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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


FRAGMENTOS HISTÓRICOS DA DAMBA 28.

Publicado por Nkemo Sabay activado 5 Octubre 2010, 11:29am

Etiquetas: #Fragmentos históricos da Damba

 

 

VIAGEM AO BEMBE E DAMBA. Setembro a Outubro de 1912


In- NO CONGO PORTUGUÊS - Relatório do Governador do distrito, primeiro tenente de marinha, José Cardoso. Cabinda ,1913”

 

 

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RELIGIÃO E FÉ

Compreende-se, portanto, pelo que fica dito, em que procurei esclarecer a ideia, de que estou possuído, de que é na sua essência o sentimento religioso no indígena, a razão que me leva a recomendar frequentemente, e com especial cuidado a todos os meus subalternos, quanto é necessário ser tolerante com ele, sob este ponto de vista, consentindo e respeitando, nas relações entre eles, as suas crenças gentílicas,e consentindo-lhes todas as práticas com elas relacionadas, quando não sejam contrárias nas leis da moral e da humanidade, procurando, quando se queira reagir a elas, pôr de parte todo o carácter de violência na sua acção de actuar quanto possível sobre a intuição do indígena.


Acrescentarei, em reforço de justificação do meu modo de ver, que reputo perfeitamente natural e plausível a existência e mesmo aconservação temporária dessas fórmulas, por constituírem entre o indígena a base do seu edifício moral e da sua organização social.


A nossa própria ideia de ordem nos leva a admitir essa conservação temporária; com efeito, em todas as formas de governo por mais avançadas que sejam, a ordem social, nos seus complicados aspectos, repousa sempre o medo ou o receio da incursão nas penas que por ela se estabelecem para os seus infractores.Na sociedade cafreal, embora sem lei escrita, a ordem baseia-se no medo do feitiço, que é a garantia da conservação do costume que nela representa a lei,conservada pela tradição.

Assim, falando de um modo geral, porque este trabalho não comporta nos seus limites um estudo detalhado don feiticismo, devo referir que nos serviços de justiça cafreal, chamemos-lhe deste modo, há feitiços destinados a descobrir e a castigar certos criminosos, muito especialmente nos crimes de furto e noutros que não são fáceis de descobrir-se entre os indígenas.


É evidente, neste caso, o sentido protector dos interesses dos membros da tribo, que assistiu à criação deste feitiço, perfeitamente equivalente à intuição da legislação sobre o furto nos meios civilizados, e compreende-se o recurso a essa forma imperfeita de descoberta e punição do crime pela possibilidade em que se encontram de empregar outra forma de descoberta do crime e de produção do formalismo de prova.


A minúcia do sistema chega, portanto, a originar a instituição de feitiços especiais para cada espécie de furto, cujo castigo em determinados casos atinge também os indígenas que possam prestar esclarecimentos e se neguem a faze-lo.É também por influência ou com intervenção de feitiços vários que se regulam as relações sociais da comunidade, tais como os costumes a que obedece o casamento,deveres relacionados ou resultantes deste estado, relações de família, relações entre famílias e entre tribos, até o ponto de a guerra e a paz serem decididas sob consulta dos feitiços respectivos.


As próprias relações comerciais com o branco, nas quais não é raro o “boycott” feito aos comerciantes europeus , fazem-se sob consulta e sob protecção dos feitiços próprios e mantêm-se o “boycott” pelo terror inspirado ao preto pelo feitiço, sob a guarde do qual se coloca a manutenção dessa decisão.Sabe-se também que,, na maioria das tribos pertencentes ao grande grupo étnico Bântu, a unidade da constituição da comunidade é a família e não o individuo , como acontece nas sociedades civilizadas.


Por mais aptidões que um indígena revele para o negócio, para a caça ou para qualquer outra forma de criar fortuna, não lhe é permitido, embora isso seja contra os seus desejos, acumular em seu próprio proveito o produto ou o rendimento do seu trabalho; tem, pelo costume, que reparti-lo com a família e, mesmo em alguns casos, com determinados indivíduos da banza a que pertence, com os chefes por exemplo, o que permite aos mais indolentes e aos incapacitados, até cero ponto,viver à custa dos mais activos.


Esta instituição de suporte da colectividade, que não deixa de possuir o seu fundo de moralidade, tem, além do prejuízo de evitar a formação da riqueza, o grande inconveniente de promover o génio gastador no indígena.Especialmente o semi-civilizado evita sofrer consequências deste costume de aos outros aproveitar o
que conseguiu pelo esforço próprio, gastando, algumas vezes, num só dia,em bugigangas indivisíveis o produto do seu trabalho durante o mês.


Mas não só na condição material do indígena se manifesta esta feição colectiva da vida cafreal. Também quase sempre são colectivas as responsabilidades morais, e portanto nos direitos e deveres inerentes…


Acontece, portanto, que se um determinado indivíduo comete roubo ou assassínio,ou sofre quaisquer inconveniências na sua vida conjugal, considera-se ofendida toda a família ou o povo do autor da infracção. Está este costume perfeitamente reconhecido e inveterado nos hábitos cafreais e admitido por quase todos os sub-grupos étnicos do distrito, submetendo-se o gentio a esse regime, porque cada indígena reconhece nele, a um tempo, um sistema de polícia, um meio de defesa como parte nos pleitos em que possa achar-se envolvido, ou por escapar-se à acção
da justiça cafreal ou para obtê-la, conforme o caso…

 

 

                                                                     Em colaboração com ARTUR MENDES.

 

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