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Portal da Damba e da História do Kongo

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Os Clãs Zombo ou Bambata no antigo Reino do Kongo (5)

Publicado por Muana Damba activado 4 Septiembre 2012, 12:47pm

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

 

 

Por Dr José Carlos de Oliveira


Dr_Joao_Carlos.jpg

 

Factos Históricos Recentes como Suporte do Poder Político Zombo (1)

 

A unidade dos kongo era (e ainda parece ser) reforçada religiosa e magicamente pela crença de que os antepassados fundadores tinham estabelecido os seus direitos ao território tribal para benefício das gerações futuras. É por isso que os espíritos desses antepassados se encontram estreitamente ligados ao território do sub grupo. O equilíbrio cimentado entre os factos históricos recentes, face ao ancestral poder político zombo, está relacionado com os valores e ideias apresentadas por Gurvitch (1968:168): “ (…)

 

Por detrás de todas as espécies de condutas e atitudes colectivas, por detrás de todas as esquematizações cristalizadas e por detrás de todos os modelos, signos, papeis e símbolos sociais, descobrimos todo um mundo de ideias e de valores colectivos. (…)”

 

Uma das figuras incontornáveis era, e continua a ser, o chefe. Este dispunha (e ainda parece dispor) de importantes funções religiosas e judiciais (as regulamentações sociais de Gurvitch)16 e de privilégios económicos bem definidos. Por vezes, celebravam-se grandes rituais que reuniam o sub grupo inteiro como, por exemplo, os das exéquias dos chefes, que implicavam a extinção geral dos fogos, e os da eleição dos seus sucessores (os papéis sociais regulares e habituais de Gurvitch)17 .

Um dos factos históricos recentes que mais evidenciavam o poder político dos zombo foi a cerimónia de eleição de Manuel Quedito (Kidito), sucessor do Ntotila, que teve lugar no dia um de Julho de 1911, em Banza Kongo. O Residente Faria Leal (administrador da autoridade portuguesa em Banza Kongo) relatou o acontecimento nos seguintes termos:

 

“ (…) Foi no dia 1 de Julho de 1911 que deu entrada no bumbo (leia-se Lumbu) Mouros (leia-se muros) dos antigos reis do Congo, Manuel Martins Quedito, reconhecido pelo Governo como simples Juiz popular, mas considerado pela maior parte do povo como rei (…) Aqui o aguardávamos como chefe do concelho, bem como o secretário, missionários portugueses e ingleses e os poucos brancos que nessa altura residiam no Congo (…)”.

 

Parece-nos ser de extrema importância esclarecer por que motivo corrigimos a grafia da palavra lumbo que, na citação acima transcrita, se encontra registada como “bumbo”. O termo lumbo designa, em kikongo, o que em português designamos por “pátio, quintal politico social ”19 . Os kongo realizaram a cerimónia de eleição no lumbo, porque o pátio representava o poder do Ntotila.

 

fotos do Dr J.c,om-copie-1

 

Ao analisarmo-la, temos de ter em conta um factor fundamental para compreendermos a importância do relacionamento entre as figuras representativas presentes nesta cerimónia: a disposição protocolar. A pessoa que se senta no cadeirão (a segunda a contar da esquerda) é Manuel Quedito, o sucessor de Ntotila. À sua esquerda encontra-se Faria Leal, o Residente do governo português, e à sua direita está o representante militar português, o tenente José Joaquim Ramires. Entre os quatro dignitários que
não se encontram sentados estão o nobre Mfutila do Zambo e o nobre Tulante soba do Luvo. À direita destas figuras, estão as senhoras das missões baptistas inglesa e católica portuguesa.

Esta disposição não é aleatória. Na verdade, é a partir da figura central de Manuel Quedito que se estrutura a disposição dos restantes elementos presentes na cerimónia. Se tivermos em conta que quem legitima a posse da sucessão são os já citados representantes do governo português, já entendemos o porquê de Manuel Quedito se fazer ladear por estas duas figuras. Contudo e, segundo Faria Leal, esta cerimónia não validava, por si, a tomada de posse por parte dos kongo. Para que tal sucedesse, teria de se realizar, no mesmo dia, outra cerimónia na qual estariam somente presentes elementos das mais representativas kandas kongo. Tal facto é descrito pelo próprio Faria Leal:

 

“ (…) Terminado o copo d’água, todos os brancos se retiraram e o chefe indígena ficou recebendo as homenagens dos sobas, que formavam em círculo no recinto vedado dos muros, tendo em frente um numeroso exército de garrafões de vinho de palma, encimados pela cruz de palmeira entrançada, signal de que sempre era acompanhado o vinho enviado ao rei, para não sofrer libações pelo caminho. (…) ”


fotos do dr jocm

 

Os quatro dignitários kongo, retratados na fotografia, fazem parte desse grupo restrito do corpo nobre que estará presente nessa segunda cerimónia. Não poderíamos concluir a análise desta fotografia, sem antes fazer referência à cadeira vazia que se encontra à direita das senhoras inglesas. Supomos que esta cadeira assume simbolicamente a presença dos antepassados kongo, nesta cerimónia, a atestarem a validade da mesma. Tal suposição baseia-se no facto de encontrarmos, em outras fotografias do álbum da família do rei do Kongo, cadeiras vazias colocadas de forma singular em cerimónias importantes, como é o caso do hastear da bandeira portuguesa na visita de Quedito à Residência portuguesa, em Banza Kongo.

Ainda de acordo com Faria Leal, para propiciar e induzir os antepassados a aceitarem o novo Ntotila,(…) os sobas Tulante do Lovo (leia-se Luvo), na Madimba e Mfutila do Zambo, representavam, armados de velhas durindanas (leia-se espadas), uma justa ou torneiro, com saltos e esgares selváticos (…)”. A fotografia que agora reproduzimos capta esse mesmo momento . 

 

fotos do drjocn

 

Ainda sobre este assunto, é de se salientar que os representantes mais notáveis das kanda , (clãs matrilineares) e dos lumbu (clãs patrilineares) usavam títulos especiais. De acordo com Faria Leal, o título nobiliárquico mais importante e já aqui referido é o de Ntotila, considerado o rei. Por ordem decrescente de importância, segue-se-lhe o Nosso  (príncipe), também Nosso Mpidisipi (nosso príncipe); Duki (Duque) ou alternativamente Tulante (Tenente). Os homens importantes eram referidos como Dom como, por exemplo, Dombaxe (Dom Sebastião), ou ainda, Dompetelo (Dom Pedro) e as suas esposas como Donas . 

 

 



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