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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


O Pensamento científico do Missionário António Barroso

Publicado por Muana Damba activado 30 Octubre 2013, 12:47pm

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

 

 

Por Dr. José Carlos de Oliveira

 

 

Jose Carlos de Oliveira l

 
Contam ainda hoje os indígenas, que o Nisoio querendo convencer o seu parente e suzerano de que devia abraçar o christianismo, lhe dissera que os novos Nganga a Nzambi, tinham o poder de tornar novos os que mesmo muito velhos recebessem o baptismo.
   
Acerca desta eterna vontade do homem desejar reconquistar a sua plenitude masculina, o grande Goethe abordou magistralmente a figura de Fausto que no afã de superar os conhecimentos de sua época, evocou espíritos e, por fim, Mefistófeles, o demónio com o qual negociou a sua vida para viver por artes mágicas, vinte e quatro anos sem envelhecer.
 
Na língua Kongo o terno Nganga traduz-se literalmente por mágico, porém os kongo para os distinguirem dos seus mágicos deram-lhes o nome de Nganga a Nzambi25, mágicos de Deus. Torna-se claro que um sacerdote cristão não queria, e não quer, ser intitulado por mágico. O que estou a afirmar, é como os kongo os entendiam. Repare-se num termo muito comum entre nós para designar uma coisa que não presta: bugiganga, pois não é outra coisa senão a corruptela Bougie Nganga; é uma mistura do francês bougie e do Kikongo nganga. Ora bougie era na circunstância uma espécie de ”lâmpada mágica de Aladino” usada pelos missionários católicos e protestantes, para impressionarem os nativos. Esta era uma luta de titãs, a batalha dos deuses. Podiam os “psiquiatras Kongo” tremer sempre que viam aparecer “o branco de saias”. Com o tempo, foram percebendo que os brancos, em geral, não duravam muito. Podiam invocar os seus espíritos e até reencarnar neles, mas por pouco tempo, e mais, nem as sepulturas ficavam para assinalar a sua presença. Depois os Kinganga, ou aqueles que falavam em nome dos antepassados notáveis, seriam novamente ouvidos pelos soba, muata, mfumu (diversos títulos de chefe). Era só uma questão de tempo…
 
Por muito que esta verdade nos custe (a nós portugueses) foi este o estado em que Faria Leal, (tal como o missionário Barroso) encontrou as ruínas da mais significativa (e 1ª) igreja erigida pela igreja católica na África Ocidental.
 
 
  
  Ruínas da Sé Catedral NKULU MBIMBI no dizer dos Kongos e erigida pela igreja católica em finais do Sec.XV
                               (fotografia do álbum da família Faria Leal.)
 
Ao ler e reler algumas considerações de Faria Leal, nada abonatórias, sobre a obra dos missionários católicos no reino do Kongo, tive dificuldade no seu encadeamento, em que parte do artigo as enquadrar, passei inclusive pela incerteza se devia mencioná-las ou não. Parece-me que o melhor é transcrever alguns segmentos dos registos de Faria Leal por uma razão muito simples: fazem parte de dados históricos da opinião do Residente Faria Leal, e porque se referem a informações muito relevantes sobre a igreja de Santa Cruz mais tarde elevada a Sé Catedral, denominada em língua Kongo Nkulu Mbimbi.
 
“Foi no reinado de D.João II, poucos anos depois da descoberta do Congo por Diogo Cam, que começou a propaganda religiosa no reino do Congo, sendo Gonçalo de Sousa, quem, em 3 de Maio de 1491, lançou a pedra fundamental da igreja de Santa Cruz em Embasse, hoje São Salvador do Congo, elevada a Sé Catedral em 1534 (fotografia das ruínas da Sé)…De toda a propaganda religiosa que seguiu esta instalação se apagaram todos os vestígios morais…O vetusto arco da Sé foi respeitado por imposição nossa, quando o superior da missão católica, cónego Sebastião José Alves, o quis também demolir para lhe aproveitar a pedra.
 
 
 
  A mesma Igreja já devidamente restaurada em 1896. (Fotografia da família F. Leal)
 
De uma coisa estou certo: os valores morais a que nos encontramos vinculados, quando somos confrontados com a nossa miséria humana a breve trecho e perante tantas amarguras facilmente se desvanecem.
 
E naqueles tempos? Tempos em que esta gente deixava a terra natal, os confortos da civilização, atravessava mares e florestas, internava-se no sertão, convivia com as populações, a que chamavam de “selvagens”, (e ao fim de alguns anos pouca diferença faziam desses “selvagens”). Tudo o que queriam era construir uma capela, seguida de uma escola, depois a enfermaria e, mais tarde, uma oficina.
 
O isolamento levava inexoravelmente à degradação da saúde mental e física, consequentemente, à depravação dos valores morais. A noção de auxiliar, a troco de nada, em breve, se esvaía no embrutecimento que ia tomando conta de muitos dos missionários.
 
Finalmente mais uma breve nota dos registos históricos de Faria Leal:
 
“O esforço e o zelo dos missionários levantou na capital do Congo e em nome de Deus os seguintes templos, cujas ruínas nos são hoje marcadas entre grandes hervas por alguns comoros pouco elevados, exceptuando a antiga Sé, que conserva alguns pedaços de muros levantados e um arco da capela-mor em estado de segurança. Existiam em S. Salvador os seguintes templos, cujas ruínas visitou antes das ultimas guerras do Congo, o sr, Alfredo Sarmento em 1856: Santa Sé Apostólica, S. Miguel, Nossa Senhora da Conceição, S. Tiago, Vera Cruz, Nossa Senhora do Rosário, S. João Baptista, S. José, Espírito Santo e as igrejas dos jesuítas, do convento dos capuchinhos e da santa casa da Misericórdia…nas imediações de S. Salvador existiam umas sete paróchias do que hoje não aparecem vestígios alguns".
 
Perguntar-se-á: que utilidade teriam tantas igrejas e paróquias? Vejamos o que disse a certa altura, acerca da escravatura, António Barroso na comunicação à Sociedade de Geografia de Lisboa durante a sessão de 7 de Março de 1889.
 
 
 
  A nova casa dos missionários católicos em Banza Kongo, 1896
 
“os missionários pregariam, sem dúvida, que os homens eram irmãos, que foram remidos todos no sacrifício cruento do Calvário; tratariam com carinho e bondade os seus subditos, como o indica ainda hoje o facto de povoações que pertenceram aos missionários, nas quaes os pretos dizem sem rebuço que eram escravos dos mesmos, notando-se que a maior offensa que se pode dirigir a um congo é apellidá-lo assim “…Os portugueses não inventaram a escravatura, que é muito anterior a elles, apesar de que já alguém lhes importou esse crime; exerceram-na porém como todos os povos europeus, e quiçá com mais brandura que alguns. As leis admittiam este aleijão social, os costumes não se irrritavam, e um traficante de carne humana passa por tão honrado, o que vergava aos excessos da fadiga e trabalho para ganhar o pão de todos os dias…Durante anos foi o comércio de homens quasi o único que tivemos com o Congo. Se exceptuarmos algumas esteiras vindas de Macuta, e mabellas, com pouco marfim, todo o comércio era alimentado à custa da despopulação do paiz”.
 
Estas são algumas verdades que só um missionário da grandeza de António Barroso seria capaz de escrever. Quando embarcou para Angola, levava consigo informações absolutamente secretas, salvo para um grupo muito restrito que viria a encontrar em S. Salvador do Kongo. Admito até que tivesse de haver uma saudação, por sinais, para se reconhecerem. Mais á frente, abordarei ao de leve esta importantíssima questão. Assim, o missionário Barroso estava de sobremaneira inteirado da complexa vida que ia levar. A sua missão era indiscutivelmente politico-religiosa. Já se tinha inteirado dos preliminares da cultura tradicional Bantu. Como superior das missões no Kongo foi informado do tipo de missionários ingleses que iria encontrar e do sigiloso pacto que iria ter de executar. Como nota interessante repare-se como trata o secretário perpétuo da Sociedade de Geografia por “meu amigo”.
 
“Seja pois, o meu bom amigo o interprete dos nossos sentimentos, perante a benemérita Sociedade, e que ela aceite, como preito de profundo reconhecimento, o humilde trabalho do menos prestimoso dos seus sócios"
Lisboa Março de 1889,
Padre António José de Sousa Barroso
 
Era bispo de Angola e Congo, D. José Sebastião Neto, quando se efectivou a Conferência de Bruxelas (1876) resultante de uma associação da “Associação Internacional Africana” criada por Leopoldo II da Bélgica com aparentes ambições humanitárias para a África central e para as quais convidara quarenta peritos escolhidos pelos seus conhecimentos científicos ou por suas conexões com a alta finança.
 
Este acontecimento de enorme projecção para a África Ocidental, resultou numa mudança de paradigma para as populações da bacia do Zaire. A abertura à navegação e ao comércio de toda a bacia hidrográfica do rio Zaire resultou em benefícios, para uns, e prejuízos para outros. A dita conferência foi o prenúncio de um grave risco para a influência dos portugueses na zona. Que poderia fazer a diplomacia portuguesa perante acontecimentos de tal magnitude? Quem iria defender os interesses de Portugal no reino do Kongo? D. José Neto diria mais tarde (chegou a ser cardeal patriarca português) acerca da da personagem escolhida, António José de Sousa Barroso: “ (…) prudente e inteligente, daria um excelente bispo.”. Embarcou então, em Agosto de 1880, para Angola, o Bispo de Angola e Congo, acompanhado dos missionários, António Barroso, Sebastião José Pereira e Joaquim Folga, assim como o capitão Barreto Mena e o guarda marinha Mota e Sousa.
 
  RM2524 560
 
  Sentado à esquerda o missionário Barroso, à sua direita o missionário José Pereira, e em pé dois filhos e um sobrinho do Rei do Kongo.
 
Quem alguma vez, acompanhou e conviveu com missionários religiosos portugueses, ingleses, suíços, franceses, espanhóis, entre outros, tem consciência de que a esmagadora maioria estava pronta a dedicar-se à causa espiritual, e não só. O que teria levado, (um grupo restrito) para tão longe de suas terras, fazia parte do processo político-religioso que os conduziria, mais tarde, a interferirem também politicamente, aquando do processo das independências das antigas colónias portuguesas (1961/1974).
 
Essa “missão” envolveu e arrastou o processo religioso, deteriorando os ideais morais e éticos de alguns desses “degredados” voluntários
.
Devemos ser objectivos, as missões católicas portuguesas em Angola, (as que conheço), não tinham, mas já têm, os recursos materiais e humanos, como por exemplo, têm as missões inglesas, americanas, canadianas, francesas alemãs ou suíças, etc. Diga-se o que se disser, os missionários iam pelo mato fora, como se estivessem a espiar algum crime, iam e continuam a ir, muitos por caridade. Os tempos são outros, as estradas estão feitas (embora agora, parte delas com as pontes destruídas), os novos e cómodos veículos de tracção às quatro rodas existem em todas as missões religiosas. Já não estamos no tempo das “Sandálias do Pescador”, todavia ainda se registam casos isolados de completa abnegação. No que se refere à saúde, o quinino e toda a panóplia de drogas de medicação preventiva, contra febres palustres, diarreias, gripes, tuberculose, varíola, sarna, piolhos, carraças, entre outras doenças, existem nos dispensários da mais modesta das casas dos missionários.
 
Com este olhar podemos ajuizar e respeitar figuras como as dos missionários Weeks, Alfredo Keiling, Grenfell, Bentley, António Barroso, Sebastião José Pereira e Joaquim Folga já citados, para só mencionar meia dúzia de centenas de tantos outros merecedores do nosso respeito. E isto só para o espaço geográfico do reino do Kongo. Nesta lista, deviam estar incluídos os missionários mestiços e negros, mas esses, estavam já física e mentalmente miscigenados e portanto mais preparados, porém, estavam sujeitos a outro tipo de vicissitudes afectas ao seu sincretismo religioso.
 
Não se julgue que eram “lançados” para as missões do interior com conhecimentos que lhes permitisse enfrentar a realidade de uma cultura e mentalidade completamente diferente da sua. Pelo menos é a impressão que nos deixou o missionário Barroso33:
 
“(…) Governava a provincia o exmo. conselheiro Eleutério Dantas, caracter nobre, alma de boa tempera, mas que conhecia tanto do sertão tanto como o sr. Bispo, como eu, e como os meus companheiros. D’aqui uma pessima organização da expedição que devia levar ao rei do Congo os presentes que lhe enviava sua Majestade El-Rei de Portugal (…).”
 
  
 
  Instalações da Missão Católica Banza Kongo, 1896 (foto do acervo do autor)
 
Todavia, algumas informações indiciam que não iam tão às escuras sobre o que os esperava, uma vez que Amadeu Cunha informa, ter sido o missionário Barroso preparado para ir missionar na Índia, encetando mesmo o estudo da língua ‘concani’. Indica-nos também que, embarcaram para Luanda em Agosto de 1880, tendo só iniciado a viagem, na canhoeira Bengo, da marinha real, rumo a Banza Kongo, a 20 de Janeiro de 1881. Este compasso de espera, em Luanda, pode muito bem ter feito parte da adaptação física e da preparação de noções úteis sobre a sua missão. Senão como compreender o seguinte:
 
“ (…) Eu tive de vencer uma grande difficuldade em Luanda para per-suadir que deviamos subir o rio Zaire até o Mussuco ou Noki e que d’este ponto deviamos partir para a velha capital do Congo. Este itinerario tinha sobre o do Ambriz duas vantagens: a primeira era ser mais curto o trajecto a fazer a pé e conhecermos essa região de Noki na margem esquerda do Zaire a S. Salvador; a segunda era evitarmos os povos que tinham sofrido com as nossas últimas campanhas do Bembe, e que de modo algum nos receberiam como bons amigos (…).”
 
Os espaços de tempo que mediavam entre as expedições no terreno e a substituição de novos grupos de expedicionários, quebravam os laços de possíveis de passagem de testemunho o que explica a falta de informações, quando se encetava uma nova expedição. Ninguém sabia nada do que se passava a norte do Ambriz.
 
Os missionários dos finais do século XIX em nada se assemelhavam aos que os tinham antecedido, em séculos anteriores. Já faziam parte das suas equipas e bagagem, técnicos com diferentes aptidões e aparelhos técnico científicos muito eficazes apesar das enormes restrições a que eram sujeitas as expedições portuguesas. Da sua bagagem já fazia parte a técnica do diário de campo. Foi utilizado pelo padre Barroso e também nos relatórios do Residente Faria Leal. Ali registavam, cada um à sua maneira, a base de dados, como por exemplo, os acidentes de terreno mais significativos, os cursos de água, o tipo de vegetação, as culturas de géneros alimentícios, a fecunda arachis hpagaea, ou seja, o nosso amendoim que os kongo conhecem por nguva ou nguba, referindo o missionário que a colheita foi excepcional nos anos de 1879/80. Este cuidado em assinalar dados tão significativos, permite, desde já, avaliar os seus propósitos de colonização efectiva, como por exemplo, o pormenor do registo de António Barroso das principais chuvas ocorridas em 1884. Principiaram a 4 de Setembro e terminaram a 4 de Junho e, em 1885, também começaram curiosamente a 4 de Setembro e terminaram a 14 de Maio, registando-se ainda, no ano de 1886, as primeiras chuvas a 20 de Setembro e as últimas a 21 de Maio seguinte, sabendo-se que esta regularidade se repete todos os anos. Por exemplo, em 1883, o pluviómetro do posto da missão, captou em menos de uma hora 197 milímetros cúbicos de água. As observações meteorológicas registaram também a direcção dos ventos soprando quase constantemente de W. para NW. Nos meses de Julho e Agosto quem vive em S. Salvador necessita de agasalho, chegando as temperaturas aos 10 graus.
 
As transacções do comércio de escravos e do marfim bem como depois, da borracha, tinham sempre de permeio o célebre Linguister frequentemente originário do sub grupo zombo. A esmagadora maioria destes funantes “pré comerciantes do mato” eram os língua dos portugueses). Diz-nos Barroso, nos seus relatórios, que estes chegavam a ficar com cerca de 30% dos lucros, embora tivessem as suas despesas, por exemplo, em espingardas, aguardente e tecidos. As informações de Barroso sobre os célebres línguas (intermediários fundamentais nas relações comerciais) continua:
 
 
 
  Casa rica de Comerciante do Mato, venda de marfim e borracha, 1910
 
“(…) algumas vezes ficam litteralmente depennados pela astucia do linguister, é levado tão longe no Congo, que um qualquer estranho para vender um cabrito ou uma gallinha, chama ou se lhe offerece um d’estes interpretes, o qual tem logo o cuidado de prevenir o europeu, em segredo, da conta que deve fixar para elle “comer”; é textual. (…) Os generos coloniaes que affluem a S. Salvador são o marfim e a borracha, com algum café vindo do Bembe. Os dois artigos primeiro mencionados, sáem da região vizinha do Stanley-pool e mais ainda da região a E., comprehendida entre as bacias do Quango e Cassai, e às vezes de mais longe. Em geral os mexicongos não vão commerciar a estas regiões; os azombo, raça eminentemente traficante, servem-lhes de intermedio. O indigena do Congo em geral, ou compra a borracha aos capos, nas grandes quitandas (mercados) do Zombo, ou entrega as suas fazendas aos Zombo para que lh’as vão permutar ao Pumbo (região da Takula) á Jaka, e outros sertões situados ao N. e NE. Os indigenas d’estas regiões têem pronunciada tendencia para o negocio; é talvez esta a sua feição característica.

A Industria é quasi nula; a agricultura só digna de mulheres. Demais o preto em geral ama as viagens; portanto, a procura de productos favorece as suas tendencias nomadas, que accusam uma épocha recente de fixação territorial (…)”.
 
Paradoxalmente, a segurança que as autoridades portuguesas, belgas e francesas passaram a oferecer, foram factor decisivo para a tal fixação territorial.
 
As feitorias comerciais, pela introdução das quais, o missionário Barroso foi promotor, tiveram, por seu lado, grande importância na fixação das populações, que até aí estavam disseminadas em aglomerações insignificantes. Este factor prende-se com a tendência das linhagens a fragmentarem-se, constituindo novas aldeias, permitindo a emergência de novos chefes que, de imediato, se tornam possuidores de alguns escravos e mulheres, passando a intitular-se mfumu a vata39. Estes dados são particularmente significativos sendo de realçar a forma secular de compra de oleaginosas “a copo”, recentemente (anos 40 a 70 do século XX) passaram-se a utilizar as latas de azeitona de um litro, tendo passado (devido à carestia dos produtos), por entre outras, à lata da Coca-Cola.
 
Um pequeno esclarecimento para a designação de “Companhia Portuguesa” é que em 1881 (data do inicio da estada do missionário Barroso), o reino do Kongo (actual aérea da província do Uije) não era considerada como parte integrante de Angola.
 
 
 
  A casa da Companhia Portuguesa, entregue às missionárias Portuguesas.
 
A sua decisão da fixação de feitorias, em Banza Kongo, permitiu a instalação, em 1882, da Casa de M. Daumas Berout & Cia. de Paris, seguida da de João Luís da Rosa, em 1883, e logo no ano seguinte da forte Companhia de Roterdão, vulgarmente conhecida por Casa Holandesa, que se manteve, em Luanda, até ao final da colonização. Por exemplo, a média anual de permuta do marfim naquela época atingiu seis toneladas e a borracha excedeu as trinta. Estes produtos vinham (como diz acima Barroso, pela mão dos zombo) da região de Stanley Pool e, às vezes, de mais longe, para serem posteriormente reenviados para os portos de embarque em caravanas de 4 a 5.000 carregadores, a quem era pago o valor de 9 000$000 reis em mercadorias. Na Europa, estes produtos atingem valores da ordem dos 50 000$000 reis.
 
 
  Fotografia do percurso Noki, S. Salvador das Irmãs, 1908
 
Quanto à posição social das pessoas (diz Barroso) existiam três classes de pessoas: as livres e de origem livre, a quem se não conhecia ascendente escravo; homens livres, porque compraram a liberdade e, finalmente, os escravos. Dos primeiros, faziam parte as linhagens, seus ascendentes directos, bem como filhos e sobrinhos. Alguns não tinham nada de seu, “ mas não sujavam as mãos,” a não ser para prestar um serviço ao Ntotila. Pouco ou nada faziam de prestimoso pela vida. Seguiam-se-lhe os que receberam
alforria, os chamados burgueses indígenas atingindo postos de relevante importância na guerra.
Também por isso eram abastados, podendo avaliar-se a sua riqueza pela quantidade de escravos e mulheres que detinham. Finalmente, vinha a classe dos escravos que era bem numerosa e, muitas vezes, um indivíduo era escravo em relação a quem o comprou ou herdou e, por sua vez, senhor de outros indivíduos que ele comprou por seu turno. Estes indivíduos entravam na família e as mulheres do seu senhor forneciam-lhe alimentação e, em geral, o escravo também podia casar e, nessa circunstância, era o próprio amo que se incumbia de lhe arranjar companheira, seguindo os filhos a condição da mãe.
 
Uma última palavra para o elemento feminino na educação da mulher indígena. Por mais zelo que o missionário empregue na educação da preta nunca conseguirá o que consegue uma irmã educadora.
 
 
 
  Fotografia, 1908, do acervo do autor, cedida pela família F. Leal

 
Após estas palavras do missionário Barroso, passaram-se vinte anos, a 13 de Julho de 1908 chegaram a S. Salvador as Missionárias de Maria a quem o governo tem subsidiado e que têm tomado a seu cargo a educação de muitas raparigas, algumas das quais já casaram com alunos da missão.
 
Os nomes que tomaram na ordem as seis missionárias são os seguintes: Maria da Visitação, portuguesa, superiora da missão; Maria da Encarnação, portuguesa, professora das alunas; Maria Júlia, portuguesa; Maria das Cinco Chagas, espanhola; Maria Fimbar irlandesa; Maria Sainte Lhecle, francesa. A última faleceu em 24 de Novembro de 1910, de haemoglubinuria anurica. Com excepção da superiora e da irlandesa as outras três eram raparigas novas.
 
Quanto não ganharia o catolicismo se em vez de obrigar homens e mulheres a uma luta improdutiva contra a natureza seguisse o exemplo dos protestantes terminando com o celibato dos padres e com as irmãs professas.
 
Tudo isto e muito mais fazia parte do Presente e do Futuro do qual o padre António Barroso estava incumbido de preservar para dignificar a missão multi secular da igreja católica portuguesa em terras do Kongo.
 

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