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Portal da Damba e da História do Kongo

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Contribuição para a escolha dos nobres kongo para Rei do Congo

Publicado por Muana Damba activado 10 Marzo 2014, 09:27am

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

 

Por Dr. José Carlos de Oliveira

 

Jose Carlos de Oliveira l

 

 

Contribuição para a escolha dos nobres kongo para Rei

 

A partir de meados do século XIX, o estado português assumiu, intermitentemente, o papel de autoridade sobre o reino do kongo, e, mais uma vez, a Inglaterra e o Vaticano estiveram por detrás desta incumbência. Repare-se no que já escrevi sobre a “política das minas”. Um exemplo: um acto militar português precedeu a eleição dum novo rei, obrigando ao exílio o rei do Kongo D. Álvaro Dongo. “Foi uma expedição, sob o comando de Baptista de Andrade, ao tempo tenente da marinha, que expulsou de São Salvador, Álvaro Dongo, ajudando os partidários de D. Pedro V, a apoderarem-se da cidade, num dos extremos da qual as forças portuguesas edificaram uma fortaleza, que ficou ocupada durante alguns anos, sendo abandonada depois. Esta expedição foi no ano de 1859”19. Atrevo-me a dizer que a fortaleza não teria sido abandonada, o que pode ter acontecido é que por falta de meios humanos para manter a sua segurança e porque a situação política no reino do Kongo estaria estabilizada, o governo português terá tomado a decisão de retirar a força militar. Não tinha outra alternativa.

 

Os dois pretendentes ao trono em 1898, à esq D. Garcia e dta D. Rafael.

 

Não se pense que foi fácil destronar D. Álvaro, os kongo em última instância convocaram (e ainda convocam) através dos tambores de guerra, muito rapidamente os seus mais ferozes guerreiros. Voltando a D. Rafael, tinham os seus povos garantido que após o falecimento de D. Álvaro este seria enterrado no cemitério dos reis do Kongo, mas por cima da sepultura do Ntotyla D. Pedro V, Ellelo. Tal não veio a acontecer porque Faria Leal já com dois anos de experiencia nos “negócios” dos notáveis do Kongo, em 1898 conseguiu visitar e entender-se com D. Rafael criando posteriores entendimentos, ao ponto deste lhe ter confiado o crânio do capitão Militão. Despojo esse que as hostes de D. Álvaro levaram consigo, depois do combate junto às ruínas da Sé. D. Rafael, então depositário do crânio, por ele bebia (como se fosse uma taça), o vinho de palma nas ocasiões solenes20. De posse do macabro despojo, perguntou Faria Leal ao Distrito que destino devia dar ao crânio do antigo servidor, responderam-lhe laconicamente que o enterrassem em local apropriado21.

 

A fotografia anterior, mostra aquilo a que Faria Leal chamava palácio da residência em 1898. Os dois antagonistas, 1º D. Garcia Bumbu, soba de Banza Putu, que negociou com Baptista de Andrade as condições para o assalto ao Lumbu de D. Álvaro. O nosso representante sabia que sem a ajuda de D. Garcia não conseguiria chegar ao Bembe e apoderar-se das minas de cobre. O segundo, já referido, era D. Rafael descendente de D. Álvaro.

 

Há aqui um pormenor relevante a ter em conta: os reis do kongo tinham-se habituado (com D. Pedro V foi assim) a ser tratados como irmãos do rei de Portugal, mas só entre pares, como prova este envelope da carta, escrita pelo secretário particular do rei, que para o efeito, fizera um estágio numa instituição religiosa de Luanda. Alguns dos futuros reis visitaram Portugal, como por exemplo aconteceu com D. Henrique Tyeking e de seguida com Pedro Bemba.

 

“Esteve no paço, onde falou com o rei D.Carlos e ficou mal humorado e desgostoso quando reconheceu na libré dos archeiros da casa real um fardamento egual ao que ao seu antecessor mandara de presente o rei D. Luís, e que ele continuava vestindo nas ocasiões solenes. Trouxe de Lisboa, casaca e chapéu alto, e nunca mais envergou o vistoso fardamento de archeiro, com que os seus herdeiros, mais tarde voltaram a ornar-se”22.

Extracto do envelope de uma carta trocada entre o Notila e o

rei de Portugal D, Luís I, adquirida pelo autor no

Arquivo Histórico Ultramarino23.

 

Percebe-se agora que Faria Leal era naturalmente reconhecido pelos conselheiros do rei e pelo próprio rei, como familiar do rei de Portugal. O direito consuetudinário no Kongo assim o entendia. Digamos que Faria Leal era “filho” do rei de Portugal. Além disso os missionários ingleses representantes da rainha Victória no reino do kongo mantinham as melhores relações com Faria Leal, conferindo-lhe uma deferência especial que aos Kongo não passava despercebida. Neste contexto, a luta pela supremacia politico-religiosa, católica e protestante, face aos notáveis do reino era o assunto mais melindroso com que se debatia o representante de Portugal. Assim, talvez se possa entender melhor o prestígio do Residente.

 

Neste contexto, a luta pela supremacia político-religiosa, católica e protestante, face aos notáveis do reino era o assunto mais melindroso com que se debatia o representante de Portugal. Assim, talvez se possa entender melhor o prestígio do Residente.

 

Esta fotografia é a prova provada do prestígio outorgado a Faria Leal. Na fotografia estão três pessoas sentadas; 1º, naturalmente e em destaque o rei; 2º e abaixo do trono está o Residente. Quero crer que a posição face ao rei não indicava subalternidade, mas sim que ele seria “Um filho do Rei”. No Kongo só podia estar sentado sobre uma pele de leopardo quem estivesse para tal legitimado pelo Ntotyla; 3º finalmente o príncipe, com o titulo de nosso, está sentado (na fotografia de costas) e por ser príncipe estava legitimado a sentar-se numa cadeira, colocada para esse efeito durante a cerimónia. Espero ter sido suficientemente convincente. De seguida apontarei outros pormenores relevantes. Como a “fundação” de 1902.

 

Fotografia do rei no Lumbu (1902), do acervo da família Faria Leal.

 

Que se passou então?

Em 1902 os Ndembu Gombe á Miquiama dos lados do encoje e quibaxe Quiamubemba do Alto Dande, acompanhado cada um de 200 homens vieram perante o rei decidirem direitos de primazia. Ambos se diziam descendentes dos filhos dos reis do Congo24.

 

O monarca tomou o conselho dos seus notáveis. Dirigiu-se com a comitiva dos dois antagonistas à Residência. Uma vez perante Faria Leal, consultou-o acerca do problema; por conseguinte foi necessário convocar todos os sobas e fazer uma Fundação (a tal reunião notável). É desse momento histórico que consta o registo da fotografia.

 

Sim, mas o que pretendiam os Ndembu? Na minha opinião saber quem devia comandar os guerreiros.

 

“…tempo depois rebentava a guerra com os dembos, tendo de se organizar e marchar para lá a coluna do comando do capitão João d’ Almeida que entre outros teve como inimigo Gombe à Muqiama.25

 

Por aqui se podia medir ainda o prestígio do rei do Kongo, prestigio e poder esse que se estendia para Norte até ao rio Zaire, e para leste até ao rio Kuango, terras do Jaka Kianvo Bungi e de Muene Puto Cassongo, para Oeste até ao mar e para Sul até ao rio Bengo (Luanda)26.

 

Foi exactamente o que aconteceu em 1961, as hostes da UPA não atacaram sem a superior orientação do tulante Holden Roberto27. Hoje os políticos kongo interrogam-se “porque é que a sublevação de 15 de Março de 1961 não foi ordenada a todas as KANDA? Pessoalmente, estou convencido que os conselheiros político-militares, no exterior e no interior de Angola, assim o determinaram. Todas estas questões teriam sido mais ou menos negligenciadas pelos representantes do Estado Português.

 

 

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