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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


O drama de Miguel Kiankaki

Publicado por Muana Damba activado 7 Julio 2012, 03:17am

Etiquetas: #Coisas e gentes da Damba

 

 

Por Sebastião Kupessa

 

 

Miguel Kiankanki

                                                    Miguel Kiankaki  em 1946

 

Ter relações sexuais antes do casamento, o adultério ou tudo que está relacionado com a moralidade, com a evolução de mentalidades, está banalizado no mundo de hoje. O que chamamos evolução, na realidade constitui, a decadência da nossa sociedade, da nossa cultura sem identidade, talvêz, da nossa própria vida, como africanos. Mas num passado recente, a nossa sociedade, não era assim. Havia leis que  regia as comunidades, que lhe permetia viver com dignidade. A sexualidade, como único meio pró creativo, era sagrado. Homens e mulheres, quando atingem a adolescência, eram preparados para a vida adulta. Haviam, em lugares apropriados, escolas que preparavam os jovens para afrentar as realidades de vida , estas escolas chamavam-se Longo ou Kumbi.

 

Longo era escola para os rapazes, onde se praticava a circuncisão, para além disto, aprendiam como ter relações sexuais, construir uma cubata, trabalhar na floresta (nsola), caçar animais, fazer armadilhas ( ntambu), pescar, etc. Concluindo a formação, os jovens eram considerados como adultos. 

 

Kumbi era a designação da escola que formava as raparigas, ao contrário de homens, as mulheres na sociedade Kongo não eram circuncizadas, mas aprendiam os princípios elementar da vida, como laborar uma Kiana ou mpatu (lavra), cuidar de uma criança recém-nascida, etc.

 

As autoridades colonial combateram essas escolas, até conseguir o seu desaparecimento total nos anos 50. Porque a existência das escolas e hospitais modernos, tornaram estas instituições tradicionais inúteis! O Dr Morais Martins que foi um dos administradores que combateu o longo e o Kumbi, afirmou aqui no nosso portal, que, o soba Kiala Kya Zinga, da aldeia Kimayala, no caminho para Mukaba, perto de Missão Demba, apesar da interdição, continuava com estas práticas, às escondidas!

 

Depois da formação, os jovens não podiam fazer amor antes do casamento. Os que eram apanhados em flagrante, a punição era exemplar. Se uma rapariga, depois do casamento, não apresentar sinais de virgindade, a multa era considerável, é por isto, as Tata Nkento ( tias paternas) eram particularmente vigilantes com as raparigas. A sociedade Kongo não tolerava o amor antes do casamento.

 

   12x8-a                                    A identidade de Miguel Kiankaki como militar português                                             

 

É o caso de Josefina Malevo, em 1946. Depois de terminar o Kumbi, jovem bonita de Sala Mbongi, irmã do notável João Misele ( falecido em 1975 ), chefe da linhagem Kimwanza Mbunga, um kanda prestigioso da Damba. É famosa pela sua beleza, os jovens de aldeia sob interdição de comer o fruto defendido, não podiam se aproximar dela. Mas um deles, corajoso, ousou, o seu nome Mingiedi Kiankaki. Ele conseguiu o seu coração, começaram o idílio, de maneira oculta, claro! Mas, como um proverbio em kikongo diz: E nkombo vendanga e lowa ku nkoko kaluakanga (1). O casal prematuro foi apanhado comentendo o sacrilégio, a "profanação" da nossa cultura! O que provoca a fúria de João Misele, este chama o seu irmão mais velho, Vita dya Nkaka que, com provas irrefutáveis, convoca urgentemente um Kinzonzi para o julgamento. Verdadeira maka na Sanzala! Mpaka a Binda, especialista da tradição e Juiz do Kinzonzi foi chamado para presidir a sessão de julgamento. Os pais do criminoso, apresentam-se como sendo do kanda Kinlaza, família real do reino do Kongo. Depois de deliberações, o Juiz Mpaka a Binda, decide de acordo com ambos kandas, como sentença final de enviar o Mingiedi Kiankaki  para servir a tropa portuguesa, na Companhia de Indígenas, reputada pela sua crueldade, sobretudo na preparação dos recrutas, em condições extremas.

 

Scan-4.jpg

 

Os respectivos chefes de linhagem clánica, vão apresentar o criminoso à Administração da Damba e será o soldado com matricula 112, e este vai levar também a doravante esposa para a tropa, esta será registada com 113. No documento acima ilustrado, está escrito que foi incorporado voluntàriamente, com profissão aprendiz de carpinteiro e pertencia o primeiro grupo, o que não falava a língua portuguesa. Nasceu em Sala Mbongi, no sobado de Badila! em 1920.

 

Em 1961, acolheu os batalhões de caçadores 88 e 141 vindas da antiga metrópole em luta contra os nacionalistas na Damba, dos quais vai colaborar. Mais tarde será enviado para Cabinda , onde trabalhou no departamento estratégico militar, conhecido como brigadeiro Ngwawu.

 

Em 1975, morre o João Misele, que tinha substituido o Soba Kyala Kya Ntalo como patriarca da linhagem Ki Mwanza Mbunga, na sua aldeia Sala Mbongi, foi a última vêz que Miguel Kiankaki pisou a sua terra natal da Damba.

 

Miguel Kiankaki faleceu em Luanda, em 1997.

 

 

                                                                          Em colaboração com Rio Makwiza

 


 

 

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