Overblog
Edit post Seguir este blog Administration + Create my blog

Portal da Damba e da História do Kongo

Portal da Damba e da História do Kongo

Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (15)

Publicado por Muana Damba activado 28 Septiembre 2011, 15:07pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr José Carlos de Oliveira.

 

 
Como as veriam as mulheres Muxikongo que com elas contactaram pela primeira vez? Hoje em dia, não fazemos ideia, porém, pelas informações que nos ficaram das Irmãs da Ordem, sedeada em Makela do Zombo, nos anos 50 e 60 do século passado, sabemos que tinham tremendas dificuldades em catequizar as Mwana a Nkento (meninas) zombo. Por que vicissitudes teriam passado para ensinarem noções de higiene pessoal, levá‑las a vestirem‑se à moda europeia e especialmente a bordar e a costurar? Temos conhecimento que as meninas da escola da missão de Makela do Zombo (por as termos observado) acabavam por se tornar óptimas rendeiras e bordadeiras.
 
A moderna experiência das ‘Organizações Não Governamentais’ terá, nos seus relatórios anuais acerca do assunto, matéria mais que suficiente para aprofundamento do assunto para não falar dos novos missionários das diferentes ordens que devotadamente se entregam nos nossos dias à evangelização em África.

 
 
Voltando agora ao princípio do século XX estamos certos que os missionários percebiam que os tempos não corriam de feição à sua acção missionária. Uma boa parte dos administrativos e militares não viam com bons olhos o seu labor, alguns detestavam‑nos mesmo. Norton de Matos (1944:65) alto‑Comissário de Angola, por duas vezes, 1912/1915 e 1921/1923, embora reconhecesse o alto valor da acção missionária não deixou de afirmar:
“Não sei como se arranjou rapidamente este milhão de cristãos. Nos meus dois períodos de África era coisa difícil e lenta a cristianização dos pretos, e os meus estudos sobre a expansão do cristianismo, mostraram‑me os séculos que foram necessários para cristianizar a Europa…”2
 
Foram muito controversas essas relações institucionais, especialmente as que se referem aos missionários António Barroso, George Grenfell, Luís Alfredo Keiling, Alves da Cunha, Carlos Esterman, David Grenfell, e do esforçado capuchinho Prosdócimo (anos cinquenta e sessenta) da missão católica de Makela do Zombo, para não falar dos inteligentes catequistas zombo.

 
 
Não admira que o n’longi ia nzambi (o catequista) merecesse da parte dos superiores das missões um particular afecto. A sua preparação constituía um problema, devido ao seu rudimentar conhecimento da língua portuguesa e às interpretações que fazia do que aprendia. Os missionários dedicavam uma especial atenção à forma como se explicitavam perante os seus, por isso procuravam ministrar‑lhe a melhor versão dos conceitos que transmitiam. Muitos abandonavam a profissão de catequistas, por razões económicas. As missões não estavam dotadas de meios financeiros para remunerar suficientemente essa função, faziam quase o impossível para os manter ao seu serviço. O n'longi ia nzambi era muitas vezes obrigado a recorrer a uma profissão tradicional, uma vez que o que recebia da instituição cristã não chegava para o sustento da família. Foi e ainda é, uma figura muitas vezes incompreendida. Andava e anda entre Deus e o "feitiço". Por um lado, o mfumu missionário, por outro, os seus maiores: o mfumu ansi. Explicar o "Cristo dos brancos" nestas circunstâncias, não é nada fácil. Via‑se por vezes em grandes dificuldades, para ‘agradar a gregos e troianos’.
 
Dentro desta secção e neste momento temos de reflectir acerca de uma situação delicada: a da contribuição da Baptist Missionary Society (B.M.S.) entre os zombo. Dizemos delicada, porque não ignoramos os problemas em que a direcção da Missão Baptista do Kibokolo, representada por David Williams Grenfell, se viu envolvida; do que sofreram os missionários portugueses protestantes, causando problemas graves e delicados, sem qualquer culpa, à administração colonial (sabemos de casos de muito difícil apreciação ocorridos em 1961. Lá chegaremos).
 
Uma questão peculiar quanto aos missionários, relativamente à fotografia que reproduzimos abaixo, trata‑se do facto de não fazermos a menor ideia do espanto das populações, do que seria “aquilo” – a motorizada. Seria talvez, pensavam eles, uma extensão dos próprios brancos, quem sabe se os nganga nzambi, (nome pelo qual os zombo conheciam os sacerdotes) os poderiam ajudar a conseguir da vida o que os seus adivinhos não estavam agora a conseguir. Com aquele barulho infernal que anunciava a sua chegada, e se ouvia de muito longe, ainda por cima, quando paravam nas novas vata, pressionavam um apito que soava estridentemente (estamos a referir‑nos à buzina). Os missionários europeus sabiam bem como todas as novidades do género espantavam as populações. Daí, retiravam grandes dividendos mas não eram só os missionários que beneficiavam da fama dessas novidades.
 
Os administrativos mais influentes, ao nível de administradores de concelho e que já usufruíam de viatura automóvel gozavam dos mesmos privilégios. Paremos um pouco, e imaginemos a impressão que o mfumu a vata fazia ao entrar, sem medo, no automóvel do luyalo (autoridade administrativa) ‘e depois o fumo que fazia!’. Só podia ser um grande feitiço. O que ficou como importante para os minkiti zombo, foi o facto de daí em diante também eles serem transportados até perto do seu povo. Ainda na década de cinquenta do século passado, a população da vata media a importância do seu chefe caso o missionário ou o comerciante o transportasse até perto da sua casa.

 
 
Muito teríamos a acrescentar, porém não nos restam dúvidas, que esta foi a época dos Missionários do Mato. Entendemos por bem fechar este tema com as palavras do padre António Barroso (1889:230):
“O primeiro cuidado das missões deve ser a agricultura; nunca será próspera uma missão que tenha de importar tudo o que consome. D’isto tira logo tres resultados capitaes: Alliviar as despesas, ensinar os hábitos de trabalho aos indígenas, introduzir novas culturas e processos no paiz, que em pouco tempo serão seguidos pelo indígena, que é suficientemente observador, para tirar os corollarios lógicos d’estas inovações.”

             Com a colaboração de Associação dos Bazombos "Akwa Zombo, AKZ"

                                            e-mail: joão_daves@yahoo.fr  



 

Archivos

Ultimos Posts