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Portal da Damba e da História do Kongo

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Os Clãs Zombo ou Bambata no antigo Reino do Kongo (2)

Publicado por Muana Damba activado 13 Agosto 2012, 11:45am

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

 

Por Dr José Carlos de Oliveira


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Introdução



O tema

O prefácio desta dissertação define claramente a razão da preferência pelos zombo como objecto de estudo, mais ainda, coloca a pedra angular, digamos o objectivo, nas reflexões acerca da sua capacidade de liderança nos negócios mercantis da zona de influência do reino do Kongo, até ao último quartel do século XIX e dentro do espaço geográfico que hoje forma o triangulo entre três capitais de modernos estados da Africa Ocidental: a República Popular de Angola, a República Democrática do Congo, e a Republica Popular do Congo (Congo Brazaville).

Apesar de rejeitarmos desde já as teses deterministas, começamos por sublinhar não ser possível estudar estas populações sem ter em conta o meio em que se movimentam e as respectivas relações homem-ambiente. Por isso tivemos o cuidado de iniciar a investigação abordando as ancestrais relações bantú/pigmeus como parte integrante do ecossistema da bacia do rio Zaire. O conjunto estruturado compreende os pigmeus Baynga dos Camarões, os Bambuti do Ituri do lado Ocidental e ainda os Batwa e Baka Baka ao Sul com diferentes grupos bantú. Esta aparição no espaço milenar dos pigmeus, produziu a emergência do futuro reino do Kongo.

Sem se correlacionarem os dados adquiridos dos contactos de cultura entre os povos da floresta do ecossistema florestal Zaire, pigmeus, com os povos da savana, zombo e finalmente a emergência do povo talassocrático português, dificilmente teremos a noção de abrangência que o assunto exige.

A delimitação do universo zombo ultrapassa, no nosso caso, a fronteira politica dos zombo de Angola. Introduz a novidade, (pensamos) de não os dividir dos zombo da República Democrática do Congo. Em termos culturais, económicos e especialmente da cultura tradicional kongo não faz sentido, eles são parte fundamental da sucessão e a descendência do célebre reino do Kongo. No mapa que inserimos no capitulo três e que se refere ao reino do Kongo no século XVI é bem visível a região Bambata, Ba Mbata,
(1) ou ainda M’bata, designação por que começou a ser conhecido o nosso sub-grupo. São parte da essência da matriz do célebre reino do Kongo.

O seu chefe ancestral, Nsaku Ne Vunda, exerceu durante séculos o poder terreno sob o manto sagrado matrilinear da kanda Nsaku. Os zombo passaram a fazer parte do reino do Kongo com a designação de Ducado de M’Bata (2). A sua privilegiada localização geográfica – um extenso planalto situado entre 1000 a 1100 metros de altitude – terá estado na base da escolha das íntimas relações que vieram a estabelecer-se entre o mítico Nimi a Lukeni, o”mwana” de Nsaku (leia-se o primogénito) e a autoridade mítica do grupo Kongo.

Por múltiplas cartas geográficas que introduzimos no nosso estudo pudemos apreciar a zona de influência dos zombo. Foi sendo assinalada pelos pesquisadores europeus de uma forma arbitrária sem qualquer significado entre os zombo.

Para o melhor entendimento do nosso discurso, optámos por estudar separadamente os zombo na tradição, na sua inserção como parte da colónia portuguesa de Angola e a sua adaptação integração na independência (1975) da sociedade angolana.

O objectivo

Da análise bibliográfica directa ou indirectamente relacionada com os zombo, retira-se um fio condutor principal: a apetência secular deste sub-grupo étnico para o comércio internacional. Os documentos fotográficos inseridos na dissertação são disso prova insofismável. A minha relação com os Zombo de mais de 55 anos permitiu a análise, correlação e sistematização do assunto.

O comércio de caravanas de longo curso na África subsaariana começou por ser um negócio exclusivo dos tradicionais negociadores islamizados e que mobilizava milhares de carregadores. A partir de finais do século século XV, isto é, com a chegada dos portugueses à bacia do Zaire o movimento mercantil teve um enorme incremento. Os portugueses ao chegarem à foz deste grande rio, compreenderam que a partir da sua  foz, deveriam de aproveitar e dar continuidade ao negócio estabelecido com o interior de África, desviando-o para portos naturais, tanto da zona marítima atlântica como da zona do Índico. Pouco depois, perceberam que uma elite privilegiada desta zona geográfica se destacava nas relações diplomática e comerciais: os zombo. Vieram a assumir o papel relevante como interlocutores da nova era comercial, grandes mandantes das caravanas de longo curso do comércio na bacia do Congo ou Zaire .

A figura do língua zombo (leia-se, o intérprete privilegiado para a resolução de todo e qualquer negócio), foi ao longo de séculos um personagem que se destacou nas relações sócio-culturais do território. Emparceirava frequentemente ao lado das maiores autoridades políticas, sendo dotado de uma particular argúcia diplomática. O seu saber contribuiu fundamentalmente para a coexistência pacífica entre os povos da zona, uma vez que, interessados no intercâmbio comercial, não lhes interessava a guerra. Porém, quando declarada, já eles estavam preparados para a conveniente mudança de atitude.

 

Da sua capacidade de oratória, especialmente considerada, dependia o desenvolvimento dos contactos do poder político kongo. Os tratados celebrados ao longo de séculos denotam sempre a presença da figura do língua zombo, o linguister dos ingleses e o linguará do Brasil .

Foi ao longo de séculos um povo de fronteira, tanto ambiental, como política e especialmente dedicado ao comércio de fronteira. O termo ‘comércio de fronteira designa todas as trocas comerciais realizadas entre duas potências políticas, cujos limites geográficos se confrontam.

Durante o nosso discurso falaremos de mercadores e de modelos de transacção, tomando sempre, como ponto de referência, os zombo e a sua proverbial tradição de grandes negociadores cuja ‘sede comercial’ é o ‘comércio de praças’, ou seja, os nzandu, que durante o período escravocrata era designado por Pumbo .

A partir do capitulo cinco podemos contactar a mudança de atitude dos Zombo face ao evidente poder de negociação dos portugueses comentado na secção “ O Advento da Civilização Técnica e da Ciência Aplicada à Consequente Situação Colonial”. Foi o período que deu início à Angola portuguesa e ao vizinho Congo Belga. Os zombo rapidamente se aperceberam que os europeus belgas e até muitos portugueses nunca se iriam adaptar ao clima do Congo. Houve situações de forte conflituosidade, especialmente com a emergência do grande chefe Buta que viria a estar na génese do movimento tribalista UPA, transformando-se em movimento nacionalista FNLA e depois partido político.

Como fica demonstrado a ocupação colonial efectiva (tal como consta do nosso discurso) durou cerca de cinquenta anos, incrementada a partir da Segunda Grande Guerra. A partir daí fizeram-se os maiores esforços para integrar os zombo na província portuguesa de Angola, sem resultado. A situação geográfica, a capacidade de simulação e dissimulação dos zombo na ordem politica permitiu-lhes resistirem. Fizeram-no com a arma mais eficaz: o comércio internacional da zona. Ainda hoje em Kinshasa os comerciantes angolanos são conhecidos como bazombo, na capital angolana conhece-nos como zairenses. Veremos o que o futuro lhes reserva.

 

(1) - Amaral, Ilídio de (1996). O Reino do Congo, os Mbundu (ou Ambundos), o reino dos “Ngola” (ou de Angola) e a Presença Portuguesa, de finais do século XV a meados do século XVI. Instituto de Investigação Científica Tropical. Ministério da Ciência e da Tecnologia . Lisboa .

 

(2) - Oliveira, José Carlos (2004) O Comerciante do Mato – o comércio no interior de Angola e Congo . Centro de Estudos Africanos – Departamento de Antropologia – Universidade de Coimbra. Coimbra : p.

 

 

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