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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Damba, 1945-1953 (15)

Publicado por Muana Damba activado 30 Marzo 2011, 12:00pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos da Damba

Por Dr MANUEL ALFREDO DE MORAIS MARTINS.(Administrador da Damba 1945-1953).

VIDA FAMILIAR E VIDA SOCIAL (2)

Dambianos de origem lusitana.

 O convívio das crianças na Damba, no tempo colonial.

Enquanto estive na Damba, vários chefes passaram pelos postos. Em maior número pelo de Camatambo (4), talvez por ser o mais isolado e dotado de piores instalações, a seguir pelo de 31 de Janeiro (3) e, por último, pelo do Bungo (2) .

No Bungo já estava há bastantes anos, quando eu cheguei à circunscrição, em 1945, e ali permaneceu até atingir o limite de idade em 1953, o velho e prestigiado chefe Jacinto António Camacho, que ao Congo chegou por volta de 1918, como cabo do Exército, tendo exercido as funções de chefe do posto militar do Mucaba. Quando as capitaniasmores e os postos militares foram substituídos por circunscrições administrativas e postos civis, foi integrado no Quadro Administrativo então criado. Foi sempre funcionário exemplar e respeitadíssimo pela gente dos postos que chefiou.

Num dos dias em que fui ao Bungo para verificar como os serviços estavam a decorrer, convidei­o para me acompanhar, na carrinha, até ao limite com o posto do Ngage, do concelho de Ambaca, e ao cruzarmo nos com um homem que seguia pela estrada, logo me informou de que não era natural nem residente na área do seu posto, interrogando se sobre os motivos da sua presença. Ao regressarmos ao Bungo, passado pouco tempo, ultrapassámos o mesmo homem e o chefe Camacho de imediato me pediu para pararmos. Falando em quicongo, dialecto que dominava inteiramente, lá indagou da proveniência e das razões da sua viagem. O homem pertencia ao vizinho posto do Puri, onde o chefe já estivera colocado, e logo lhe perguntou qual a kanda a que pertencia e a aldeia em que vivia. Ao obter estes elementos, iniciou se animado e amistoso diálogo, em que predominou o pedido de informações sobre diversos habitantes daquela aldeia, incluindo o respectivo chefe e também sobre o soba da região que o Camacho bem conhecia. E assim aquele velho chefe de posto: conhecedor até ao mínimo pormenor de tudo quanto na sua área ocorria, e inteiramente dedicado à melhoria do bem estar e à defesa dos direitos dos seus súbditos, que por ele nutriam a maior estima. Continuou a viver no Bungo após a aposentação e atribuo à sua presença o facto de aquele posto nunca ter sido atacado durante os acontecimentos de Março de 1961, que ensanguentaram todo o distrito do Congo.

Não interessa descrever aqui as características individuais de todos os meus colaboradores, a nível de chefe de posto, mas não resisto à tentação de, em levesx pinceladas, relembrar episódios respeitantes a três deles e que se diferenciavam pelo seu grau de preparação intelectual: um que não tinha ido além da instrução primária, outrocom habilitações equivalentes ao antigo curso geral dos liceus (quinto ano) e o terceiro com o curso superior colonial.

O primeiro, que esteve colocado no posto de 31 de Janeiro, virá a ser referido mais adiante, como principal personagem de episódio relativo ao abate de um leão, e que era funcionário de poucas letras e de muitas manhas.. Não me vou referir agora às manhas em que era pródigo nem à sua real capacidade de orientação de trabalhos externos, como reparação de estradas ou construção de improvisadas mas sólidas pontes, mas relembrarei apenas a redacção de dois ofícios em resposta a pedido ou a determinação dos respectivos administradores. Um dos casos aconteceu enquanto esteve como meu subordinado no posto atrás referido, e o outro no posto do Cariango, do concelho da Quibala, no distrito do Cuanza Sul.

Certo dia recebi do Governo do Distrito uma circular que transcrevia uma outra da Direcção dos Serviços da Administração Civil indagando se haveria autoridades tradicionais que estivessem interessadas em receber espadas e arreios de cavalos que estavam disponíveis nos Serviços Militares. Mandei transcrevê la aos postos e, passados dias, recebi as respostas. A do 31 de Janeiro informava que dois ou três sobas estavam interessados em receber espadas e que não era necessário nenhum arreio, porque naquele posto não existia nenhum zinino. De imediato despachei:

"Requisitem se as espadas. Quanto a zininos, há, pelo menos, um ... "

Também se contava que, anos antes, no mês de Maio, o administrador da Quibala tinha oficiado aos chefes dos postos, determinando a sazonal reparação das estradas, pois se tinha entrado na estação seca, que era a mais própria para tais trabalhos. E recomendava que, de preferência, se utilizasse pirite nos troços mais sujeitos à formação de lamas no tempo das chuvas. Pirite era a designação corrente em Angola da laterite. Decorrido um mês, recebeu do chefe do posto do Cariango um ofício redigido nos seguintes termos:

«Em resposta ao ofício n° tal, de tantos de tal, tenho a honra de informar V. Exª. que as estradas deste posto já estão todas piratadas. » E o administrador nele despachou: « Arme se um bergantim para dar caça aos corsários do posto de Cariango. »

E como as recordações são como as cerejas, quando se puxa por uma vem logo uma outra atrás, lembro me agora de um outro episódio relacionado com asininos, mas ocorrido uns anos antes e na província da Huila.

Todos os anos, quando do recenseamento para a cobrança do imposto anual, os chefes de posto também colhiam elementos de natureza económica e, destes, sobressaia o chamado arrolamento geral do gado. Mas aconteceu que, em determinado ano da década de quarenta, foi lançado um inquérito independente e bastante minucioso, da responsabilidade dos Serviços de Veterinária, que pretendia conduzir ao apuramento, tão exacto quanto possível, da riqueza pecuária da colónia. Foi elaborado um questionário em que se pedia o número de animais de cada espécie existentes em todos os sobados e, dentro destes, em cada povoação. A condução do processo foi entregue, como sempre, aos funcionários do quadro administrativo.

E foi no preenchimento deste questionário que aconteceu o caso que vou contar.Em um dos postos de um dos concelhos da então província da Huila, estava colocado um funcionário considerado como bastante competente e com notável capacidade para orientar trabalhos externos, nomeadamente os que se prendiam com a melhoria dascondições de vida da população rural, mas com uma deficiente preparação literária. Ao ler as perguntas constantes do questionário, não teve dúvidas quanto à identificação das espécies, com excepção de uma delas. Sabia que os bovinos compreendiam os bois e as vacas, os equídeos os cavalos e as éguas, os caprinos os bodes e as cabras, os ovinos os carneiros e as ovelhas, mas tropeçou nos asininos que, por serem raros na colónia, não figuravam no arrolamento geral de gados atrás referido. Como sair da dificuldade ?

Tinha ligação telefónica com a Administração do Concelho, mas não queria dar parte de fraco perante o administrador, seu imediato superior hierárquico, e com os colegas dos postos vizinhos não tinha facilidade de comunicação rápida. Pensou então que a solução estaria perto, na missão católica situada nas imediações do posto. E para lá se dirigiu na certeza de que o sacerdote ali em serviço o elucidaria. E quando o encontrou, logo lhe pôs o problema:

« Oh! senhor padre, venho aqui para lhe pedir um favor. Recebi um questionário sobre o numero de animais que há cá no posto. Já calculei o número dos bovinos, dos equídeos, dos ovinos e dos caprinos, mas não sei que raio de bichos são os asininos.

De imediato o missionário, querendo, por certo, desfrutar a ignorância do funcionário e, talvez, para se desforrar de qualquer anterior atitude menos correcta, lhe prestou maldosa informação:

Oh! senhor chefe, então não se está mesmo a ver que os asininos são animais com asas? Calcule o número de galos e galinhas e de patos e patas e preencha assim a resposta em falta no questionário.

Tendo resolvido, desta forma, o problema que tanto o preocupava, apressou se o bom do chefe de posto a dar cumprimento ao pedido. Actualizou os números respeitantes às outras espécies que totalizavam, cada uma delas, algumas centenas de cabeças, e por falta de elementos anteriores constantes do arrolamento, pois nestes não figuravam os tais asininos, estimou em muitos milhares o número de galináceos e afins existentes no posto. E lá seguiu para a Administração do concelho o ofício a acompanhar o cômputo da riqueza pecuária do posto.

Ao receber tal documento, o administrador logo detectou a incongruência que o elevado número de asininos representava, e apressou se a telefonar para o posto com vista à explicação da anomalia. E estabeleceu se o seguinte diálogo, após a troca de cumprimentos da praxe:

"Oh! senhor chefe, já estive a ler a sua resposta ao questionário sobre o número de animais existentes nesse posto e há nele uma coisa que não entendo. Como é que há aí tantos burros e eu nunca vi nenhum?

"Burros ? Eu não mencionei nenhum, pois é espécie que aqui não existe. Então você não anotou a existência de todos aqueles milhares de asininos?"

" O quê, senhor administrador? Então os asininos são burros? Desculpe lá o engano, mandar já outro ofício a desfazer o erro.

 

Continua...

 

                                                  Com colaboração de João Garcia e Artur Méndes.

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