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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


DAMBA,1945-1953 (5)

Publicado por Nkemo Sabay activado 11 Enero 2011, 15:25pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos da Damba

 

 Por Dr MANUEL ALFREDO DE MORAIS MARTINS.(Administrador da Damba 1945-1953). 

                               Damba em 1962.

 

OS MERCADOS TRADICIONAIS.


Foi também num dos recenseamentos que entrei no contacto directo com uma das instituições económicas mais características da região que engloba os concelhos da Damba e do Zombo, este com sede em Maquela do Zombo, e se prolonga para além da fronteira com a República do Zaire. Trata-se dos mercados tradicionais, que são de criação muito antiga mas que mantiveram as suas características essenciais, não obstante as alterações, quanto aos artigos comercializados, determinadas pelo progressivo contacto com os comerciantes europeus. Em grande parte do concelho do Zombo e no posto sede do concelho da Damba, apesar da existência de estabelecimentos comerciais, os mercados mantiveram-se como centros importantes de negócio, mesmo para os artigos de importação vendidos nas lojas. Naquelas áreas administrativas o espírito comercial era a característica dominante dos seus habitantes e que se foi mantendo, adaptando-se com grande facilidade a todas as evoluções que a economia regional. foi sofrendo. 

 

De trabalho de investigação de minha autoria8respigo os passos que reputo de maior interesse para o conhecimento dos traços essenciais do funcionamento dos mercados. 

 

« São conhecidos vulgarmente por quitandas, mas o seu nome verdadeiro e nzandu, que também .significa «lugar neutro», « lugar de igualdade », « lugar de divertimento ». 

 

A sua criação e o seu funcionamento obedeciam a regras fixadas pelo costume. Nenhum se podia fundar sem prévio acordo dos chefes vizinhos, que, em conjunto com o chefe interessado, escolhiam o local e proclamavam as leis que deviam reger o seu funcionamento. 

 

Essas leis diziam respeito essencialmente à liberdade de comércio, à proibição da entrada de indivíduos armados, ao acatamento dos preços estipulados para certos artigos e a tantos outros pormenores, tudo tendente a dar ao mercado um ambiente de sossego, onde não eram permitidas rixas nem altercações, e, mais ainda, a transformá-lo em zona neutra, inviolável, gozando de certo modo um privilégio de extraterritorialidade. Havia penas .severas para os que não cumpriam essas leis, desde multas pesadas para os brigões até à condenação à morte para os que nele cometessem acções desonestas ou roubos. 

 

Localizavam-se sempre em sítios elevados, bem arejados e a certa distância da aldeia. 

 

A sua direcção competia ao «chefe do mercado», que marcava o momento do seu início, vigiava os preços, mantinha a ordem e impunha os castigos aos transgressores.

 

Além da sua finalidade principal, que era o comércio, os mercados funcionavam também  como locais de execução de criminosos, e era neles que se realizavam as cerimónias finais de alguns ritos de iniciação, como os da puberdade, da entrada na seita secreta do kipaxi e em certos feitiços especiais. Eram, além de tudo isso, como ainda hoje o são, os lugares de reunião predilectos, onde, à sombra tutelar ou nas imediações da figueira-brava (nsanda no falar quicongo) que fora plantada quando da sua criação, confraternizavam milhares de pessoas, ali atraídas não só pelas necessidades do comércio como também pelo natural desejo de convivência Era nos mercados que se marcavam encontros, que se ouviam e transmitiam as novidades, que se entrava em contacto com as novas mercadorias e com as novas ideias. Funcionavam como verdadeiros centros de difusão cultural. 

 

Havia-os de duas espécies: uns, centrais, servindo bastantes aldeias e que, pelo bulício, pela multidão que os animava, pela presença de indivíduos vindos de longe e pelo valor das transacções, muito se assemelhavam às nossas feiras, e outros, mais pequenos, verdadeiramente locais, onde apenas ,se negociavam víveres e eram quase só frequentados pelas mulheres. 

 

Os sistemas de negócio em vigor nos mercados foram variando com o decorrer dos tempos. A simples permuta primitiva cedo passou a coexistir com o emprego de moeda, representada primeiramente pelas búzios ( nzimbu ) e depois também por missangasde vidro por nós introduzidas, por barrinhas de latão, por espingardas, por cobertores, por medidas certas de tecido e por fim, já no final do século XIX, por dinheiro nosso ou do Estado Independente do Congo. Actualmente todas as transacções são realizadas a dinheiro. 

 

Os mercados actualmente9 existentes na Damba e no Zombo em pouco diferem daqueles que se realizavam antes da ocupação efectiva  Alguns deles, os principais, são já antiquíssimos, a sua fundação é muito anterior a essa época. 

 

Hoje, como sempre, realizam-se em todos os dias da semana conguesa, que sãoquatro: MpângalaKonzo, Nkengue e NsonaPortanto, em cada região há quatro mercados principais, distanciados uns dos outros até 30 quilómetros, e que tomam o nome do dia da semana em que se efectuam a anteceder o do local. Entre os Bazombo, são: Mpangala Zombo, nas imediaçoes de Maquela; Konzo -Kipemba, quase no limite norte do posto sede da Damba; Nkengue-Luvaka, na estrada de Maquela para S. Salvador; e Nsona-Bata  ,junto à fronteira, mas já em território belga . 

 

Na vila da Damba também se realiza, duas vezes por semana, um mercado muito concorrido pela gente dos arredores e que tem a característica especial de funcionar num local especialmente preparado pela Administração, bem arborizado, cercado por uma sebe de buganvílias e onde alguns produtos são expostos à venda em bancadas de cimento e em pavilhões cobertos, simetricamente dispostos. Os indígenas, que antes realizavam o mercado segundo o padrão tradicional, aceitaram com todo o agrado a inovação. 

 

Os mercados do Congo são os espectáculos mais coloridos, mais álacres e movimentados a que temos assistido em África . 

 

Um observador atento tem neles material inesgotável para o estudo da população e da sua cultura. Ali acorrem homens e mulheres de todas as idades e condições, de perto e de longe, evoluídos e atrasados, comprando, vendendo, conversando ou passeando, vivendo, enfim, num ambiente próprio, num à-vontade absoluto e com autêntica naturalidade, uma das instituições mais características da sua cultura. 

 

Ali se podem estudar os tipos físicos, as tatuagens, as mutilações étnicas, os adornos, os diversos vestuários, as formas de polidez e de cortesia, os sistemas de negócio, os produtos da agricultura, da colheita e das indústrias tradicionais, as modificações introduzidas pelo contacto em diversos aspectos da vida da gente do Congo e até, muitas vezes, as danças e as canções. 

 

Quem ouvir de longe o ruído confuso do vozear de milhares de pessoas reunidas num mercado e, aproximando-se, deparar com a multidão compacta que enche por completo o vasto terreiro em que se realiza, pode ter a sensação de que tudo decorre sem organização e sem ordem. Mas se se misturar com os feirantes, se o for percorrendo com cuidado e atenção, indiferente ao penetrante odor composto de exalações dos corpos suados e do enjoativo cheiro da mandioca fermentada, cedo descobrirá que se enganou. Tudo está regulado, todos os produtos expostos à venda se agrupam por especialidades. Numa secção encontram-se os produtos agrícolas, onde dezenas de vendedoras, acocoradas no chão, oferecem a mandioca em raiz, com casca ou já fermentada, ou a sua farinha, o milho verde ou seco ainda na maçaroca, diversas variedades de feijão, molhos de folhas de couve galega ou de rama de mandioca, ervilha do Congo, pequenos tomates, quiabos, canas-de-açucar, batata doce e tantos outros. 

 

Mais além agrupam-se os vendedores de carne de caça, fresca ou  seca, e de animais domésticos acabados de abater, sobretudo de porcos e cabras, não faltando os molhos de tripas ainda com restos da última digestão e que, mesmo assim, assadas nas brasas sem prévia lavagem, constituem um dos petiscos mais apreciados pela gente do Congo. 

 

Perto, rapazes e mulheres expõem enfiadas de ratos assados, ainda com a pele e as vísceras, e grandes quantidades de gordas lagartas torradas ou grilos assados e peixes fumados enfiados em espetos de rama de palmeira. Mais além, montículos de sal e de jindungo sobre grandes folhas e cabaças ou garrafões de malavu de palmeira e de banvo de milho, cerveja gentílica, com os gargalos babados de espuma .

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Um pouco à parte, fica a secção dos produtos da indústria tradicional; os ferreiros, em lugar de destaque, vendem as enxadas, os machados e as facas; ao lado, as mulheres expõem panelas de barro de diversos tamanhas, com ornatos geométricos feitos por incisão, cestos e peneiros de uma espécie de vime e bangos ou balaios de várias dimensões, confeccionados com tranças de caules finos e resistentes de uma gramínea e tão bem acabados que podem conter líquidos . 

 

Homens ou rapazes vendem esteiras bem urdidas, apresentando algumas desenhos geométricos ou zoomórficos, e panos de mabela que foram comprar às terras do  Cuango . 

 

Noutro local vendem-se as roupas e os produtos da indústria ocidental. É esta a secção em que predominam os prósperos comerciantes e os seus agentes. Alguns existem que movimentam por ano muitas centenas de milhares de escudos de mercadorias. Aqui se vendem casacos, calças, sobretudos, casacas, smokings, fardas berrantes e toda a casta de roupas usadas, idas da Europa e da América, e também calças, calções e camisas para homem ou quimonos para as mulheres, tudo obra dos alfaiates indígenas, e ainda tecidos de algodão pintados, de vivas cores e interessantes padrões. Não faltam também os cobertores de lã ou de algodão, as colchas, as carteiras, os cintos, os colares de missanga, os anéis de estanho, pratos, copos e outros utensílios de louça, vidro ou esmalte. Aparecem até, por vezes, fonógrafos e respectivos discos e, mais raramente, máquinas de costura de manivela. De tudo se vende e para tudo há compradores. Ainda há poucos meses um missionário da Damba me informou de que tinha encontrado à venda, numa das quitandas, alguns exemplares do Perfeito Secretário dos Namorados ! 

 

Como não podia deixar de ser, não faltam também géneros alimentares de consumo imediato, destinados a saciar o apetite despertado pelas longas caminhadas e pelo ar estimulante das frescas manhãs do Congo. Além das bananas, do amendoim torrado e da kikuanga11não faltam guisados de carne12 ou de peixe seco nadando em espesso molho de óleo de palma ou de amendoim, bem condimentado com sal e jidungo, e até frituras de uma mistura de peixe seco e farinha, à europeia, conservas em lata e café bem açucarado.

  

Tudo quanto dissemos dá uma pálida ideia da maravilhosa cena que um mercado representa ». 

 

 

 

 

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