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Portal da Damba e da História do Kongo

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História memória (da Origem do Reino do Kôngo)

Publicado por Muana Damba activado 9 Diciembre 2013, 03:50am

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

 

 

Por Patrício Cipriano Mampuya Batsikama


 

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Vamos tentar agora aprofundar o estudo teórico até aqui realizado por meio de uma análise esquemática do tema abordado, em três tempos: história-memória, história-narração e história-análise.

 

Nos primeiros capítulos deste trabalho abordamos a Origem tal comoa encontramos na memória colectiva dos Kôngo, considerando particularmente as versões da religião, dos lugares colectivos
e nas persuasões psicosociais convergentes. buscamos fundar esta abordagem nas seguintes três perspectivas doutrinárias:

a) Tradição Oral: é fundamentalmente a memória de todos os tipos de sociedade humana. É de tal forma importante que os próprios gregos tinham uma deusa da memória, Mnemósine. Entre os povos e línguas de Angola diversificam-se os tipos de memória de acordo com a função que elas representam.

 

b) Ritos práxicos: a forma, o conteúdo, a designação do rito, assim como o local onde decorre o rito constituem – na leitura levistraussiana – uma História memória. Ou, como diria M. Eliade, uma tentativa de reviver o passado.

 

c) língua: é a memória fundamentalmente existencialista na qual veicula a essência da História esquecida, mas requerida pela vontade costumeira e sustentada por valores patrimoniais intangíveis.
É notório compreender – como Halbwachs – que na memória, história e historiografia “não são lineares as relações entre a memória colectiva e a historiografia”, de maneira que “esta última é um produto
artificial, com uma linguagem prosaica e ensinável, destinada ao desempenho de papéis sociais úteis; ao contrário, a memória colectiva tem uma origem anónima e espontânea, uma transmissão predomi-
nantemente oral e repetitiva, e um cariz normativo”.

 

Para lucien Febvre (1953), Marou (1954) ou Pierre Nora (1984) a “memória sacraliza as recordações, enquanto o discurso historiográfico constitui uma operação racional e crítica, que desmistifica e seculariza as interpretações, objectivando-as através de narrações que ordenam, sequencial e sucessivamente, causas e efeitos, de modo a convencerem que a sua re-presentação do passado é verdadeira”.

 

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Voltemos a memória que, de facto, nos interessa neste preciso ponto e balizaremos o nosso discurso nos três pontos supracitados: Tradição Oral, Rituais e língua. Focalizando a Tradição Oral, Tradição Oral6, as outras categorias serão passadas em revista de forma paralela.

Com efeito, nas nossas expedições efectuadas ao Sul de Angola, da bacia inferior do rio Kwânza (província do bié) até rio Okuvângu (de Kwându-Kubângu até Namíbia), registamos um facto assina-
lável: a transmissão da tradição oral tem uma relação de dependência costumeira com a fogueira acesa.

Curiosamente, na tarefa da educação familiar, aquela que os pais dão aos filhos, não há este tipo de suporte habitual entre os !Kung de Karioka (Angola). No entanto, quando se trata de “contar” os feitos dos ancestrais, verifica-se que o acender do fogo é quase religioso, e pensamos que isto ocorre simbolicamente para ressaltar a sacralidade dos factos e da sua origem ancestral.

 



Os Nyaneka, por sua vez, acreditam que a sociedade surgiu do fogo e permanece nas cinzas depois de o fogo apagar-se. Nisto parece haver uma associação com o facto de os Kôngo também associarem comparativamente sua origem, com as três pedrinhas que sustentam a panela sobre o fogo.

Desta forma, sentar-se a volta da fogueira significa, para os Kwanyama e para os !Kung kwanyamizados, o reconhecimento das leis estabelecidas pelos ancestrais.

 

Neste contexto utiliza-se a expressão Jihoa (Ikola) para designar o local onde o ritual é realizado e os iniciados (à esse tipo de educação) passam a assumir a personalidade de Hing, ou Djing/Jing.

 

Talvez seja por isto que Jean Cuvelier, na sua obra Traditions Congolaises, irá sustentar que as várias nações (referindo-se às sociedades proto-bantu inter-independentes) juntaram-se e formaram a nação Djing. Na província do Kunene namibiano existe uma localidade chamada Tsinga, na qual essa tradição tem notória expressão até os dias de hoje. Por estes factos somos a concluir que a História-memória é uma catacterística tradicional peculiar das populações meridionais da África. A comparação entre os termos ligados à ideia de origem, início, começo, Deus, nome, etc., e o sentido diversificado que os mesmos assumem em vários autores e literatura, parecem reforçar esta nossa conclusão.

Por esta bastante razão a Escola Tradicionalista assume particular importância no estudo da origem do reino do Kôngo. Este conjunto de posturas científicas divide-se, quanto as origens, em pelo menos três vertentes: (i) os que defendem que Mbângala seria o factor mítico comum das origens das populações que construíram o reino do Kôngo, divididos em duas alas: os que sustentam que Mpângala se localiza no Norte, e os que assimilam as nações Jinga com os Anzicos. Nas suas releituras Jan Vansina localizará esta Origem entre os Teke10 e entre os africanos dessa região região (Anzique), sustentando que o modelo político do antigo Kôngo encontra nessa região suas característivas basilares.

Pertencem a essa escola e postura científica os desenvolvimentos de Fukiawu, Kimpianga Mahaniah e muitos outros de Fukiawu, Kimpianga Mahaniah e muitos outros intelectuais oriundos de Manyânga e circunscrições vizinhas. (ii) A segunda versão pretende que Mbângala, ou Kôngo dya Mbângala (ou
apenas Kôngo) evoca uma origem abstrata, uma vez que a sua localização parece ter sido perdida desde o século XVII.

Nessa época, o trono kôngo era motivo de competição de várias famílias. de várias famílias. A maioria dos historiadores especialistas sobre o Kôngo percebeu que o candidato com direito de reinar
deveria ser oriundo da localidade do herói civilizador do Kôngo, isto é, Kôngo dya Mpângala. (iii) A terceira sustenta que Kôngo dya Mbângala situava-se no Sul. Para Raphaël batsîkama, esse seria o Sul do rio Kwânza que terminaria até os rios Kunene e Okavângu. Este último historiador tradicionalista, ao confrontar a Tradição Oral com outras fontes, chegará a conclusão de de que esta Origem situar-se-ia nos arredores de Kalahari. Seguindo a mesma linha e baseados em estudos aturados de campo, além de leituras extensas da antropologia crítica, nós tentamos alargar

essa pesquisa no primeiro estudo14 e concluimos que há variadíssimos sítios arqueológicos ainda não explorados que poderão, no futuro, com um pouco de sorte e teimosia de pesquisadores, contribuir na elucidação desta questão.

Para nós, ao retomar a mesma pesquisa de Raphaël, depois de muita análise e comparações, tornou-se inevitável a conclusão de que Kôngo dya Mbângala localiza-se de facto na parte Sul da actual geografia de Angola. Mas os seus limites constituem outro motivo de discussão, a requerer ainda estudos aturados; é que as populações existentes nesse Sul angolano ainda apresentam vários elementos que, por um lado, não permitem alargar o reino dos Ñzînga até o país de Mandume ya Ndemufayo, para citar apenas este exemplo. Por outro, ainda que a presença dos ancestrais dos Kôngo (proto-kôngo) esteja lá bem patente, parece-nos que ao longo dos tempos esse Kôngo dya Mbângala ter-se-á limitado à bacia inferior de Zambeze e Kwânza (províncias de benguela, Huambo, bié e Kwându-Kubângu) deixando as suas primeiras terras meridionais para outras populações.

 

 

Extratos do Livro: A origem meridional do Reino do Kôngo.

 

 

 


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