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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Os Clãs Zombo ou Bambata no antigo Reino do Kongo (4)

Publicado por Muana Damba activado 28 Agosto 2012, 02:15am

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

 

Por Dr José Carlos de Oliveira


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O Conceito do Subgrupo Zombo como Unidade Sociopolítica

 

O mundo Kongo desenvolveu-se através das suas estruturas, que se foram solidificando e alterando, tornando-se subjacentes a todos os parâmetros da vida, fundamentando e motivando todas as suas manifestações existenciais. Estas expressões diversificaram-se de tal forma que, os kongo se foram tornando relativamente diferentes entre si.

Para tal, concorreu sobretudo, o ambiente natural da zona ecótona, ou seja, a zona de transição entre a floresta e a savana. É o caso do subgrupo (designação anterior tribo) Zombo. Relativamente à questão da utilização do termo “tribo”, Ramiro Ladeiro Monteiro (1994:237) afirma o seguinte:

 

“Com a ocupação ruiu o sistema de centralização do poder tradicional, desaparecendo alguns suportes da organização tribal, já que a coesão da tribo era assegurada por um conjunto de instituições políticas, jurídicas e militares. É por isso que, actualmente o termo “tribo” só se pode usar, com propriedade, num sentido restrito (histórico e cultural), com exclusão portanto do conceito político”.

 

Contudo, nós temos dúvidas que assim seja, já que as estruturas podem ter submergido, podem-se ter tornado latentes. Logo, é preciso dar tempo ao tempo, e esse tempo ainda está para vir. De facto, ainda não existe concordância suficiente entre conceitos, sendo disso exemplo, o termo nsi, que significa terra no sentido de chão pátrio.

Há regiões da terra que oferecem ao ser humanos inúmeros recursos e há outras que lhe são profundamente madrastas. As primeiras, permitem que, através dos tempos, o homem progrida; as segundas limitam drasticamente a sua capacidade evolutiva. Daí que possamos afirmar que toda a história humana tem sido um permanente diálogo entre o homem e a natureza. E as terras kongo, em geral, oferecem imensos recursos. A este respeito, atentemos no testemunho do actual Bispo do Uije, D. Francisco Mata Mourisca datado de Setembro de 2005:

 

“ (…) A província do Uije creio que tem possibilidades para alimentar Angola inteira. E então, passar aqui fome é um pecado contra a Providência de Deus, que tão prodigamente beneficiou esta terra, a começar pela abundância de chuva, oito meses ao ano. Viajando, há tempos, para Roma, fui ao lado dum israelita que conhecia bem Angola, inclusive o Uije. E no meio da conversa exclamou “ ai, se nós tivéssemos em Israel, um cantinho do Uije, faríamos Maravilhas (…).”9

 

Os zombo são um dos muitos subgrupos pertencentes à família sociolinguística dos kongo e que ocupam territorialmente parte da Bacia Convencional do Zaire. No entanto, convém notar que cronistas antigos citaram uma série de nomes regionais hoje desaparecidos, o que nos permite concluir que existiram outros subgrupos para além deste.

Atentemo-nos agora nos nomes alternativos que cada subgrupo kongo pode usar. Relativamente ao grupo étnico em si, os kongos podem assumir outras designações, tais como congos, congoleses ou conguenses. O mesmo acontece com os zombo que, para além dos termos acima referidos, também são conhecidos por bazombo e bambata . Este último termo deriva da antiga província de M’bata, subordinada ao Ntotila. Esta área geográfica do noroeste de Angola confina com a região do Inkisi, da vizinha República Democrática do Congo, para leste de uma linha que une os rios Fuleje, Mbrije e Luango.

Esta região ocupa toda a circunscrição de Maquela do Zombo até ao rio Kuilo, sendo este o limite oriental; ao norte encontramos a Damba, indo o limite até ao rio Nzadi e, no sentido sul, até à região de Mlanda . Durante séculos, os kongo foram modelando a sua sociedade e o subgrupo Zombo, pelas suas características mercantis e primacial relação com o Ntotila, teve e continua a ter um papel fulcral no conjunto das ideias, hábitos, crenças e ritos a que deu significado, com valores e símbolos suficientemente fortes para envolver a sua organização social e os seus costumes. Todavia, parece não ser polémico afirmar que os zombo, em virtude dos contínuos contactos sócio-culturais proporcionados pela sua posição de povo politicamente fronteiriço, se apresentam nos nossos dias como um cruzamento ecótipo muito complexo.

 

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As extensas savanas do planalto que o subgrupo habita, apesar de todas as nefastas contingências (das quais a guerra dos quarenta anos - desde os anos sessenta do século passado – é a mais grave e a mais próxima), continuam propícias à caça e à agricultura, permitindo inusitadas migrações. A título de exemplo, podemos referir o facto de que, desde os anos noventa do século passado e devido ao garimpo dos diamantes, se fixaram na região os maiores especialistas no assunto: os povos de Lumlumbaxi (distrito oriental da República Democrática do Congo). Calculam-se em cerca de 12.000, os “estrangeiros” afectos ao negócio. Este pormenor assume particular importância quando consideramos
as relações que estes homens passaram a ter com as mulheres zombo, dando assim início a uma nova relação de contacto de culturas e alterando, novamente e de forma significativa, o modo de viver dos zombo.

A carta acima reproduzida assume particular relevo no presente estudo por dois motivos: primeiro, coincide com a época que estamos a analisar; segundo, regista os itineráriosque os mais importantes exploradores científicos percorreram nesta região. Estes, ao assinalarem as mais importantes povoações da altura, permitem-nos a nós, hoje, comprovar a emergência de umas e o desaparecimento de outras, o que se consegue através de uma análise comparativa desta carta em particular com outras cartas redigidas cinquenta anos depois. Ainda sobre este tema, o missionário António Barroso (1889) tem esta expressão:

 

(…) Todo o indivíduo que se julga com certo poder, e possuidor de alguns escravos e mulheres, vai logo fazer uma povoação de que se intitula soba e senhor “mfumu (…)”.10

 

Voltando à caracterização da unidade política, será ou não defensável recorrer ao conceito de estrutura sociopolítica para distinguir os zombo? A definição que mais parece servir os nossos propósitos é a de Georges Gurvitch (1968:509) e que reproduziremos para depois fazer a sua aplicação ao nosso caso. Convirá, antes, exprimir a nossa concordância com a importante afirmação final de Gurvitch: 

 

(...) A sorte do conceito de estrutura social é jogada na aliança entre sociologia, história, etnologia e economia, e não no campo das ciências matemáticas (…)”11.  Na verdade, é impossível a estas últimas fazer avaliações e “equilíbrios precários entre as múltiplas hierarquias, que representam um aspecto dos fenómenos sociais totais macro-sociológicos”12. Dito isto, passamos a transcrever a definição avançada por Gurvitch.

 

“ (…) Toda a estrutura social é um equilíbrio precário, continuamente reconstituído num esforço sempre novo, entre múltiplas hierarquias dentro de um fenómeno social total de carácter macro-sociológico, do qual representa apenas um substituto aproximado: equilíbrio entre hierarquias específicas dos planos em profundidade, das manifestações de sociabilidade, das regulamentações sociais, dos tempos sociais, das colorações do mental, dos modos de divisão do trabalho e da acumulação e, eventualmente, dos grupos funcionais, das classes e das organizações: esse equilíbrio é, em especial, armado e cimentado por modelos, sinais, símbolos, funções sociais regulares e habituais, valores e ideias: em suma, por obras culturais próprias dessas estruturas e, se estas são globais, por uma cultura interna que as ultrapassa e da qual elas participam como produtoras e também como beneficiárias (…) “13. 

 

A esta definição podemos associar a posição assumida por Fortes e Evans Prichard, no seu estudo sobre os sistemas políticos africanos. Na definição da estrutura política de uma sociedade elementar, estes afirmam: “

 

(...) deve procurar-se uma comunidade na qual o sentimento público se encontra unido quer na aplicação de sanções a qualquer dos seus membros julgados como infractores, quer na resolução de litígios, quer na atribuição de justas satisfações por ofensas recebidas dentro da própria comunidade (…) “14. Pritchard defendeu que, para os Nuer, um dos traços que define o subgrupo (a tribo) seria o seu mais característico agrupamento, já que compreendia no seu seio grupos considerados subalternos, (as múltiplas hierarquias de Gurvitch), tais como os clãs, a família extensa, os grupos de sexo e de idade, os distritos tribais e as povoações familiares. Inicialmente, os subgrupos seriam formados por um núcleo de indivíduos, unidos por laços de parentesco, descendendo de um antepassado comum e do qual o chefe seria o legítimo representante.

Contudo, àquele núcleo foram-se agregando, pouco a pouco, indivíduos de origem exógena (tal como anteriormente referimos em relação aos garimpeiros) através de casamentos exógamos, cumprimento de penas de ostracismo ou procura de terras aráveis. Assim, a integração num subgrupo passou a ser determinada mais pela obediência e comum lealdade a um chefe hereditário do que pela consanguinidade.

 

A unidade local de maior importância era a povoação familiar, geralmente constituída pela área residencial, campos de cultivo e currais de gado. Quando um grupo da povoação familiar ou até todo o conjunto de povoações familiares ocupava um território geograficamente distinto, dirigido por chefe subalterno, mas dispondo do seu próprio sistema administrativo e judiciário, podia constituir um distrito . Acima destas unidades está o grupo ou a nação (o grupo maior) com uma língua e cultura comuns. A colonização, com a ocupação efectiva, trouxe profundas alterações ao sistema tribal.

A organização do subgrupo Zombo nasceu a partir de afinidades étnicas e culturais, de interesses económicos em comum ou de alianças entre kandas, (clãs matrilineares) e lumbus (clãs patrilineares) afins. A capacidade guerreira de um lumbu e de uma kanda sobre os outros marcava decisivamente a sua preponderância, o que desde logo indiciava o assumir de uma autoridade, formando assim uma elite guerreira .

O clã desempenhava já uma função política, definida por uma economia e um território com direito à vingança e à guerra, e em que os seus membros se auxiliavam mutuamente, embora tal associação se expressasse em termos de parentela mística ou de exogamia. O clã era, e ainda é, uma estrutura intermediária entre a família alargada e o subgrupo.

Porém, a prerrogativa que nos merece maior destaque é a que se refere ao poder exercido pelo rei do Kongo na captura e domínio do controlo da moeda zimbu . Na sua origem, a vigilância da moeda zimbu estava sobretudo entregue aos inacianos portugueses e a um familiar próximo do monarca de nome Mwene Kabunga e a quem competia comandar as mulheres que faziam a captura do zimbu. Estas mergulhavam nas águas da ilha durante a praia mar, para procederem à captura do búzio conhecido cientificamente por “cauris” cipraea moneta15 . O nobre Mwene Kabunga não era outro
senão o Nsaku, Many Vunda, detentor de extraordinário poder político, económico, jurídico e social. Era, na verdade, o maior ngudikama e os factos históricos que se seguem são disso prova insofismável. Também a privilegiada posição geo-estratégica das terras Zombo, entre Angola e a República Democrática do Congo, determinou o poder que este ngudikama detinha enquanto controlador do equilíbrio social, económico e político na região .

 

 

9 - MOURISCA, Francisco da Mata (2005) Contributo da Sociedade Civil para a Reconstrução e o Desenvolvimento da Província do Uíje. Uíje.

10 - Barroso, António (1889). O Congo – Seu Passado, Presente e Futuro. Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa. 8ª Série. 3 e 4: 187
11 - Gurvitch Georges (1968) A Vocação Actual da Sociologia, Volume I, Press Universitaires de France, Paris, p. 509.
12 - Op. cit., p. 505.

13 - Op. cit, p. 507.
14 - FORTES, M e EVANS-PRITCHARD (1940) African Political Systems. Oxford University Press. Londres, pp.1-23.

15 - Sousa, L. Rebelo de (1967) Moedas de Angola. Banco de Angola. Luanda, p.16.

 

 

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