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Portal da Damba e da História do Kongo

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De Caçador a Guerrilheiro “O meu amigo Kasengo” 2

Publicado por Muana Damba activado 6 Junio 2012, 03:48am

Etiquetas: #Fragmentos históricos do Uíge.

 


Por Dr José Carlos de Oliveira.

 

 

 

De Caçador a Guerrilheiro
O meu amigo “Kasengo”
 
Neste caso muito particular o nome do Kasengo (estou hoje convencido tratar‑se de um nome de guerra) assumia particular importância. Explicava a natureza própria do ser individual, era um distintivo, encerrava alguma coisa de essência pessoal. Ka‑se‑ngo: Ka (espírito) Se (pai) Ngo (força vital)  pressupunha que o pai e, em especial, o avô, grandes caçadores já falecidos, estariam a protegê‑lo permanentemente.
 
O meu amigo tinha uma bela apresentação, estatura acima da média “Muzombo”, solidamente constituído, fisionomia insinuante, com um invulgar espírito de vivacidade, vigoroso, orgulhoso e altivo. Como caçador tinha desprezo pelo trabalho, em especial pela agricultura (dizia que lavrar a terra era trabalho de mulher). Hoje acrescentaria às suas características a irrequietude derivada da altivez propensa à rebelião. Digamos sem eufemismos, o tipo de homem que se manifestaria como guerrilheiro pronto a lutar pelo seu chão.
 
Todas estas observações terão a sua razão de ser e, se tomarmos como referência o ano de 1960, facilmente percebemos que à data existiriam vivos muitos revoltosos das guerras dos Dembos. A propósito, seja‑me permitido transcrever o Major David Magno em “Guerras Angolanas”:
 
“...Em um de Março de 1917 (a quarenta e três anos de distância de 1960) o Chefe da Missão dos Dembos, Padre António Miranda de Magalhães, envia as seguintes notícias para a Metrópole. Os Dembos continuam na mesma. O Cavunga Capacaça já tem vindo pernoitar à Missão. O Caculo Caenda (considerado a maior autoridade dos Dembos), porém, foi ainda consultar o Rei do Congo, sobre se deve apresentar ou não, julgando‑se contudo que o seu regresso ao nosso convívio esteja para breve, visto os seus sobetas já frequentarem o Forte. Os diversos capitães mores têm tido cada um o seu plano administrativo mais ou menos pacífico, mas ainda nenhum fez pela região coisa que se visse...
O senhor Alto Comissário da República em Angola, manifestou‑me há dias o desejo de convidar David Magno, para vir pôr em prática o seu plano que, pelos vistos, parece ser o único sensato.
 
Com este oficial podia eu fazer o sacrifício da minha saúde, para avançar com a missão dos Dembos para Caculo Caenda, para onde deixou de avançar, em 1913, por motivo de sublevação, ficando aqui detida em Camabela. Em 24 de Abril, por sua vez, o Coronel Genipro de Almeida de Eça, chefe do Estado Maior, comunica‑nos:
Como isso lhe dá prazer, informo‑o de que não descuramos a ocupação dos Dembos, cuja história da região vamos lendo com interesse. Andamos fazendo a ocupação lentamente, mas quanto possível com segurança. Ultimamente foram montados postos junto das Banzas do Calandula e do Caculo Cabaça. Atacando de Encoge, que já está reocupado, para Sul, espero que em breve cavalguemos o rio Dande, para cortar as comuni­cações do Nambuangongo para os Dembos do Sul. Ante ontem mandei uma nova companhia Indígena para Leste de Caculo Cabaça, a qual dali avançará para Oeste, ligando com o Caculo Caenda...”
 
O autor é contemporâneo de velhos Sobas (autoridades tradicionais), testemunhos vivenciais do tempo em que os portugueses e outros estran­geiros, chefes de caravanas, ao transitarem pelas suas terras, pagavam impostos pelas mercadorias que transportavam, sujeitos a pagar o caminho. Só os Sobas Grandes, chefes de Banzaditas capitais distritais da tribo, tinham suficiente capacidade económica para exercer a autoridade política nesse tipo de pressão. Eram os “donos dos caminhos”. Entre os grandes dignitários tribais, a figura do caçador de caça grossa merecia destaque especial. Em tempos de conflito era o chefe de guerra por excelência, fazia parte inclusivamente de uma sociedade secreta: os Bango, conhecidos das autoridades coloniais por “homens leopardo”, uma espécie de franco maçonaria...
 
 
De todos estes factos e de muitos mais tinham conhecimento o soba Nanga, o soba Kiluango, o Soba de Banza Pete quando, em 1961, orientaram as suas populações para os ataques na zona da vila da Damba, à povoação do 31 de Janeiro e mandaram colocar as valas que dificultaram o avanço das tropas portuguesas.
 
Qualquer deles era iniciado nos poderes que lhes tinham sido conferidos pelos seus antepassados, em especial o Nwa Maza. Traduz‑se por: beber água, no sentido de “purificação da palavra”, ou melhor, invocação dos espíritos, fonte inspiradora, protectora e premonitória do sentimento Bakongo. As aldeias dos seus antepassados são denominadas Maza. Ao invocar os espíritos esperam a sua protecção para as suas necessidades derivadas de conflitos internos ou externos.
 
Com esta achega muitos leitores compreenderão melhor a insistente invocação do termo Maza proferido pelas hostes da UPA, em 1961. De facto, ao invocarem os seus notáveis antepassados, como escudo invisível, apelavam para que as balas dos brancos os não matassem e, se por acaso tal acontecesse, a ressurreição estava prometida e próxima...
 
A actividade de caçador de caça grossa impregnava aspectos fundamentais da cultura Kongo. Ainda em 1992 encontrei sobrevivências culturais, exal­tando o espírito Kongo (Caçador), em canções e complexas práticas mágico venatórias a que tive o privilégio de assistir. Não poucos foram os caçadores que deram origem a grandes aglomerados populacionais. Para se tornar caçador, ao homem era exigida uma excepcional resistência física, perícia, audácia, obstinação e sangue frio. Por isso os pais caçadores tinham enorme orgulho quando iniciavam os seus filhos varões na caça aos Txitxis (pequenos roedores que habitam as margens dos rios). Nem todos os caçadores tinham o mesmo estatuto. Alguns eram denominados Capita, termo que tem origem no personagem “capitão de feitoria”. Quando atingiam esse posto eram considerados os mais destros. Embora não formassem uma classe distinta, orgulhavam‑se do seu estatuto social, associado a poderes sobrenaturais que fomentavam a adivinhação e magia protectora na caça. Os amuletos, sacrifícios e preces faziam parte dos seus rituais onde se encontrava integrada a sua arma de caça. Não admira que fossem alvo preferido da cobiça das mais proeminentes mulheres. Tudo faziam ao insinuarem‑se, durante os batuques, com a finalidade de chamar a atenção do “grande caçador”, esperando com isso conseguir os seus favores sexuais e, consequentemente, engravidar de tão mítica personagem.
 
O Kasengo não teria mais de vinte e cinco anos. Na caça usava uma espingarda caçadeira de origem espanhola de dois canos, dos quais só um funcionava, e assim abatia desde pacaças (búfalos) a galinholas. Andava sempre de calções, mesmo em noites frias. Sabia que o sussurrar do tecido entre as pernas era facilmente audível pelos animais. Era aquele tipo de pessoa que maravilhava qualquer jovem da minha idade.
 
A primeira coisa que tive de aprender foi andar a corta mato às escuras. Calçava então sapatilhas, para que os dedos fossem mais sensíveis ao chão irregular. Lia melhor o chão com os pés. Com os contactos diários, fui aperfeiçoando os meus conhecimentos de Kikongo, tanto na forma falada como na escrita, tal como os laços tecidos pelas relações de proximidade que me permitiram os fundamentos para aprofundar conhecimentos que, de outra forma, me estariam vedados. Aprendi, por exemplo, ao passarmos pela árvore Mulemba, como vene­randa representante matricêntrica do povo, a reconhecer nela a árvore da vida, onde, debaixo das mais velhas e frondosas, os sobas se reúnem ainda hoje para decidir das suas questões familiares. As famílias Bakongo têm as suas conversas ao serão, os célebres Mambu, no dizer do Norte de Angola. É fundamental Saber Ouvir os “Mambu”, válvula de escape tipicamente africana que é a palavra tornada conversa. Faz parte da introdução à cultura Bakongo e de todos os outros povos Bantu. Trata‑se de discussão debate e negócio. Acontecimentos, decisões e preocupações comunitárias dão azo a longas conversas e acesas discussões. A conversa diminui o conflito e a discussão dilui a violência.

 


Com o Kasengo aprendi o significado correcto de nkisi:a Voz da Terra, ou melhor, a voz dos antepassados. E como os nkisi passavam a ser Minkisis. De uma forma coloquial e rápida, será o mesmo que dizer: determinada força vivente de um antepassado possui uma pessoa e esta, uma vez possuída, passa a ser o “Munkisi”, o intérprete pronto para invocar os antepassados Maza.
 
Entre os Bakongo, como aliás em toda a África negra, existem peritos que se dedicam a estas actividades: o adivinho, o curandeiro e o feiticeiro. O Kasengo não sendo nem um curandeiro nem adivinho, e muito menos feiticeiro, conhecia bem as praticas que apelam ao sobrenatural. A partir de 1960, deixei de o ver. Soube, no princípio de 1961, que tinha ido para o lado de lá da fronteira. Encontrei‑o mais tarde, em 1967, no Mercado fronteiriço de Pangala. Por vezes o único estrangeiro e branco era eu. Aí conversámos sobre muitos Mambu. Só hoje dou o devido valor ao muito que me ensinou sobre o fenómeno Kindoki. Só hoje sou capaz de compreender o grito: Maza, Mazae a razão porque fomos separados pela vida.
 
O termo vernáculo Kindoki não é reproduzido com fidelidade pelo nosso termo feitiçaria. De facto o termo Kindoki só diz respeito a feitiçaria maléfica ilícita. Geralmente o seu agente é exterior à linhagem da povoação onde o fenómeno se manifesta. O Kindoki sugere noite, sabedoria profunda o que confere àquele que o possui um enorme poder sobre os seres e as coisas. Esse poder permite modificar e desviar o curso normal do universo Bakongo produzindo a maior angústia, a doença e perdição...
 
O mito fundador do kindoki conta que ele, na origem, era bom, ou melhor, era uma propriedade dos chefes de linhagem. Infelizmente um tratado deu este poder aos mais novos, que o utilizaram para fins ilícitos. Isto faz pensar noutras similitudes em tempos recentes e noutros continentes.

 
 

A possessão demoníaca tem lugar próprio na cultura Kongo. Hoje a profunda crise económica das famílias faz crescer em flecha um florescente comércio da tradicional superstição ambiente, o Kindoki. As famílias vivem uma tal pressão de necessidades básicas (às vezes miséria) que não encontram outra explicação para a sua precária situação.  Acreditam estar debaixo da influência de forças do maligno que encarnam nos seus fami­liares, levando‑os a serem os agentes de todos os males invasores da família. Uma mulher “esclarecida” e interessada afirmou‑me com uma simplicidade desconcertante: temos duas personalidades: uma de Deus e outra pérfida que é do Diabo. Se não amar a Deus acabo feiticeira. Depois de quarenta anos de guerra fratricida o Norte de Angola está potencialmente exaurido do seu melhor capital populacional. Pessoas vítimas de conflitos existem em todo o mundo, mas culpados de feitiçarias são um fenómeno especificamente Kongolês. Abandonados, votados ao ostracismo, não têm nenhuma expectativa de vida a viver. Deambulam pelas cidades vivendo do roubo e da prostituição. As mulheres e mesmo crianças, absolutamente abandonadas, vendem o corpo para sobre­viver. Não têm como se defender e, extremamente vulneráveis, estão no términus da vida.
 
Resumindo, estas práticas de ontem e de hoje, embora numa escala muito menor não nos são estranhas. Todos os dias, ao percorrermos com o olhar os jornais diários nos damos conta deste fenómeno. Os homens e mulheres, que dele vivem, não são estúpidos. São mesmo muito inteligentes e hábeis no seu trabalho. Há os que enganam intencionalmente. Outros, só para conseguirem mais lucro e publicidade, implicam‑se em práticas duvidosas.
 
Foi o Kasengo, volto a repetir, quem me abriu as portas de tão fascinante assunto, embora mais tarde tivesse quem me descobrisse o fio da meada... O fenómeno kindoki ainda vai durar muitas gerações nesta região africana. Apesar de todos os aspectos positivos mencionados da cultura Kongo, esta influência maligna é um enorme obstáculo à saúde mental e física das suas populações. A verdade é que a coacção mágica do Kindoki faz com que sofram e morram todos os anos muitos milhares de africanos. África tem necessidade urgente de se ir libertando deste tipo de fenómeno.
 
Muito do que aprendi com o Kasengo serve‑me hoje como motivo de reflexão. Não fora muitos desses avisos, estaria hoje profundamente afectado, como muitos milhares de Angolanos e Portugueses estão. Por exemplo, os meus sentimentos patrióticos estariam muito abalados. Aos 65 anos de idade estou convicto de que aprendi a apaziguar os meus fantasmas e embora cá longe, existe ainda aquele sentimento de ternura que me leva a pensar o que Alexandre Herculano escreveu acerca da Pátria em Eurico o Presbítero:
“... Sei por quais meios Roderico subiu ao Trono, que não obteria pela eleição dos Godos: Mas não é a sua coroa que os filhos das Espanhas têm hoje que defender; é a liberdade da pátria; é à nossa crença; é ao cemitério em que jazem os ossos dos nossos pais; é o templo e a Cruz, o lar doméstico, os filhos e as mulheres, os campos que nos sustentam e as árvores que nós plantamos.” (Pág. 72 edição Livraria Bertrand 1979.)

 

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