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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Kongo, os Últimos Reis e o Residente Faria Leal (No fio da Navalha)

Publicado por Muana Damba activado 9 Noviembre 2014, 17:19pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

Por Dr. José Carlos de Oliveira

 

Jose Carlos de Oliveira l

 

No fio da Navalha

 

Criavam-se oficinas e levantavam-se pavilhões Tollet para instalação do governo, tropas e funcionários. Mergulhava-se o hospital no ponto mais pantanoso e marcava-se o cemitério no alto mais ridente da colónia29.

Em Angola era ainda o tempo da velha colonização “Uma cadeia, uma fortaleza e uma alfandega” Era o tempo de “… Aliás quem não quiser caminhar tem de morrer”. Ainda não tinha chegado o tempo da colonização moderna “O hospital, a escola e a locomotiva”30.

O Residente, capitão Faria Leal está junto à árvore. Faziam parte da expedição entre outros: D. Álvaro Tangue, representante do rei do Kongo, que usava o titulo Nepango, era filho da primeira mulher de D. Pedro V, Wene a Kongo, mais conhecido por Ntino wa Kongo “Ellelo”.

A fotografia testemunha a saída de São Salvador da coluna expedicionária

da ocupação efectiva do Cuilo em 10 de Agosto de1899.

Ser primeiro-tenente ou capitão do mato, com funções administrativas em São Salvador do Kongo no final do século XIX, era estar “Ao Deus dará”. Se alguma coisa corresse mal, haveria quem pagasse pelo deslize, neste caso o jovem tenente Faria Leal, teria que aprender a negociar por conta própria, mais propriamente no fio da navalha. No final de 1896 já não era propriamente um neófito, tinha participado nas campanhas do Sul de Angola, lá para os lados de Caconda e do Humbe. Cedo percebeu que o seu Governador de Distrito lhe podia estender o tapete a qualquer momento.

Cuidou de aprender a negociar com os mandatários da rainha Victória, (a missão baptista) ou missionários católicos, às ordens do Vaticano ou ainda, com os astutos conselheiros (ngudikama) do Rei Álvaro Mbemba. Muito haveria ainda de aprender…São dele as seguintes palavras:

“A 10 resou o superior da missão cathólica de S. Salvador uma missa campal a que assistiu a força que devia compor a expedição, e foi benta uma bandeira, que a devia de acompanhar. D’uma simplicidade, commovente, essa pequena cerimónia tinha, além do seu fim real, a vantagem de affirmar no meio d’um povo, onde a propaganda protestante ingleza tanto tem alastrado, os sentimentos cathólicos do elemento portuguez”31.

“No dia 11 de Agosto de 1890, partia de São Salvador do Kongo, uma expedição comandada pelo capitão Faria Leal, rumo a Maquela do Zombo, afim de seguir dali para a confluência dos rios Cuilo e Cuango, com a finalidade de estabelecer um posto militar”32.

A vida dos expedicionários das campanhas militares portuguesas e, porque não dizê-lo, dos missionários e comerciantes era extraordinariamente dura e uma permanente aflição estava em causa; tomar conta dos poucos vivos, enterrar os mortos se fosse possível, e continuar em frente. Os que se aproveitavam despediam-se para sempre dos fisicamente incapacitados, não raro, a escassez de alimentos a isso obrigava e não se tratava de não haver compaixão, tratava-se de sobrevivência.

 

Parte da comitiva, descanso da secção de carregadores33.

A viagem tornava-se sempre muito penosa, especialmente na época das chuvas. A condição física dos carregadores, a fome e as doenças grassavam, ao longo dos meses, entre os componentes das caravanas, não escolhendo a condição de ser carregador ou chefe de caravana; transpunham rios a vau, de muito difícil acesso, subidas e descidas onde os mais fracos sucumbiam, sendo deixados, por vezes, moribundos. Quando a tempestade tropical se abatia sobre a comitiva rogos e ameaças eram proferidos para reunir o grupo, esforço baldado até que serenasse a tormenta. Entretanto uma chuva miúda e importuna, por vezes por todo o dia e noite, permitia o descanso. Quando ao fim do dia se preparavam para descansar o primeiro cuidado era tratar de arranjar uma grande fogueira à qual se iam aquecendo, em virtude do cansaço nem se importavam com barracas; o fogo, como sempre, era a sua única cobertura pelo resto do dia e por toda a noite; as panelas de luko (farinha de mandioca amassada) sucediam-se alternadamente no fogo. Era a única refeição dos carregadores e restante comitiva.

Por vezes os europeus comungavam dessa refeição. Faria Leal como tantos milhares de exploradores tinha, por vezes, também ao seu serviço um homem incrível, era quase um ilusionista da época, o Kambulador. Sublinho a sua enorme astúcia, hábil tocador de instrumentos musicais, seguia à frente da caravana, às vezes alguns quilómetros, quase sempre acompanhado pelos Nsôngodi nzila, pisteiros (termo kikongo), encurtando distâncias, liam pegadas e outros sinais, vestígios de grandes e pequenas caravanas, desviando-se delas atempadamente ou indo ao seu encontro conforme as circunstâncias. Quando o Kambulador, dono de astuciosa oratória, deparava com elas, tecia os maiores elogios ao seu chefe. É claro que os carregadores destas pequenas caravanas eram facilmente enganados. Já exaustos, eram seduzidos por bebidas fermentadas e outras pequenas ofertas. Faziam o seu reviro (desviando-os do inicial destino para onde já tinham contratado a permuta). O Kambulador, perguntava muitas vezes, onde se dirigiam os indígenas e, respondendo-lhes estes ingenuamente, ele retorquia-lhes não valer a pena irem mais longe. O melhor que faziam, se o destino fosse o mesmo era juntarem-se ao seu chefe34.

A caravana era completada por exploradores. Os Nsôngodi nzila, também designados por Ba Ngo conheciam e conhecem na perfeição, todos os traços “ocultos” dos caminhos. Dos seus conhecimentos dependia uma grande parte do êxito, compreenda-se o maior rendimento com o menor custo das caravanas, quer fossem guerreiras ou de comércio. No Kongo existia uma espécie de franco-maçonaria que exigia a todos os filiados serem bons caçadores. Os que pertenciam a esta seita cingiam a cabeça com uma tira de pele de búfalo; podiam empregar-se como estafetas de correio, sem se ter receio da menor infidelidade. Desta mesma franco-maçonaria, fizeram parte os grandes caçadores do Norte de Angola que comandaram os ataques da UPA em 1961.

Quando os nossos cronistas do século passado se referem aos empacasseiros, não estão a referir-se senão aos Ba Ngo, termo muito conhecido: Empacasseiro (de empacassa) caçador de búfalos. Aos referidos pisteiros competia (e compete ainda hoje por outras razões) marcar o ritmo de marcha, observar os trilhos, detendo-se neste ou naquele vestígio, sobretudo se notavam sinais de risco, como por exemplo, sulcos, mesmo que ao de leve marcados na pista e ainda pelos ramos partidos que não correspondiam com o da “leitura” da caravana que conduziam, alertavam de imediato e atempadamente o chefe da caravana para o sinal de perigo. Os maiores riscos consistiam na passagem da caravana por terras de potentados ainda não avassalados que tinham de atravessar sujeitando-se pagar portagens e assim onerar os custos implicando de imediato uma maior despesa. Estes pisteiros completavam a sua excepcional valia como caçadores fazendo o indispensável aprovisionamento de caça, de que tanto careciam as caravanas.

Aqueles que ainda estão vivos e tais padecimentos sofreram, (os nascidos nas décadas de 30 e 40 do século XX), podem dar testemunho dessas inconcebíveis desventuras por terem ouvido a narrativa directamente dos velhos comerciantes, missionários ou militares. Naquele tempo, um reduzido número de mulheres, com os dentes cerrados, acompanhavam, às vezes já quase sem forças, as caravanas. As mulheres negras seguiam também os seus homens, militares de segunda linha e carregadores, ainda mais, era-lhes exigido, carregar à cabeça os parcos haveres dos seus companheiros e frequentemente às costas os filhos de tenra idade.

 

O Soba de Maquela do Zombo em 1908 esperando a comitiva da expedição portuguesa35.

 

Desejo aqui salientar uma pequena nota: Enquanto esta expedição fez o percurso São Salvador- confluência dos rios Cuilo-Kuango, cerca de 350 quilómetros a pé, por carreiros (Nzila) eu fiz o mesmo percurso, mas de carro; primeiro, com 18 anos de idade (1957) de Maquela a São Salvador e depois, em Junho ou Julho de 1960, percorri o troço de Maquela do Zombo a Sacandica (mais ou menos 150 quilómetros) sentado, incomodamente pensava eu, numa viatura Unimog, daquelas altas que transportava 7 ou 8 homens. Íamos em cumprimento duma missão de serviço que se resumia no seguinte: Bloco de apontamentos na mão, (ordens do comandante da nossa Companhia de Caçadores Indígenas Nº 5) começava por apontar, (por exemplo) cada curva à esquerda seguida de uma recta, assinalaria uma pequena elevação seguida de uma senzala, com mais ou menos 30 cubatas, etc., etc. Naquele tempo não compreendi a finalidade de tal registo. Hoje só posso encontrar uma explicação: era preciso que os habitantes dos povos dessem pela nossa presença e se apontávamos algo é porque “estávamos de olho neles” seria? Será que o comandante da companhia teria a mesma opinião?

Faço uma ideia, embora pálida, dos padecimentos de Faria Leal num percurso de 3 ou 4 semanas a pé. Mas aqui, assalta-me outro pensamento: que aventura seria a de Silva Porto patrão de 2.000 carregadores, transportando marfim e escravos à mistura, durante caminhadas de meses e meses a fio? Isto faz algum sentido porque nas minhas deambulações de caça, a pé de Quibocolo ao Cuilo sei bem quanto custava percorrer 10 horas a pé a corta mato, com uma diferença abismal, Faria Leal a cada 30 quilómetros tinha que fazer uma paragem para revitalizar as forças da coluna, especialmente dos carregadores descontentes ou desconfiados. Sem eles o avanço da coluna era impossível e Faria Leal tinha consciência e experiência disso. Outro personagem que dava pelo nome de língua, era o intérprete, nele depositava o comandante da coluna a confiança para angariar os carregadores. Se alguma coisa corresse mal a responsabilidade seria sua, a restituição da ordem também. Por esse bom desempenho lhe pagava o chefe da caravana. O andamento da coluna dependia muito da sua perspicácia face aos carregadores. Todavia a alma da coluna era Álvaro Tangue, como responsável pela confiança transmitida às autoridade gentílicas a visitar.

Quando as comitivas eram pequenas entre 30 a 100 componentes, torna-se claro que não havia necessidade de tantos especialistas, bastava o língua (intérprete-conselheiro) e o caçador que naturalmente era “o dono” dos carregadores.

Finalizo esta questão dos carregadores, transcrevendo uma nota de René Pelissier:

“Faria Leal passou sem dificuldade, com 26 homens de S. Salvador a Maquela do Zombo (14 de Maio de 1911). O próprio governador de distrito, o tenente da marinha José Maria da Silva Cardoso, chegou de urgência a Maquela com tropas e uma peça de artilharia. A 25 de Maio houve uma grande fundação convocada por Faria Leal. O perito de S. Salvador viu perfeitamente onde residia o ponto sensível: havia que distribuir de maneira mais equitativa as tarefas dos carregadores ampliando as zonas de recrutamento sempre mais para longe de Maquela do Zombo. Para isso era preciso ocupar Quibocolo, Damba e Quimbubuge, etc, e moralizar as condições de cobrança de imposto e de recrutamento de carregadores, Era um grande drama da administração portuguesa em África…”36

Como os especialistas destas questões da colonização sabem, Pelissier não poupou críticas à colonização portuguesa, outro tanto aconteceu com George Grenfell e especialmente James Grenfell, sobrinho de David William Grenfell, o tal missionário chefe da missão baptista de Quibocolo e o seu pes-soal inglês, pelo apoio dado à UPA em 1961 aquando dos primeiros ataques na região. Porém e curiosamente, não consegui encontrar um reparo grave ao desempenho das funções para que esteve indigitado Faria Leal no Kongo.

D. Álvaro Tangue (de chapéu) em conferência com D. Miguel Sacandica,37

“Foi isso que aconteceu com o major Santana e que viria a ser do mesmo modo com o novo Residente. Após algumas dificuldades menores o relacionamento com o capitão Leal desenvolveu-se no mutuo respeito e confiança. Tanto Graham como Lewis achavam-no capaz, justo e apreciador do trabalho que eles estavam a tentar fazer no Congo, uma situação que duraria quase uma década.”38

Acerca deste assunto, uma coisa se torna evidente, tanto os governadores-gerais como os governadores de distrito, desejavam acima de tudo que não se criassem situações delicadas com a politica indígena durante o seu mandato. Fez-se obra notável, nos primeiros anos do século XX como por exemplo o trabalho de Lopo Vaz de Sampayo e Melo Política Indígena. O Alto-comissário Norton de Matos teve que enfrentar e resolver no seu primeiro mandato situações de política indígena muito delicadas e difíceis de resolver, basta lembrar as campanhas do Cuamato e do Cuanhama. O seu trabalho como Governador-geral e depois como Alto-comissário foi investigado por René Pelissier.

“O governador Geral Norton de Matos, perito em matéria de autoritarismo e de excessos da administração mas suficientemente lúcido para perscrutar os motivos de uma sublevação que iria enegrecer os dois últimos anos do seu primeiro mandato exporia numa nota destinada a não vir a público que “ as causas desta sublevação devem principalmente ir buscar-se à incompetência e à falta de cumprimento dos seus deveres por parte das autoridades administrativas do distrito, civis e militares”39.

Só que cada um tentava “sacudir a água do seu capote”. As soluções operacionais, por vezes não eram compatíveis com as regras emanadas superiormente. Havia que abortar, tanto quanto possível, juramentos tradicionais de insurreição, e neste caso estava o juramento de comer a mandioca.

Comitiva do Major Galhardo a caminho do Cuango 190840.

Os povos de Maianda, Madimba, Quimbubuge, Canda, Conco., Mateca, etc., e até Gosela, região limítrofe de S. Salvador haviam comido a mandioca, coligando-se por essa forma de juramento gentílico para resistirem à autoridade quando fosse a cobrança do imposto…Comer a mandioca chama-se ao juramento pelo qual se coligam os povos para determinado fim; geralmente é uma aliança para a guerra. Os coligados fazem distribuir por todos os povos um bocado de mandioca e óleo de palma41.

Quantas vezes o êxito dependia de um rasgo de sorte e audácia. Quantas vezes negociaram os militares operacionais com os chefes indígenas o imposto de Cubata, ou o angariamento de carregadores. Nesta circunstância reuniam-se com os chefes tradicionais e praticavam o ritual da troca da pólvora.

“Antes de encetarmos a marcha teve logar a troca da pólvora feita entre Álvaro Tangue, representante do rei do Congo, Nepango, representante dos sobas da Zombo, por nossa parte e o soba de Quiquiangala, por parte dos kicongos”42.

Para concluir esta secção do presente trabalho, resta acrescentar que a Residência de S. Salvador ao observar estas regras de jogo, conseguiu, por exemplo, um assinalável êxito comercial, sem o qual não era possível governar a contento dos Kongo, e mais uma vez recorro a Rene Pelissier:

“…Em 1910-191 a residência de S. Salvador exportou 864Kgs. de marfim e 216.500 kgs. de borracha43.

O que quer dizer que no percurso de um ano foram utilizados, só no transporte da borracha aproximadamente 6.200 carregadores. Razão tinha a administração portuguesa em estar muito atenta aos agravos que os chefes dos carregadores (angariadores) tivessem contra os militares portugueses. Observe-se que Faria Leal e outros oficiais, em missões de negociação com os chefes indígenas não usavam a farda e existiam razões de peso. Um homem fardado, em principio, para os povos indígenas representava uma atitude hostil; em segundo lugar eles presumiam que se usava fato e chapéu à civil, ia para estabelecer a forma de iniciar ou concluir um negócio que devia ser vantajoso para os chefes indígenas. Veja-se que Álvaro Tangue usa o casaco e o chapéu, como usavam, por exemplo, Faria Leal e os missionários católicos. O modo de vestir diz muito do estatuto das pessoas.

Não me posso alongar, mesmo que fiquem por referir problemas como por exemplo a saúde, comércio, pesca, caça, e a agricultura, todavia não posso deixar de referir as relações de Faria Leal com a Sociedade Missionária Baptista, de que darei conta de seguida.

 

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