivamente para afastar do interior centro e sul de Angola o principal agente da colonização espontânea europeia, isto é, o pequeno comerciante, com pouco capital, talvez sem muitos escrúpulos, mas corajoso, audacioso e desejoso de triunfar (…)”.
 
Em meados dos anos cinquenta do século passado, os estabelecimentos dos europeus instalados já não eram os simples barracos, por nós anteriormente referidos, mas por obrigação da legislação deviam cumprir normas, não só de sanidade, mas também quanto à disposição dos diferentes compartimentos indispensáveis à função a que estavam destinados, e também permitir um certo nível de conforto na parte de habitação. Esta ala começava por uma varanda (ou mesmo sala de visitas) que comunicava de imediato com a sala de jantar, seguida de um corredor frequentemente com dois quartos. Uns para o responsável pelo estabelecimento, outro para as visitas, a dependência que servia de casa de banho e retrete, bem como a cozinha eram anexos ao edifício principal. Uma das razões era que, tanto o cozinheiro como o lavadeiro ou lavadeira, faziam o seu trabalho sem que tivessem que andar sempre a passar pela privacidade dos aposentos do comerciante. A outra ala, a comercial propriamente dita, era então constituída por dois compartimentos: a loja e o armazém de stocks dos produtos da terra comprados.
 
 
Convém aqui salientar que, nesta altura, o comerciante do mato, pelo seu contacto com a cidade e os grandes comerciantes tinha começado a adoptar métodos de organização de técnica de vendas, através de pequenos expositores que colocava, todos os dias, em escaparates à frente das portas, como começava também (em poucos casos ainda) a agenda comercial, onde apontava e sistematizava à sua maneira a sequência das transacções, especialmente o seu volume e valor. Diga‑se de passagem que, esta perícia fez de alguns comerciantes do mato, armazenistas de sucesso. Percebiam que a sua função era serem intermediários das trocas, mas não no conceito de Marx como explicita Fernand Braudel (1985:49) em Os Jogos das Trocas:
“(…) Os «verdadeiros» lojistas viriam em seguida: são os intermediários das trocas; deslisam entre os produtores e os compradores, limitando‑se a comprar e a vender sem nunca fabricar com as suas mãos (pelo menos inteiramente) as mercadorias que oferecem. São logo de entrada como o mercador definido por Marx, o qual parte do dinheiro A, adquire a mercadoria M, para voltar regularmente ao dinheiro, segundo o esquema AMA: «Só se separa do seu dinheiro com a intenção de o voltar a agarrar» (…).”

 

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