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Portal da Damba e da História do Kongo

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O Fim da Picada “Bula Matadi”

Publicado por Muana Damba activado 10 Febrero 2014, 00:20am

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 

 

Por Dr. José Carlos de Oliveira


 

Jose Carlos de Oliveira l


 

Este Termo Bula Matadi, ou sejam os parte pedras, foi aplicado especialmente aos belgas, aquando da construção das linhas férreas dos novos troços de estradas que permitissem a passagem das primeiras camionetas de transporte de mercadorias e pessoal. Foi um tempo de extermínio do pessoal nativo contratado para a construção destas infra estruturas. Pessoalmente conheci o processo do trabalho compelido (contrato) agregado à cultura do café no Norte de Angola. Nos anos 50/60 do século passado Angola chegou a ser o 3º produtor mundial de café, houve razões políticas, lideradas pelos EUA, para que tal acontecesse, conheço relativamente bem o assunto. Foi o principal motivo político das reivindicações dos partidos nacionalistas angolanos para o início da luta armada. Porém, o tempo da abertura das primeiras rodovias foi muito mais penoso para as populações obrigadas ao trabalho da sua construção.


 

 

Depois de ter lido atentamente os documentos de que pude dispor, fica-me uma quase certeza. O epíteto laudatório “O homem que endireita a terra” tanto quanto os meus 55 anos de vivência entre os Kongo (incluindo a diáspora) me permitem ajuizar, só pode vir da admiração que os povos tinham pela certeza como Faria Leal ia direito aos povos sem precisar de guia; como é que ele sabia endireitar os paus e cordas dum lado e outro das pontes, como é que ele sabia contornar um morro íngreme para continuar a estrada do lado de lá. Isso só podia ser feitiço, sim porque “aquele relógio pequeno que tinha só um ponteiro” não podia dizer onde esteva determinado povo. Será que Faria Leal usava o teodolito? Se assim fosse, eles vê-lo-iam espreitar pelo aparelho e o feitiço seria maior. E se para além disso utilizasse o distanciómetro? Os aparelhos não interessavam nada, O Nfumu (“Capitão” que efectivamente mais manda) Faria Leal escrevia num livro, fazia sinais, chamava os antepassados e eles informavam-no onde ficava o rio, onde ficava a banza. Os n´nanga ngombo descobridores kongo de feitiços informavam os povos do poder de Faria Leal. Quem teria instruído o Residente nesse sentido? Acredito que o relacionamento dele com a missão baptista, teria a ver com o seu sucesso nesta metodologia para a abertura de estradas e não só.


Pode ser que a esmagadora maioria dos leitores sorriam benevolamente desta minha versão. Garanto que Faria Leal e muitos dos competentes administrativos ao tarimbarem em Angola tinham respeito pelas crenças dos povos à sua responsabilidade. Haveria naturalmente funcionários com responsabilidade no processo de angariamento de trabalhadores e carregadores, para quem estes condicionalismos culturais não diziam e continuam a nada dizer. Quantas vezes viram estas brigadas de pessoal (muitas mulheres) a tapar buracos e endireitar as veredas das estradas? Quantas vezes passaram pelo responsável kongo da brigada e ele descobriu a cabeça em sinal de respeito. Dirão que era a época da colonização. Desculpem, quando adolescente, andei de povo em povo a caçar pássaros, e mais tarde atrás de caça grossa, ainda sei: quem se dá ao respeito, recebe respeito.


O fim desta “picada” que estou a terminar, está, aqui e ali, salpicada com imprecisões e até falhas graves. Muito ficará por dizer, tive que escolher e passar por cima de aspectos importantes. Os mais rigorosos que me perdoem, terão ocasião de transformar a nossa “picada” em estrada calcetada. Quando comecei este artigo não tinha ilusões, em alguns aspectos não seria suficientemente claro. Não sei fazer melhor. Não vivi no tempo do general José Heliodoro de Corte Real de Faria Leal, mas duma coisa estou certo, não precisei de imaginar, de extrapolar, vivi com gente que o conheceu, especialmente sobas dos caminhos de Maquela do Zombo. Os responsáveis dos povos começavam a perceber que algo de muito importante para a sua maneira de viver estava a principiar a acontecer, teriam de rever o velho paradigma de que eram portadores, teriam de dissimular as suas cerimónias propiciatórias “à conversa com os seus antepassados”, utilizariam em algumas circunstâncias o ranger dos dentes, sinal de “ está bem, finjo que está tudo bem, mas não esqueço”…


A carta que Faria Leal gizou da sua expedição ao Cuilo, para instalar na fronteira um posto português é relevante para os povos da zona. O que é importantíssimo é o facto dele ter assinalado todos os condicionalismos físicos e humanos da zona. Muito beneficiarão deste documento os estudiosos Kongo, especialmente os historiadores e sociólogos. Recordarão alguns dos seus antepassados notáveis através dos nomes das povoações, terão oportunidade de acrescentar valiosíssimos dados para a simbologia da sua toponímia.


Os Bakongo não são, nem foram tão pacíficos como Faria leal fez crer, senão para que levaria consigo, em alguns casos e conflito uma metralhadora e uma peça de artilharia? Os Bakongo que com ele conviveram, uns tinham-lhe respeito, outros tinham medo dele, (estou convencido), e este medo vêm do conceito de Buta, o homem Grande de uma determinada área desde a Banza até ao sub grupo étnico e deste à etnia.


Para eles, Faria Leal não era um simples soba, (pai do Povo) era não só um Mfumu a vata ele era sim o Buta. Para os Kongo ele era muito mais que um filho legítimo do rei de Portugal, ainda hoje para os povos do interior da África Negra, o título de presidente da república, é simplesmente um título laudatório de rei, e se assim não for o rei não tem poder, não presta para fazer justiça, a sua palavra não será o ponto final de qualquer discussão, desde um problema de adultério, às questões de propriedade, passando pelas discussões da pirâmide de nobres acerca dos seus títulos, tanto nobiliárquicos como guerreiros tudo tem de ser pormenorizadamente discutido com o seu rei. Será mais ou menos a ideia que temos dum presidente da república tipo paternalista, e aquele que assim proceder não tem força de grande juiz, logo não pode ser rei. Provavelmente a ideia que temos do rei Salomão de Israel, servirá de modelo.


Não sei se os leitores estarão recordados daqueles dois nobres que foram pedir ao rei do kongo que lhes dissesse qual deles tinha mais relevância que o outro, levando cada um deles cerca de duzentas testemunhas…Em 1902 os Ndembu Gombe á Miquiama dos lados do encoje e Quibaxe Quiamubemba do Alto Dande, acompanhado cada um de 200 homens vieram perante o rei para que ele decidisse sobre os seus direitos de primazia hierárquica. “Ambos se diziam descendentes dos filhos dos reis do Congo28.


 

 

 

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