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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


História Memória ( da Origem do Reino do Kongo ) 2

Publicado por Muana Damba activado 13 Enero 2014, 06:35am

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

 

Por Patrício Cipriano Mampuya Batsikama


 

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Continuação do anterior: História memória (da Origem do Reino do Kôngo)

 

 

Os longos estudos realizados por Carlos Estermann, consubstanciados em publicação de três volumes,15 sujeitam-se a abordagens mais classificatórias do que analíticas. Os pós-estermannianos, mesmo com as novas amostras, conservam o mesmo padrão classificatório de Estermann. Nos seus dois volumes sobre os Kiakas, Mesquitela Lima seria um dos primeiros pós-estermannianos a cimentar essa postura epistemológica. Eduardo dos Santos, Santos17, também um pós-estermanniano da primeira geração, irá redimensionar as mesmas posturas sob outro prisma, mais interessante ainda, ao estudar os Côkwe. Há tantos outros seguidores desta escola. dores desta escola.18 Os seus resultados consolidam, ao que nos parece, o Mbângala evocado pelos Kôngo como sendo a região daorigem mais remota. origem mais remota. Mais trabalhos de campo são necessários para esclarecer as dúvidas e lacunas prevalecentes, até mesmo dentro destas fontes.

 

A segunda vertente dessas posturas é a dos que localizam a Origem do reino do Kôngo no leste, Origem do reino do Kôngo no leste20 e associa essa hipótese com o modelo político kuba. Esta escola tem como principais promotores autores antigos, entre eles Cadornega, Cavazzi e Jean Van Wing. O próprio Jan Vansina chega a comentar o assunto. Eles defendem que a Origem dos reis do Kôngo está em Kongo di Amulaka, constituida por diversos povos, tais como os Yaka, os Pende, os Suku, etc., que teriam habitado o espaço fronteiriço oriental do antigo reino do Kôngo.


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Já a História-memória das populações do espaço atribuído ao Kôngo por lopez e Pigafetta necessitam de uma releitura, particularmente no que se refere aos seus espaços geográficos. São histórias intimamente ligadas com as histórias-memória das populações que habitaram as regiões fronteiriças do antigo reino do Kôngo, embora revelem também continuidades e descontinuidades, congruências e incongruências, assim como divergências e convergências. Perante estes factos, a História-memória
dessas populações dessas populações24 indica que o epicentro que comporta a ideia de união primordial simbolizada pelo fogo ou pelo calor, ou ainda pelos efeitos colaterais destes últimos, resume-se em termos como Mbângala e Jinga. Mas onde localiza-la?

De acordo com os pressupostos teoréticos da História-memória seria precisamente na região meridional que comporta as subregiões contíguas de Angola, Namibe, botswana e Zâmbia. Toda essa região
chamar-se-ia de KAWÛNDU, chamar-se-ia de KAWÛNDu25, uma expressão que se confunde com o
grande parque de Kaudom na província namibiana da Okavângo. No estudo anterior designávamos Ondjiva/Ndjivi como o epicentro do país das origens. Do ponto de vista geográfico, esta conclusão parece então encerrar uma contradição. No entanto, trata-se de compreendê-los (Ndivi e !Kaudom) como dois pontos divergentes que designam e representam uma e mesma coisa, que é precisamente a origem remota dos Kôngo.

Notemos que há aqui uma peculiaridade: ondjiva e kawûndu nas línguas meridionais significam fonte de água, origem. Considerando o facto de que as capitais políticas eram errantes e móveis, podemos efecti-
vamente estar diante da mesma coisa. O primeiro sentido (fonte de água) condiciona a subsistência sacralizada de mbângala (estação seca, de calores intensas) enquanto o segundo (origem) institucionaliza o calor à volta da fogueira (kyângala). Nesse espaço encontramos as populações quase isoladas de !Kung, San e seus intermediários entre as populações zimbabueanas, como os Kwankala, zimbabueanas, como os Kwankala26, os Hinga e os Handa entre os Ngângela/umbûndu do Sul. Há probabilidade de que os Kaluhêmbe (a linhagem de Ombala, como eles próprios se auto-proclamam), ou os Huvual, Khuhuale ou ainda Kubale (em Kawûndu) sejam – antropologicamente – descendentes dos ‘!Kung e San, de acordo com análises suscitadas em nossas expedições. Essa opinião é partilhada por Duarte Ruy de Carvalho.  Em nossas curtas expedições nas localidades de Oshikângo, Etsînga, Omushakata, Mpûngu ficou patente essa grande unidade populacional não só na língua tsiwâmbu (variante de lyumbûndu, um hibridismo de dialectos diferentes), mas também na memória colectiva que os habitantes dessas regiões partilham. Tomemos como exemplo o uso comum de “Fogueira e Tradição”.

 

Na região que, tal como justificamos, preferimos chamar Kawûndu, Kawûndu30, o “à volta da fogueira” comporta os elementos básicos comuns da História-Memória, isto é língua, rituais e tradição oral. Parece-nos por isto mais produtivo a concentração neste aspecto.  Com efeito, nos primeiros capítulos avançamos a hipótese de que o reino do Kôngo terá começado com !Kung.

Retomamos aqui o tema começando por reproduzir algumas versões (histórico populares) que encontramos em Kawûndu, até nas províncias do Kunene namibiano. Foram-nos transmitidas em
inglês com elevada carga de termos afrikaans, e em otsiwâmbo.

 

Nossa limitação de domínio e até conhecimento desses instrumentos de comunicação não nos permitiu captar correctamente a lógica do texto, nem podemos reproduzir por isso a sua textura para uma análise pariemiológica mais profunda. Mas vamos dá-la agora em versão traduzida, com pequenos comentários críticos.

 

                                                       Versão #1

 

Khuluhulu é [a pessoa] digna de discursar quando o IKO é discretamente aceso. Cada participante marca
a presença e traz com ele três lenhas [uma seca e duas frescas]… ao som de TONKA. (…) As primeiras historietas são adaptadas para as crianças.33 Mais tarde o Tonka voltará a tocar para que se retirem as crianças do Eolo, pois é tempo de interpretação e ensinamento de provérbios verdadeiros [históricos?] por cada Makandala. A terceira vez que toca o Tonka [sineta] apenas ficarão os responsáveis de aldeias [Makandala]. Nunca presenciamos essa fase do encontro. Mas, dizia-nos o nosso avô. fase do encontro. Mas, dizia-nos o nosso avô que cada Makandala apresentava o seu reinado e depois iniciava- se o KONG’SI, a pedra mágica e inquebrável.

 

                                                        Versão #2 

 

(…) Todas as circunscrições eram representadas devidamente e cada uma carregava o Dolo [restos mortais]
dos seus reis [antepassados/mortos]. Ao primeiro sinal do grande batuque, depois das primeiras refeições colectivas, toca-se o Konka. Neste ponto todos os já iniciados devem aparecer. O representante de cada circunscrição fará exibição do seu regulamento e solicitar conselho… O discurso é metafórico, proverbial e quase ininteligível para os novatos… Ao sinal de ONGASI [KONG’SI?] os participantes entregam seus haya, que são presentes ao Eholo.

Ao som de batuque grande, os [Ongai] impuros retiram-se… (e iniciar-se-á a dança sagrada a volta do fogo que já se apagava até a chama elevar-se novamente. Chega assim a hora de Ôhogo, em que apenas são admitidos os detentores de !Kwe [aquilo que os outros chamam de dolo] que, segundo diz, é um osso humano que se transformou [magicamente] em pedra dura.

 

                                                         Versão #3

 

(…) a Tradição não pode ser contada sem antes dançar a volta da fogueira44 e realizar o culto dos ances-
trais, [chamado] KONG’SI. Cada ancião apresenta três !kwe [Dolo/Holo], que são argolas em pedra. São sempre dois grandes chefes, possuidores do mesmo. Mas com a aparição de HONG, o habitante permitido de Donga [lugar sagrado] tem a sua legitimidade posta em evidência: cada um exibe seus !kwe e somente depois de reunir as três argolas ancestrais que se poderá contar os êxitos dos fundadores e segredos do povo.

 

Antes de analisarmos estas amostras convém salientar que sempre que nossos interlocutores perguntaram por nossas origens e identidade, e ao nos identificarmos como pertencente a etnia Kôngo, fomos sempre confundidos (notadamente pelos Tswane, uma população híbrida de Khoi/San e outros zimbabweyanos encontrados na Namíbia), como oriundo de Evongo (que também podia ser Kongola46, na zona fronteiriça namibiana entre Zâmbia e botswana). Mas, porquê nosso interlocutor percebeu “Kôngo” como “Evôngo”? Eis o que foi-nos explicado acerca de Evôngo:

 

• “(…) os Evôngo [Kôngo] são, para nós [Hongolo], dignitários que perderam a dignidade por ter [fugido e] atravessado os rios para ir dispersar o segredo de Eholo, o fogo sagrado. Dinga, ao desunir-se da Assembleia,47 foi criar Ongongo… A sua culpabilidade proibiu-lhe de regressar ao eHolo… e erigiu a cidade de Donga que, segundo se diz, foi arruinada por diversas vezes” (fonte oral: Senhor Itendelehenda).

• “(…) É a partir daquela época que os Tsinga [Ji/’nga] jamais podiam ser admitidos na Assembleia de nove !kwe dos Ovakuru e desapareceram as três argolas divinas (…)” (fonte oral: ancião Marcus Hebo).

 

A importância de !kwe entre essas populações de Kawûndu situa-se na nostálgica lembrança do fogo e contos nocturnos a volta desse fogo aceso. São histórias populares, as vezes consideradas pelos próprios contadores como restos remanescentes de um folclolore adulterado. Por conseguinte, só teria uma função social: para uma família que frequenta a educação escolar convencional, contar essas histórias revela-se como desnecessário. Mas para as famílias rurais que ainda estão à margem da
escola convencional é fundamental, uma vez que essa forma de educação desempenha a função básica de construção da personalidade da criança. Os !Kung do lado de Angola, por exemplo, principalmente os Kwidi, tendem a resistir a educação convencional moderna da sociedade angolana.

Portanto, essas três versões apresentam relevantes subsídios: se por um lado as versões adequam-se na hipótese segundo a qual a Origem das origens do reino do Kôngo estaria no Sul, por outro lado, elas apresentam-nos um panorama diferente que vamos agora tentar explorar.

Dolo, sendo “knucle-bone” em Afrikaans, isto é, os ossos que permitem a articulação de outros ossos, simboliza – num prisma antropológico – a união e assumem a função de dispositivos para permitir essa união (articulação de outros ossos).

Em várias variantes de oshiwambo, holo ou eholo é a assembleia de: (1) adversários e suas testemunhas num tribunal; (2) colégio jurídico e as “insígnias” das leis vigentes; (3) a massa, o povo e os ancestrais.

Entre os Kwisi48, os contos nocturnos eram feitos com presença de kahamba/hâmba espalhado pelo hômbo, um tipo de nganga ngômbo entre os Côkwe.49 Curiosamente os Dimba, que seriam produto de Khoi e San, e as populações zimbabueanas em Kawundu (!Kaudom), designam-no como holo ou eholo, “osso da canela da perna”. O plural é, segundo o mesmo autor, “Kukota ou Omakukhota” ou ainda, como se verifica na língua corrente, Omakhukoha. Do ponto de vista linguístico (morfonológico), !kwe
aproxima-se a koha ou kohe de Omakhukoha.

Nesse ponto parece termos determinado a origem do termo Makukwa que, entre os Kôngo, designa a origem tripartita do seu nostálgico reino: “Makukwa (ou Makuku) matatu malâmb’e Kôngo”. Há aqui algumas correspondências interessantes: (1) Makukwa, que em kikôngo significa pedras sustentadoras da panela (no meio do qual está aceso o fogo) parece originar-se dos dolos51 ou !kwe que se coloca a volta do fogo nocturno antes de começar-se a contar a História das sociedades. Essa imagem ainda está presente e ritualmente conservado entre as populações da Namíbia, botswana, Zâmbia, Angola meridional e até mesmo África do Sul. (2) O fogo que cozinha no Kôngo (…malâmb’e Kôngo) parece ter aqui um sentido menos metalinguagético: ele é directo.

Ora, se partimos da lógica de que é o sentido directo que sequencia ou proporciona o sentido figurado ou metafórico, poder-se-á construir a hipótese (já feita logo na primeira parte) segundo a qual a expressão makukwa matatu… Kôngo terá sido originada do Sul, onde até hoje encontramos a sua realização factual. Não negamos que nas populações setentrionais/centrais de África não haja esse acto de “à volta da fogueira”. Portanto, a nossa busca apresenta maior número de afinidades de dimensões mais profundas entre os Kôngo e os oriundos do Sul.

Curiosamente o cerimonial à volta da fogueira ainda é considerado como uma assembleia, o que se diz kôngo ou ongo em quase todas línguas africanas de Angola. Será isso o sentido de !Kung? Cazombo, na sua tese de doutoramento, apresenta-nos alguns exemplos da memória colectiva que nós consideramos como História-memoria: (a) textos de panela nas populações de Cabinda, (b) misoso dos Ambundu, (c) história tradicional de ficção, (d) história verdadeira.53 Em relação àquilo que estamos a abordar,
o misoso dos Ambûndu merece grande consideração não só por significar provérbio, mas por ter também esse alicerce de Históriamemória, da mesma forma que soso, em kimbûndu, é a chama do fogo ou faísca da fogueira.54. não terá aí a expressão misoso um duplo sentido aglutinador?

Nas versões em referência fala-se ainda de kong’si. No dicionário afrikaans, página 265, lê-se que este termo significa “ring (anel), combine (associação), trust (confiança), clique (um circulo/circuito fechado), sentidos estes largamente confirmados nessas versões.

Em relação ao Kôngo (reino do), subsidia a História-memória o facto assinalável de (a) o estrangeiro acolhido, mesmo depois de séculos, não é permitido naturalizar-se cidadão Kôngo55; (b) alguém que vivesse numa terra onde não tenha família ou, ainda, quem não se identifica com nenhuma das três linhagens basilares, seja considerado alguém de origem “escravizada”; (c) as fronteiras serem violadas, etc., só para citar esses pontos da cosmovisão existencial kôngo.

Finalmente temos a ausência de Dinga no kong’si (círculo fechado) e a sua ida (sem retorno, desistência) ao honk (assembleia, na versão Khoi e San). Kong’si56 significa, em Kwanyama e Dimba, e em oshiwambu (língua de Kawûndu), respeito, argola e montanha ao mesmo tempo. Entre os Nyaneka ong yangela (ongangela) tem o mesmo sentido.

Como se vê, desde os primórdios o Ding (ou Tsing) rompe com a assembleia e será expulso por ela, e parte para a conquista de outro espaço além do rio. Ding, conforme o dicionário de Afrikaans, significa
(a) “complete for”; (b) “aspire for”; (c) “complete”. Estes sentidos, tal como explicam os Ovimpûngu, indicam que Tsînga (ou Ding) era o elemento que faltava para tornar a assembleia completa (cf. sentido em (a). Expulso, Ding (Tsîng) aspirou por outras aventuras e conquistou outros espaços (cf. sentido em (b). O sentido (c) não é claro nessa versão original de História-memória, mas remete facilmente a que Ding terá se tornado “completo” a sua própria maneira. Contudo esta acepção é categoricamente negada pelos Vatwa58 (e os Kwankala zimbabwenizados) nos quais encontram-se algumas famílias erôngo e tsînga.

 

Entre os Kôngo, a versão oficial é a Mazînga wazînga makânda mawônso. Ora, como vimos, os Mahandala ou Makândala, aos quais era permitido assistir a Tradição Oral apenas depois de último sino de TONKA eram, como aliás o diz bem o termo, Makândala. Mais uma vez a tradição kôngo encontra aqui os vestígios da sua origem remota: não seria este Ding (Mazînga em kikôngo) a peça fundamental necessária para o “complete for…”?

A imagem da montanha que o termo comporta remete ao Axi Mundi como dispositivo redistribuidor das dimensões antropológicas de (i) “lugar sagrado” e “momento sagrado”; (ii) “lugar da união nostálgica” e “momento da mesma (união nostálgica) ”; (iii) “centro das divergências” e “motivo da diversidade funcional/laboral” e, finalmente, (iv) “onde nasce a lei existencial” e “quando nasce a força da existência social/política”.

Tal como acabamos de tentar ilustrar, a partir da noção tradicional de “à volta da fogueira” nocturna é possível reconstruir um passado (História-mémória) de (1) Makukwa matatu malâmb’e Kôngo”, “Mazînga wazînga makânda mawônso”; de (2) Mbângala ou Kola referido como a Origem dos Kôngo na sua dimensão de espaço unido social e politicamente; (3) Nas línguas Khoi e San (!Kung), o termo Ngongolo (ou Kôngo(lo) significa exactamente – o que é curioso – aquilo que aparenta a antiga montanha real do
reino do Kôngo.

 

Concluimos que a História-memória, tal como tentamos aqui apresentar, apresenta vários indícios de uma origem meridional do reino do Kôngo, situando-se na zona de Kawûndu, quer dizer, Okavângu, que geograficamente comporta regiões de Angola, Namíbia, botswana e Zâmbia.

 

 

Extrato do Livro: A ORIGEM MERIDIONAL DO REINO DO KONGO.

 

 


 


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