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Portal da Damba e da História do Kongo

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Os Zombos na Tradição, na Colónia e na Independência (13)

Publicado por Muana Damba activado 14 Septiembre 2011, 13:14pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr José Carlos de Oliveria.

 


 

 
No caso de Angola, um governante com responsabilidades nas estradas foi Norton de Matos que, como sabemos, governou Angola por duas vezes, a primeira logo no princípio do primeiro decénio do século vinte; para voltar dez anos depois com a sua autoridade reforçada como Alto Comissário. Coube‑lhe a ele a resolução deste problema: montou toda a estrutura administrativa em substituição das capitanias‑mores e, por cada 40 quilómetros de estrada, as autoridades administrativas recebiam uma viatura34.
 
As estradas, nesta altura, eram mantidas com o esquema de divisão de áreas de aldeias responsáveis por determinada extensão, o que significa que o serviço era todo braçal. Os sobas tinham a obrigação de apresentar pessoal para trabalhar nas estradas.
 
Um grande problema eram as ‘obras de arte’ (pontes, aquedutos, …) que têm a ver com a transposição das vias fluviais. Ao contrário do que seria previsível, as pontes que condicionavam a tonelagem bruta das viaturas eram então construídas de modo a ficarem submersas aquando das grandes e rápidas enxurradas que aumentavam e aumentam, em minutos, o caudal dos rios, em metros de altura, de modo a evitarem‑se graves danos à dita infra‑estrutura. Começava a resolver‑se o problema da rentabilidade.
 
Só a partir dos anos 60 do século passado, é que as estradas foram na sua grande maioria asfaltadas. No Zaire, a situação a que nos referimos foi distinta pois já estava integrado na Convenção de Lomé. 35
 
Os transportes em África são efectivamente a base do seu desenvolvimento material. Hoje o transporte por excelência em Angola é realmente o rodo­viário embora, como no caso da África do Sul e do Gabão, haja excepções, já que recebem grande concorrência das ferrovias. O problema dos transportes tem um grande peso histórico em África – foi o motor do desenvolvimento da África moderna. Tal como já referimos, qualquer estratégia quer do sector mineiro quer do sector agrícola teria que passar por esta infra‑estrutura. Grande parte dos produtos são produzidos e não são vendidos porque o transporte é proibitivo e não favorece o escoamento. Assim, quando se resolver o problema da paz e seja possível o investimento nesta área, toda a África mudará, podendo‑se assim inverter o actual esquema de desenvolvimento.
 
No caso dos zombo, veremos que a administração se encontrou muitas vezes ‘entre a espada e a parede’, pelo que adiante explanaremos. Por vezes, o domínio das autoridades no terreno sofria de grande incompetência administrativa. Este facto é apontado, não raras vezes, muito acintosamente à administração colonial, porém, também é, outras tantas vezes profundamente injusto. O cientista Claude Lévi‑Strauss (1986:191) opinou acerca das colonizações modernas do princípio do século XX até aos anos sessenta do mesmo século. São suas as seguintes palavras:
 
"Se não tivesse existido o colonialismo, talvez não houvesse sequer etnologia. Seguindo as pisadas do colonizador, os etnólogos descobriram os valores negligenciáveis para aqueles mas essenciais para estes e isto em dois sentidos diferentes, uma vez que se trata de elementos objectivos do património humano e também porque cada sociedade possui uma beleza que lhe é própria. Encontramo‑nos, pois, perante esta situação quase inverosímil: devemos o facto de existirmos àquele que foi o destruidor de tudo aquilo a que nós damos valor. Na minha qualidade de etnólogo, é‑me muito difícil falar do colonialismo de forma unilateral."
 
Mais concretamente, no que toca à colonização portuguesa, os anos sessenta do século passado, foram férteis em artigos e obras, de conhecidos investigadores. Lembremo‑nos, nesta circunstância, dos Relatórios das Minorias Étnicas do Ultramar Português 36 de que António Jorge Dias (1957) fez parte. Está aqui presente a sua grande vontade em ajudar a vencer os enormes obstáculos que se deparavam à colonização portuguesa, especialmente nos cinco anos que antecederam ao início da guerra colonial, e consequentemente, os choques de interesses que se foram formando com o decorrer do conflito até à descolonização. São dele as seguintes observações sobre o contacto de culturas que podem perfeitamente relacionar‑se com os zombo, quando a certo momento nos fala das relações entre os brancos, as negras e as brancas:
 
“Contudo, em regiões onde não existe preconceito racial, mesmo quando há diferenças somáticas, a endogamia verificada é mais de classe do que de raça e, com o andar dos tempos, acaba por se dar o mesmo fenómeno atrás descrito. Os frutos dos amores legítimos ou ilegítimos entre os brancos (aristocratas) e as negras (plebeias), os mestiços, acabam por ser elemento de ligação entre as duas raças, o elemento moderador de orgulhos e de aglutinação da diversidade num todo homogéneo e harmonioso, como se deu no Brasil e em Cabo Verde, onde facilitou a aculturação…Acresce que a atitude aristocrática também pode apoiar‑se na grande desproporção demográfica. Quando um grupo dominador é muito mais pequeno do que o dominado, ele desenvolve instintivamente técnicas de defesa que evitem ser assimilado…”
 
Esta tendência após os intermitentes avanços e recuos das extraordinárias expedições, em que todas as componentes intervieram, como últimos “bandeirantes” da colonização portuguesa, (este juízo de valor não reflecte a ideia nem de bom nem de mau) traduz simplesmente a audácia daquela estirpe de gente, alguma analfabeta, por vezes imoral, mas que só pudemos apreciar através do espantoso esforço sobre humano face à inospitalidade do meio físico e humano. Com os militares e a administração civil pouca ou nenhuma coabitação havia. Uma excepção notável é necessário salientar: a sacrificada vida do chefe de posto. A esta personagem será dada em capítulo posterior o merecido relevo. 
 
Alguns dos chefes tradicionais mais autoritários, entretanto escolhidos pelas autoridades portugueses, para os coadjuvarem na manutenção da ordem social, instados a reprimir a "ociosidade" aproveitavam as ordens imanadas da administração, para o angariamento de pessoal a fim de procederem a oportunas depurações internas, entregando elementos marginais e anti‑sociais como os delinquentes; os que acusavam de terem poderes de feitiçaria maligna; os que insistiam em não aceitar a sua autoridade; os que recusavam a prestação de tarefas e oferendas consuetudinárias por si ordenadas; enfim aqueles que de qualquer modo, caíssem no seu desagrado pessoal. Por outro lado, destaquemos outros novos agentes da autoridade tradicional mais timoratos que se viam perante situações de extremo melindre e tentavam conciliar as exigências da administração com o seu papel costumeiro de protectores e de árbitros. Viviam em permanente temor, tanto da vingança dos descontentes, que por vezes, assumia a forma de maldições e de outras práticas de magia negra, tanto das punições, por vezes corporais, que poderiam advir das autoridades administrativas, molestadas com comportamentos que consideravam como sendo de ‘resistência passiva’.
 
Em qualquer dos casos, este tipo de tarefas obrigatórias, o chamado trabalho compelido, começava a minar o prestígio dos chefes tradicionais que se viam transformados em simples auxiliares da administração. Acentuam alguns que o Norte de Angola, e especialmente nas franjas da fronteira, sofria a influência das condições dadas pelos empregadores no vizinho Congo Belga. Os belgas, graças a uma boa congregação de factores, puderam começar por oferecer melhores condições de trabalho, vindo a atingir níveis de desenvolvimento comparativamente superiores, bastante visíveis até à década de sessenta do século vinte. A superioridade belga teria sido manifesta em recursos de capital; conhecimentos tecnológicos; capacidades empresariais; quadros humanos qualificados e, enfim, num maior dinamismo e nível educativo dos agentes colonizadores.
 
A preferência dos zombo pelos empregadores belgas era naturalmente facilitada pela permeabilidade das fronteiras, cuja fiscalização, repetimos, se mostrava praticamente impossível. Assim, a grande escassez de mão‑de‑obra, na região norte de Angola, viria a ser minorada pelo recurso intensivo e sistemático ao trabalho compelido, através do contrato de trabalhadores, especialmente Bailundo visto serem indispensáveis para a grande tarefa agrícola que viria a ser a exportação de café (Angola chegou a ser na década de cinquenta o terceiro produtor mundial de café, e a zona do Uíge era a que dava o maior contributo de fabulosas receitas para os cofres do Estado e de alguns particulares) foi este o argumento para aquela que viria a ser a sublevação da UPA, em 1961, e dos respectivos massacres perpetrados junto das populações indefesas das fazendas de café e das povoações comerciais. Lá chegaremos quando abordarmos a guerra colonial entre os zombo.

                Com a colaboração de Associação dos Bazombos "Akwa Zombo, AKZ"

                                            e-mail: joão_daves@yahoo.fr  


                     

 

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