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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


O lento despertar do Uíge .

Publicado por Nkemo Sabay activado 4 Noviembre 2010, 14:37pm

Etiquetas: #Notícias do Uíge

Por Luís Fernando.

 

Foi uma visita verdadeiramente marcante. Fernando da Piedade Dias dos Santos, o Vice Presidente da República, ficou dois dias da passada semana na província do Uíge, para tomar-lhe a pulsação; medir o engajamento de políticos, governantes e população nos desafios deste tempo mas, acima de tudo, para tentar lançar uma força contrária à letargia que parece tolher a marcha da região.

O trabalho do principal coadjutor do Chefe de Executivo abarcou os dias 21 e 22 de Outubro, quarta e quintafeiras da última semana, e hoje, mais de uma semana depois, vive-se o clima de rescaldo próprio dos grandes tornados, que precisam ver a poeira assentar.

E o que se tem como verdade transversal no Uíge e no seio dos seus filhos, continuem estes radicados no território natal ou andem dispersos pela diáspora, é a de que o Vice Presidente foi à província lançar a pedrada no charco, lembrar a todos que aquela é uma terra com um potencial de dimensão extraordinária que não tem porquê continuar na cauda do progresso.

A região é bem a estampa das assimetrias regionais de que tanto se fala entre nós, as diferenças de ritmos entre o litoral e o interior, mas deve também queixar-se dos seus próprios traumas e empecilhos endógenos, que lhe enfraquecem o caminho do desenvolvimento não necessariamente por alegada ausência de apoios centrais.

 

“A província tem muitas potencialidades que estão adormecidas. Temos de acordá-las e colocar a província no lugar que merece”.

Estas palavras disse-as Fernando da Piedade Dias dos Santos no dia em que desembarcou no Uíge e depois que iniciou o seu ciclo de consultas, a auscultação da realidade, as conversas com quem no terreno gere o quotidiano.

Terão sido, sem sombra de dúvidas, as mais expressivas de toda a missão, por servirem na perfeição como resumo de um tempo que não admite evasivas. A região atrasou-se muito na sua marcha em direcção ao desenvolvimento, exibindo indicadores que não transmitem conforto. Daí o apelo, de novo, do Vice Presidente: “agora que estamos em paz, temos de fazer esta província acordar e crescer, apelando à colaboração de todos”.

E a expressão “colaboração de todos”assume, no caso, um peso específico que não terá se calhar noutros pontos do país, por desenvolver o Uíge a sua própria cartilha na interpretação de conceitos como trabalho de equipa, solidariedade institucional, união. Na verdade, muito do descompasso que a terra mostra, resulta da (quase) endémica dificuldade que os quadros da governação têm de lidar com os colegas, perdendo-se no lusco-fusco das diferenças de tribo, regionais e até raciais.

Não é segredo para ninguém – sabe-se isso tanto ao nível da cúpula do poder executivo como no recato dos gabinetes da formação partidária que superintende aquele – a persistente frisson que anda incrustada nos departamentos por onde deveria fluir a onda do exercício de governação local, acontecendo, amiúde, experiências surreais de chefes não dirigirem a palavra aos seus subordinados directos e outros colaboradores, por questiúnculas que têm como base, sempre, a ridícula falta de sincronia de tribo, de região ou de pigmentação da pele.

 

Ironia ou não, o certo é que o acordo que trouxe para Angola a paz em 1994 (entretanto desfeita, pelas razões que todos recordam), colocou o Uíge numa situação de relativo embaraço, com o facto de a governação da província ter sido confiada à UNITA e isso ter obrigado a desdobramentos estratégicos de contingência por parte do Governo central.

 

Sendo governador provincial António Bento Cangulo, o quadro indigitado pela UNITA para prover o cargo que lhe competia nos termos do armistício de Lusaka, depois de a primeira parte do mandato ter sido exercida por Lázaro Xixima Teta, de igual filiação partidária, o Poder Central em Luanda criou para aquela parcela do território nacional uma espécie de “governo sombra”, o Gabinete Técnico de Gestão de Investimentos Públicos, coordenado por Abraão Gourgel, à época também vice ministro da Indústria. Era a este Gabinete que estavam atribuídas, na prática, as verdadeiras acções viradas para a reconstrução da província e à edificação de toda a panóplia de infra-estruturas úteis ao progresso, desde escolas a centros médicos, hospitais, estações de captação e tratamento de água, entre outros.

Abraão Gourgel, pela natureza e filosofia do corpo “ad-hoc” que dirigia, não tinha qualquer vínculo formal com a liderança local, sendo que reportava directamente a Luanda.

 

Alcançada a paz em 2002 e estando em marcha uma grande quantidade de obras a cargo do Gabinete Técnico, o trabalho teve de prosseguir e agora num quadro absolutamente atípico: o governador pertencia (pertence) às fileiras do MPLA. A nova experiência começou com Mawete João Baptista, nomeado no pós-vitória eleitoral de Setembro de 2008, e continuou com Paulo Pombolo, o actual governador que substituiu o veterano diplomata depois que aquele foi transferido para Cabinda.

 

Estranhamente, o modus operandi do Gabinete Técnico de Gestão de Investimentos Públicos permaneceu imutável e estoirou uma guerra surda entre o governador (primeiro um e depois o outro) e aquela estrutura que, se obedecia a um estratagema imponderável nos tempos do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN), não fazia agora sentido que se colocasse em contra-mão da marcha do poder local.

 

Os muitos episódios a revelarem a gritante falta de sincronia entre os dois poderes, sempre geridos com o desconforto que subentendem os conflitos silenciosos, fizeram lembrar em muito a quem acompanhava o problema de fora, os casos de “fogo amigo” das guerras com grande concentração de meios, onde o Iraque e o Afeganistão, nas campanhas aliadas da NATO, são um exemplo notável.

 

O que o Gabinete Técnico fazia era sabido em Luanda mas nunca no Uíge, a não ser nas situações quase improváveis mas reais em que comitivas do governo local em trabalho de campo nalgum município ou aldeia recôndita, descobriam ao acaso uma escola ou um hospital em obras, de que não tinham qualquer conhecimento prévio.

 

À pergunta quem a estava a edificar, o soba ou o administrador municipal, quase sem perceber, lá respondia encabulado: “é o Gabinete Técnico”.

 

Num ambiente assim, não foram poucas as vezes em que os critérios para se construir uma escola, um posto de saúde ou um fontenário, obedeceram a razões muito difíceis de entender pelo Governo provincial, confundindo-se prioridades com escolhas quase aleatórias. Todo este clima nebuloso, difícil de gerir, encontrou um ponto final nesta visita, quando o Vice Presidente da República anunciou que o funcionamento do Gabinete Técnico de Gestão de Investimentos Públicos passa a ser, doravante, responsabilidade do Governo Provincial. Como se vê, razões para o Uíge andar descompassado eram (são) mais do que muitas!

Saudades do girabola

A visita do Vice Presidente da República do Uíge será lembrada também pelo clima de nostalgia que destapou, ao evocar os anos em que aquela terra se desempenhava como uma espécie de viveiro do bom futebol.

Fernando da Piedade Dias dos Santos deu de si uma imagem notável de um homem do desporto. Mencionou, de memória, nomes como Arménio, Vicy, Grupo Desportivo MCH, Futebol Clube do Uíge, Milunga… E mais do que lembrar o passado glorioso, o governante pediu trabalho e acção a quem está ligado ao futebol no Uíge: lutem para recolocar alguma equipa no Campeonato Nacional da I Divisão! De facto, até parece um pesadelo uma terra que deu Vicy, Lutandila, José Raimundo, Cananito Alexandre, Mário, Johnson, Arménio, Lito, que travou o ímpeto de gigantes como o 1º de Agosto, Progresso, Leões de Luanda, TAAG, Petro, nas idas ao Estádio Municipal 4 de Janeiro, hoje viva apenas de esparsas memórias resumidas em pedaços de jornais colados em velhos albergues. Há mesmo muito para despertar na terra que fez o esplendor de Angola naquele passado sem petróleo e sem diamantes!

 

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