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Portal da Damba e da História do Kongo

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Entrevista com embaixador de Angola na França, Miguel da Costa

Publicado por Muana Damba activado 22 Mayo 2013, 13:34pm

Etiquetas: #Entrevistas

 

 

“A diáspora é uma reserva preciosa de quadros qualificados. O Governo encoraja este regresso”

 

Por Hortêncio Sebastião


 

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                      Embaixador de Angola na França, Miguel da Costa ( Foto de Marcelo Nlele)

 

 

Embaixador de Angola em França desde 2009, Miguel da Costa (*), em entrevista ao  Novo Jornal considera que há relações diplomáticas excelentes e dinâmicas entre os dois Estados. Fala ainda de  alguns marcos desta relação como a FLEC, Angolagate, a presença da petrolífera Total e do contributo da diáspora para o desenvolvimento de Angola.

 

 N.J: Em primeiro lugar gostaríamos de saber em que pé estão as relações entre Angola e França?

 

M. C:  A França e Angola têm relações políticas e diplomáticas bastante boas e uma cooperação económica,
comercial e cultural, excelentes. Recordo que a França foi o primeiro país da Europa a reconhecer a República Popular de Angola, menos de uma semana depois da Organização da Unidade Africana (OUA) e antes da Organização das Nações Unidas. Do ponto de vista político, a visita oficial do Presidente Nicolas Sarkozy a Angola, realizada em Maio de 2008, foi uma das indicações de um diálogo político de alto nível entre os dois países.

Aquando da vitória eleitoral do MPLA e do seu Presidente nas eleições gerais de 2012, o Chefe do Estado francês ao felicitar o seu homólogo angolano renovou com entusiasmo o convite ao estadista angolano para efectuar uma visita oficial à França.

Em Março do ano passado, o ministro angolano das Relações Exteriores, Georges Chikoty, deslocou-se oficialmente a França onde manteve contactos de alto nível com, entre outros, o homólogo francês, o Presidente da Assembleia Nacional e o ministro do Interior.

Todos esses factos e sinais levam a qualificar as relações entre os nossos dois países de bastante boas e dinâmicas.

 

Mas reconhece haver ainda ressentimentos de parte a parte em relação aos problemas políticos
de outrora?

 

Já não existem razões políticas, diplomáticas nem económicas para qualquer tipo de ressentimentos, nem crispações entre os dois Estados.

A percepção mediática permanente de que subsiste ainda alguns constrangimentos entre os
dois Estados é completamente falsa, sem fundamento.

Os dois executivos estão engajados em projectos políticos e diplomáticos que visam aprofundar e reforçar cada vez mais o relacionamento bilateral.

 

"A partir do momento em que a justiça francesa anunciou um veredicto favorável  aos arguidos, a noção de Angolagate ficou sem substância"

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Mesmo assim França ainda acolhe a liderança da FLEC, nomeadamente Nzita Tiago, hostil ao
Governo de Angola. Que influência tem isso nas relações entre os dois países?

 

Cabe às autoridades francesas responderem a esta questão. A nossa percepção é que a presença de elementos da FLEC, em particular a do Senhor Nzita Tiago, obedece a uma racionalidade humanitária, já que vive num lar para pessoas idosas por não ter condições para possuir uma habitação.

Com os seus 86 anos de idade, ele enfrenta graves problemas de saúde. Não existe em França uma presença institucional da FLEC. Tivemos uma boa colaboração do Estado francês, quando o cidadão
de nacionalidade francesa Rodrigues Mingas reivindicou o ataque contra a caravana desportiva togolesa no trajecto Ponta Negra/Cabinda em Janeiro de 2010, aquando da realização do Campeonato Africano
das Nações em Angola.

 

Mas o caso Angolagate, embora encerrado, tem ainda algum peso nas relações bilaterais?

 

Há em França um respeito absoluto pelas decisões de justiça. A partir do momento em que esta anunciou um veredicto favorável aos arguidos, a noção de Angolagate ficou sem substância.

Como já disse, não há hoje nenhuma matéria para qualquer crispação entre os dois Estados. 

 

A França, além do petróleo em que a Total tem uma presença de vulto no nosso país, haverá
tendência de outras empresas francesas avançarem em força para Angola?

 

A presença francesa em Angola é consistente, existem mais de 70 empresas francesas que operam
em vários domínios como no agro-alimentar, na construção civil, nas telecomunicações (quer civil,
como militar), no domínio dos transportes aéreos, marítimos e serviços portuários, no domínio
dos serviços e naturalmente nos domínios petrolíferos e parapetrolíferos. Mas a França como quinta economia mundial e com excelência tecnólogica que lhe é conhecida pode qualitativa e quantitativamente incrementar a sua presença em Angola.

 

Para a sua reconstrução e desenvolvimento, Angola necessita investimentos de capitais estrangeiros e a transferência de tecnologia adaptada à sua realidade pelo que a França e outros países têm sido
encorajados a investir mais. A competição é salutar. Repare que antigamente haviam amigos e inimigos,
hoje a globalização transformou tanto amigos, como inimigos em concorrentes.



Está prevista alguma missão
empresário angolanos em França  ou de empresário franceses em Angola para captar investimentos?

 

Houve uma missão de uma delegação de empresários franceses em Outubro de 2011 em Luanda,
composta por mais de 20 membros, chefiada pelo Senhor Patrick Lucas, Presidente do Comité África
do Medef International. Esta missão permitiu estabelecer contactos com vários ministérios: Relações
Exteriores, Economia, Indústria Geologia e Minas, Petróleo, Energia e Água, e Transportes. Os representantes do Banco Central, da CCI de Angola, da Associação Industrial de Angola e da ANIP fizeram apresentações sobre a economia de Angola e as suas perspectivas.

A presidente da ANIP, por sua vez participou em Paris no fim do ano passado num Fórum económico da
Câmara de Comércio e Indústria de Paris, o que permitiu mais uma vez, transmitir aos meios económicos
franceses as oportunidades de investimento que existem em Angola e os esforços para facilitar a sua implementação no país.

Estamos neste momento a trabalhar na promoção de cinco províncias angolanas em França, com a
deslocação dos respectivos governadores, para expôrem os seus planos a médio e longo prazos.

 

Aqui a questão dos vistos quer de angolanos que querem ir, como de franceses que pretendem vir, se coloca?

 

As duas chancelarias têm estado a reflectir sobre a melhor maneira de tornar mais fluida a circulação de pessoas e bens. A França, naturalmente, está inserida na zona Schengen que tem instrumentos consulares e aduaneiros próprios e Angola por sua vez tem a sua política própria em matéria de vistos e está atenta à evolução na região da SADC.

O objectivo é claramente encontrar um bom compromisso entre a necessidade de facilitar a movimentação dos homens de negócios dos dois países, dos oficiais de ambos e do povo em geral, sem prejuízo do controlo de uma emigração que pode ser destabilizadora. 

 


O facto de a França não ter sido uma potência colonizadora de Angola, tem reflexos nas relações
entre os dois países?

 

A relação com a França é fundamentada nos princípios fundadores da nossa diplomacia. Angola é pela
soberania plena dos Estados, pelo respeito das leis multilaterais definidas pelos princípios fundadores
das Nações Unidas e pela solução pacífica dos conflitos.

Angola pauta pela cooperação equilibrada nas relações bilaterais com a reciprocidade de vantagens.
A emancipação dos Estados africanos criou relações descomplexadas com as antigas colónias. A China por exemplo não foi potência colonizadora e no entanto conhece uma penetração de grande vulto em África. É necessário simplesmente reinventar os termos de cooperação entre os Estados para
maximizar as vantagens mútuas. 

 

Quantos angolanos residem em França, como estão distribuídos?

 

Temos inscritos no Consulado cerca de 11 mil angolanos, mas acreditamos que existem muito mais. Estão distribuídos em todas as regiões de França. As estatísticas a esse respeito não apresentam valores fiáveis por causa, entre outras razões, da grande mobilidade dos angolanos na diáspora. 


Haverá neles (angolanos) o desejo de regresso à Pátria e de contribuir para o desenvolvimento de Angola?

 

Os angolanos são patriotas e têm amor ao seu país e na diáspora se encontra uma reserva preciosa de
quadros qualificados. O Governo encoraja este regresso e tende a promover políticas de reinserção
de quadros da diáspora. Trata-se necessariamente de uma mais-valia para o País. 

 

A França é um país cujo desenvolvimento sócio-económico é inquestionável. Até que ponto as
nossas lideranças têm sabido retirar daí bons exemplos?

 

A vantagem dos países em via de desenvolvimento é de poderem comparar os modelos de desenvolvimento e subtrair naturalmente os melhores exemplos. Cada país tem a sua história, a sua sociologia, cultura e realidade geopolítica, por isso não se pode copiar só por copiar.

Os nossos dirigentes têm bagagem intelectual e política e têm também experiência necessária para nortear o horizonte nacional. A França tem uma tecnologia avançada tanto em matéria de transportes ferroviários (TGV), de aeronáutica (aeroespacial, Airbus, etc.), de agro-alimentar (a primeira potência agrícola europeia). É a segunda potência económica da Europa depois da Alemanha. A França é um Estado-Nação cujo modelo sócio-político é o mais próximo da configuração actual da maioria dos Estados
africanos. Dispõe também de um dos melhores sistemas de protecção social para a saúde (cobertura
médica universal), contra o desemprego (subsídio de desemprego), contra a miséria RSA (Rendimento de Solidariedade Activa) e RMI (Rendimento Mínimo de Reinserção). 


Que leitura faz da a realidade económica angolana actual?

 

Angola é neste momento um país de admiração de todos os nossos interlocutores por várias razões: O nosso país conseguiu conquistar e preservar a paz depois de 27 anos de uma guerra civil devastadora, a mais violenta dos últimos anos em África.

Depois de 10 anos o país apresenta uma configuração geopolítica completamente diferente e figura
no concerto das nações emergentes como uma das potências promissoras para o continente africano.
Angola conseguiu estabilizar os seus fundamentos económicos, crescimento, aumento das reservas  em divisas, diminuição drástica da dívida externa, diversificação, redimensionamento das indústria
extractivas e de transformação e políticas macroeconómicas que criam o clima favorável ao investimento estrangeiro. E o orçamento deste ano consagra uma boa parte para a área social, uma melhoria dos coeficientes de redistribuição.

 

Naturalmente, o caminho a percorrer é ainda longo, pois estamos a trabalhar para materializar plenamente os objectivos do milénio definidos pelas Nações Unidas e temos pela frente o desafio de amortecer o grande fardo da guerra que desorganizou o tecido social de Angola.



África é ainda vista como fonte de conflitos, mas também há quem diga que é onde reside o futuro. É essa também a visão das autoridades francesas em relação ao continente?

 

A China há 40 anos era vista como um dos países mais subdesenvolvidos da Ásia. Hoje, é a segunda potência económica mundial. A geopolítica mundial não é um dado fixo, no espaço e no tempo, há transformações permanentes.

África tem hoje mais de um bilião de habitantes, o que representa mais de 16% da população mundial.
O nosso continente é um dos únicos que tem uma grande profundeza territorial contígua e representa mais de 20% das terras emergidas do globo.

Há uma grande diversidade de povos, raças, etnias e nações. E aos poucos vai-se assistindo a uma grande estabilidade política do continente não obstante alguns focos de tensões. 



Como antevê o futuro das relações França/Angola?

 

Angola e França têm interesses políticos comuns que se prendem com a paz nos Grandes Lagos, na RDC, na Guiné-Bissau, país limítrofe dos países francófonos. A empresa francesa Total é hoje a maior operadora de petróleo em Angola à frente de americanas Chevron e Exxon.

Angola e França têm um diálogo sustentado em matéria financeira (Clube de Paris), a nível multilateral (Nações Unidas), a nível regional (U.E., O.U.A., SADC, etc). Do ponto de vista cultural e linguístico, estamos rodeados nas fronteiras norte e nordeste por países de influência francófona.

Os dois países têm todo interesse em repensar as suas relações, torná-las mais inventivas. Angola como de resto toda a África, precisa de uma parceria moderna que permite mais flexibilidade na transferência de tecnologia (na agricultura, indústria e serviços). Mais transferência do conhecimento e do saber (universidade, pesquisa). Mais transferência de capitais (deslocalização dos processos de produção).

A África já não pode apenas continuar a ser uma reserva de matéria-prima. É necessária uma maior
integração na economia mundial. 16% da população mundial não pode participar com apenas 2,5%
das trocas internacionais. 

 

 

                                                                                                                      N.J

 

(*) Mundamba, natural de Mbanza Mabubu. O embaixador Miguel da Costa é filho do patriarca Mingiédi N'tandu a Namputu (nota do Blog).

 


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