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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (16)

Publicado por Muana Damba activado 3 Octubre 2011, 13:25pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr José Carlos de Oliveira.

 

 

 

O Comerciante do Mato, Sucessor do Funante
 
O comércio do mato foi a grande alavanca de desenvolvimento do norte de Angola e, mesmo mais tarde, do centro e sul, porque efectivamente pôs em comunicação as aldeias de economia fechada com as cidades do sector moderno do sistema capitalista. Os comerciantes, tal como os restantes componentes deste capítulo viveram o mato. Esta expressão é indicadora do muito que vimos sofrer, dalguns que vimos morrer, doutros a que assistimos a delirar e de nos ter acontecido a nós estarmos inconscientes, segundo nos disseram, durante 15 dias com um brutal ataque de paludismo, e nunca tivéssemos sabido da existência de um Guia Higiénico do Colono escrito por Manuel Ferreira Ribeiro (1901)3 e dele tivessem dado fé os médicos que passaram pela zona dos Zombo, muito em especial em Maquela do Zombo e Damba.
 
Como é possível que um médico, em 1901, tenha elaborado o Guia Hygiénico do Colono e escrever deste modo:
O europeu, que se encontra em qualquer logar de paludismo maligno, quente e húmido, deve proceder, com o maior discernimento, para conservar a saúde e manter a mais perfeita resistência orgânica que é possível. Está nisto o seu triunpho contra as influências do clima e das endemias. Deve alimentar‑se com extrema regularidade, fugindo de todos os excessos de meza. Deve fazer uso, todas as manhãs, de loções frias, por meio de escova, de esponja ou de panno grosseiro, molhado e exprimido. Podem empregar‑se estas loções, com água fria, alcoolizada. As loções frias constituem um verdadeiro méthodo anti‑anemiador. Convem, por isso, applicá‑las em boas condições de aproveitamento. Deve tomar‑se, finalmente, algum sal de quinina, como profiláctico procurando a melhor ocasião de o fazer, seguindo a natureza do trabalho condições de vida, recursos de que dispõe, etc.”
 
Devemos acrescentar, a título de informação que em Luanda (ou seja na capital de Angola) em 1945, o quinino encontrava‑se esgotado, sendo comprado em contrabando nos barcos que acostavam ao porto de Luanda. Não era raro que, após uma análise, se verificasse que os comprimidos não eram feitos de outra coisa senão de gesso. Com efeito, continuamos espantados, não pelo guia em si que é utilíssimo, mas porque nunca demos pela sua divulgação entre a população do norte de Angola, mesmo após os anos cinquenta do século passado.
 
É com esta introdução que tentamos começar a dissertar sobre o ‘Comerciante do Mato’, para entendermos a complexidade do problema do povoamento branco do norte de Angola. Ocorre‑nos citar Neto (1964:111) em Angola Meio século de Integração:
“Na nossa modesta opinião, é bem possível que essa portaria, assinada por Morais e Castro, homem sob cuja orientação, como já se viu, se efectuara anos antes a ocupação efectiva de grande parte do distrito do Congo, tenha contribuído decisivamente para afastar do centro e sul de Angola o principal agente da colonização espontânea europeia, isto é, o pequeno comerciante, com pouco capital, talvez sem muitos escrúpulos, mas corajoso, audacioso e desejoso de triunfar. Para esse afastamento muito deve de ter contribuído o papel preponderante concedido às associações de classe atrás referidas, constituídas por meia dúzia de comerciantes mais importantes e certamente pouco dispostos a abrir mãos das suas fontes de produtos permutáveis, ao permitirem o estabelecimento de concorrentes potenciais”
 
E, se Morais e Castro, dizemos nós (homem de certo com visão suficiente) percebesse que era no norte de Angola e a bordear a fronteira que o pequeno comerciante era preciso, era útil à administração portuguesa, uma vez que o tal comerciante grossista não estaria nada interessado em morrer ‘sem eira nem beira’. Como conseguiria Morais e Castro privar os comerciantes grossistas da ‘boa galinha cabiri assada de churrasco na brasa’ por aquela mulata de olhos pardos e de belos seios. O pequeno comerciante que tivesse paciência, fosse labutar no mato para onde só iam os castigados ou deserdados, segundo Neto.
 
Pensamos ser conveniente, mais uma vez, reportarmo‑nos a responsáveis de assinalável autoridade para o assunto a que ora nos referimos, como é o caso de Jayme Pereira de Sampayo Forjaz de Serpa Pimentel (1910). Este autor tinha sido governador de distrito na Índia e nas duas Áfricas (referimo‑nos à África Ocidental e Oriental) quando abordou o tema O Problema Colonial Português (1910:46) e quando caracterizou o problema de Angola e assim descreveu as prioridades:
“  (...):
a) Completar a ocupação e a pacificação da província.
b) Executar na parte ocupada a cobrança de um imposto indígena, e procurar desenvolvê‑lo à medida que se for realizando a ocupação e a pacificação do resto da província.
c) Preparar a instalação da administração civil desta colónia na parte na parte que se for pacificando, à medida que as circunscrições o permitam.
d) Adoptar medidas necessárias para que, num futuro quanto possível próximo, se constituam definitivamente núcleos de colonização europeia nos planaltos da zona sul da província, fazendo‑se convergir para ali toda a emigração, estabelecendo‑se comunicações fáceis, procedendo‑se aos necessários melhoramentos materiais, e esboçando‑se previamente um plano de colonização da província. (…)”
 
Como se pode verificar, não havia para Serpa Pimentel, a inclusão de outras zonas da província para a instalação de europeus. Os estudos científicos estavam feitos pelos Ingleses e Boers ao sul de Angola. Só nos planaltos de mais ou menos, acima de mil metros de altitude, se deviam instalar as colónias de europeus. Apesar de haver outras zonas do interior de Angola com planaltos a rondar os mil metros de altitude, como é o caso do planalto Zombo e dos seus vizinhos Sosso e Kanda, que ocupam uma superfície sensivelmente de 10 400 km quadrados (não incluindo a parte que se interna pelo antigo Congo Belga e a que já fizemos referência anteriormente quando aludimos ao Bas Kongo).
 
Ainda no que nos diz respeito, o autor citado acrescenta na alínea h:
“(...):
h) Separar os territórios que vão do Ambriz para o norte do resto da província, dando‑lhes autonomia própria sob a direcção superior d’uma autoridade com atribuições e honras de governador de província, para melhor se assegurar do legítimo predomínio português, melhor se vigiarem as fronteiras, e melhor se poderem evitar os danos que nos vem causando a forma de administração do Congo Belga, tão contrária e prejudicial aos nossos interesses e soberania. (…)”4
 
Lida e ponderada a anterior informação, incluindo aquela a que referimos no nosso discurso da secção anterior, os Zombo constituíam (para os entendidos na matéria) um grave problema, tanto através do domínio das suas caravanas, como pelo poder territorial exercido pelos seus grandes chefes religiosos e guerreiros. Estes criavam as maiores dificuldades à pressão exercida pelas autoridades portuguesas.
 
A situação dos militares era melindrosa, os missionários e comerciantes do mato viviam na maior precariedade, entendendo nós, que a maior sujeição ao meio, no que se referia à adaptação local, seria a do comerciante do mato, começando pelo maior isolamento em que se encontrava e pelas imposições a que a sua vida comercial obrigava. Porém, a partir dos anos trinta do século passado, instalado que foi o domínio da administração civil portuguesa, tornou‑se patente o lento mas pronunciado poder do comerciante branco.5
 
Não se tratando de um fenómeno fortuito, foi, isso sim, o resultado de quinhentos anos do contacto da cultura comercial especialmente no interior de Angola e Moçambique. Diríamos que foi o produto da evolução comercial, mas por outro lado, entendemos que a administração colonial percebeu que perante os escassos meios de que dispunha na zona ele seria o ideal “Porta‑Bandeira” do contacto de culturas, no interior dos territórios e muito especialmente nas zonas de fronteira. Não foi por acaso que se criaram decretos‑lei especiais sobre taxas aduaneiras para os comerciantes colocados nas zonas críticas da fronteira entre Angola e o Congo Belga.
 
Nesta altura ainda o comércio da borracha tinha, na zona dos Zombo, enorme importância. Parte da sua produção continuava a dirigir‑se para o porto do Ambriz, se do lado dos portugueses a cotação fosse a conveniente, caso contrário, os Zombo, não tinham a menor dúvida (como pudemos constatar pelos temores da concorrência belga, dirigiam‑se para a fronteira, uma vez que aí encontrariam já construída a linha férrea que de Songololo se dirigia ao importante porto de Matadi).

 
 
            Com a colaboração de Associação dos Bazombos "Akwa Zombo, AKZ"
 
                                          e-mail: joão_daves@yahoo.fr  




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