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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


O Evangelho de Dom Francisco

Publicado por Muana Damba activado 17 Mayo 2012, 11:07am

Etiquetas: #Religião

 

Por Luís Fernando (*)


Luís Fernando

 

 

Quando em Abril de 2008, já lá vão quatro anos, o então bispo em exercício da Diocese do Uíge chegava ao limite do seu tempo de missão, a pergunta que todos colocaram foi: ficará com as gentes que evangelizou ou regressa ao sossego da sua aldeola em Portugal? Foi uma dúvida que o próprio Dom Francisco da Mata Mourisca não permitiu que se cristalizasse, tratando logo de anunciar, com pompa e sem surpresa, que era entre a sua gente, no Uíge que o adoptou, que queria passar o tempo que Deus, o Senhor de todos os desígnios, lhe reserva ainda.


E assim aconteceu. Desfez-se das responsabilidades de gestão quotidiana, sucedendo-o nessa missão Dom Emílio Sumbelelo, mas continuou a ser a grande alma inspiradora dos católicos espalhados um pouco pelo Norte de Angola, com incidência particular, claro está, para os que se concentram na região do Uíge.


Transformou-se no bispo emérito da Diocese, manteve-se o mesmo pastor de almas ao serviço do Senhor, continuando a sua aura a acompanhar todos os que cresceram, de algum modo, à sombra do seu longo percurso evangelizador.


Esta segunda-feira, 30 de Abril, Dom Francisco da Mata Mourisca completou 45 anos de bispado em terras do Uíge. O povo de Deus juntou-se em bloco cerrado na grande homenagem ao mais luminoso sacerdote alguma vez enviado pela Igreja Católica àquela região nortenha. De todas as partes da vasta geografia uigense, 16 municípios no total, viajaram até à capital da província milhares de pessoas, para uma missa, no domingo de véspera, que tornou minúscula a igreja da Sé Catedral.


O próprio bispo homenageado oficiou a missa, para imensa satisfação dos fiéis, eles que têm na oratória de Dom Francisco da Mata Mourisca um atributo excelso para fortalecimento da sua crença. Ouviram-no referirse à sua condição de modesto pastor do Senhor, que mais não faz do que a vontade Dele, ajudando apenas a que prevaleça a harmonia e o amor entre os homens. No fundo, as mesmas ideias, os mesmos valores e princípios que disseminou desde o primeiro dia da sua presença em terras uigenses, que se refaziam, à época, do que se julgavam ser os estertores de um terrunho dominado pelo ódio racial.


Com efeito, não foi fácil a missão do bispo enviado ao Uíge pela Santa Igreja Católica apenas seis anos depois dos sangrentos acontecimentos de Março de 1961 e todos os outros que se lhes seguiram, como materialização dramática da resposta salazarista à acção da UPA no Norte de Angola. Eram tempos de absoluto desassossego aqueles, inquinados, quase sem lugar para a coabitação entre iguais perante Deus.


Dois campos se tinham perigosamente aberto, de um lado os nativos arregimentados pelo ideário de libertação; do outro, a colónia de portugueses com o sonho da expansão e do enriquecimento num território apetecível e que os ventos do ex-Congo Belga de Kasavubu, Tshombé e Patrice Lumumba sacudiam perigosamente.


Num ambiente assim, de ódios latentes e vinganças mal reprimidas, desenvolveu o bispo enviado da Diocese de Coimbra o seu trabalho, nos primeiros anos, uma sina que lhe viria a perseguir por longo tempo, quando os conflitos fratricidas do pós-Independência fizeram do Uíge, novamente, um campo de devastadoras malquerenças e matanças horrendas. Dom Francisco da Mata Mourisca transformou-se, então, numa espécie de “última esperança”, a reserva moral independente que em incontáveis ocasiões significou a chave decisiva entre a morte e a vida. Centenas de filhos do Uíge, intelectuais e políticos maiormente, devem-lhe a vida, pois teve a coragem de enfrentar os algozes no minuto crítico quando a sentença de morte parecia impossível de reverter.


O reconhecimento profundo que os uigenses lhe têm deriva da sua longa acção de evangelização mas, também, do facto de ter estado o tempo todo ao lado dos desprotegidos e humilhados, perante a brutalidade atroz dos homens em armas. Poderia ter abandonado a Casa Diocesana para resguardar-se em Luanda, como milhares o fizeram ante a ameaça da intolerância avassaladora.


Não foi esse, porém, o caminho que seguiu, arriscando tudo, a vida inclusive.

 

Permaneceu sempre na sua diocese, com uns e outros dialogou, por todos eles pediu bênção e piedade, visão luminosa e capacidade de perdão.


Paulo Pombolo, o governador da província, fez por isso questão de ir à missa de homenagem para dizer, de sua consciência, o quanto a população do Uíge estima o seu bispo emérito e lhe é eternamente grata.


 

                                                    Nascido para servir o Uíge.


dom_francisco.jpg              Dom Francisco de Mata Morisca entre os crentes do Uíge (foto de capuchinhos.org)


Dom Francisco de Mata Mourisca, também chamado José Moreira dos Santos (nome civil), nasceu a 12 de Outubro de 1928, na então freguesia de Mata Mourisca (donde lhe vem o nome), Diocese de Coimbra, Portugal. Filho de Francisco dos Santos e de Deolinda de Jesus Moreira.


Foi ordenado Sacerdote no Porto, a 20 de Janeiro de 1952, na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos.


Formou-se, em Teologia, na Universidade de Salamanca, Espanha, em 1957. Exerceu vários cargos de responsabilidade, entre os quais o de Ministro Provincial dos Capuchinhos em Portugal.


Nomeado Bispo do Uíje, por Papa Paulo VI, a 14 de Março de 1967, foi ordenado Bispo, a 30 de Abril de 1967, no Porto, como primeiro Bispo da Diocese do Uíje, aonde entrou a 30 de Julho do mesmo ano. Acumulou por algum tempo os cargos de Bispo de Carmona e de Mbanza Kongo, até à criação da actual Diocese de Mbanza Kongo.


Padres ordenados por Dom Francisco e que chegaram ao episcopado: Dom Afonso Nteka, 1º Bispo de Mbanza Kongo; Dom Almeida Kanda, Bispo de Ndalatando. Como membro da CEAST (Conferência Episcopal de Angola e São Tomé), exerceu o cargo de Secretário-Geral e Presidente do Movimento PRO PACE, em cujas funções organizou os dois Congressos Nacionais PRO PACE.


Esteve no governo da Diocese durante 41 anos (1967-2008). Até ao momento, é o Bispo Emérito da CEAST que fez mais tempo no episcopado. Foi substituído por Dom Emílio Sumbelelo, como Bispo do Uíje, desde 2008.


Ainda como membro da CEAST exerce actualmente o cargo de Presidente da Comissão Episcopal para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso.


É autor de vasta obra literária e doutrinal: África Renascida; Amor por Angola; O Escândalo da Justiça; Protagonistas do 3º Milénio; Lágrimas e Sombras: recordação de Angola; só para citar algumas.

 

(*) Director do Jornal "O Pais"

 

 

                                                                                                           opais.net

 


 

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