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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Damba,1945-1953 (16)

Publicado por Nkemo Sabay activado 5 Abril 2011, 12:19pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos da Damba

Por Dr MANUEL ALFREDO DE MORAIS MARTINS.(Administrador da Damba 1945-1953).

VIDA FAMILIAR E VIDA SOCIAL (3)

Dambianos de origem lusitana.

Os dambianos de origem lusitana,em 1947

 

Mas voltemos à Damba e à alusão a vivências em que figuram os outros dois chefes com melhor preparação académica. Ambos estiveram colocados no posto de Camatambo, um deles até ser transferido para o posto de 31 de Janeiro e o outro por ter sido promovido a secretário de circunscrição e colocado em Benguela. O primeiro era um funcionário muito competente e com boa preparação literária adquirida no Seminário das Missões, de Cernache do Bonjardim, e oficializada depois através de um curso comercial que funcionava em Moçâmedes. Chamava se João Marques Proença e da sua actuação não há que destacar qualquer episódio pitoresco, do tipo dos que tenho relembrado, mas apenas dois de outra natureza e que reflectem bem as vicissitudes que as condições de isolamento, as precárias instalações e a deficiente assistência sanitária impunham ao viver dos funcionários que serviam no interior de Angola e, em especial, dos do quadro administrativo.

 

Em certa ocasião, estando o chefe Proença ausente do Posto, por ter ido a Luanda, em serviço, a então única filhita do casal adoeceu gravemente, com alta febre e frequentes convulsões. Como no posto não existia nenhuma formação sanitária e era de todo impossível o pronto pedido de socorro médico, dada a inexistência de telefone e até de qualquer veículo automóvel, a Senhora D. Rosa Proença e a irmã que com ela vivia, entraram em pânico e resolveram pôr se a caminho da Damba, que distava mais de vinte quilómetros do posto. Na companhia do criado e de um cipaio, lá seguiram a pé, levando a criança ao colo ou deitada em improvisada tipóia que aqueles transportavam. Foi uma viagem bem penosa, em fria e húmida noite de cacimbo, sempre com receio de maus encontros com algum leopardo ou pacaça ferida, e marchando com a dificuldade própria de quem não está habituada a tão demorado e cansativo exercício. A acrescer ao esforço físico, o receio, sempre presente, de um agravamento da doença. Entraram na Damba já com o sol nascido e foram logo atendidas pelo médico que, através do relato dos sintomas que o mal tinha sucessivamente apresentado, prontamente concluiu tratar se de febres recorrentes, transmitidas por carraças da variedade que em Angola é conhecida por mabata Trata se de um ácaro hematófago que vive nas residências, escondido em frinchas durante o dia e atacando o homem durante a noite para lhe sugar o sangue. O médico quis confirmar o diagnóstico e pediu­ me para averiguar se na residência do posto havia na verdade mabatas e, em caso afirmativo, obter algumas para observação. Na primeira visita que depois fiz ao posto, perguntei ao cabo dos cipaios se seria possível apanhar algumas mabatas. « É para já senhor administrador.» E imediatamente se pôs a esgravatar na junção da parede de adobes com o pavimento de betonilha, quase a esfarelar se por terem poupado cimento quando da sua aplicação, e num abrir e fechar de olhos apanhou mais de meia dúzia de ácaros que, metidos em caixa de fósforos vazia, levei para a Damba para entregar ao Delegado de Saúde.

 

Cerca de um ano depois, e estando o chefe Proença já colocado no posto de 31 de Janeiro, a esposa chegou ao termo de nova gravidez e foi para a Damba para ali se efectuar o parto, com a assistência do médico, ficando hospedada em nossa casa. Por coincidência, a hora chegou precisamente no dia da visita pastoral do Senhor Arcebispo D. Moisés Alves de Pinho que por o seu quarto ser contíguo àquele em que decorria o trabalho de parto, teve de ouvir as lamentações da parturiente até que aquele foi concluído. A Maria Helena e eu também estávamos incomodados com a ocorrência e muito mais o estaria a paciente. O Senhor Arcebispo é que aceitou com total lhaneza o, para ele, inesperado acontecimento.

 

O outro chefe do posto de Camatambo a que atrás aludi, Mário Ferreira Gonçalves, de seu nome, era diplomado com o curso superior colonial e irmão de dois outros funcionários administrativos: o inspector Octávio Ferreira Gonçalves, que também possuía o mesmo curso, concluído anos antes, e que na altura desempenhava as funções de Curador dos Negócios Indígenas na colónia de S. Tomé e Príncipe, depois de ter passado por Angola e Moçambique, e o chefe de posto Rui Ferreira Gonçalves.

 

A sua adaptação ao meio e à função pareceu um tanto difícil nos primeiros dias que passou na Damba, após a apresentação na Administração, ido directamente de Luanda logo a seguir ao desembarque. As informações que em Luanda lhe tinham dado sobre o posto, levaram no até a pôr a hipótese de desistir da carreira e de regressar imediatamente a Lisboa. Com muita serenidade e espírito de camaradagem, fui procurando afaze lo, aos poucos, à realidade da vida de um funcionário administrativo, com as suas dificuldades mas também com os seus aspectos positivos e até aliciantes.

 

Não o atirei logo para o isolamento do posto e fiz dele um colaborador de todas as horas, iniciando o nas lides burocráticas com a ajuda do secretário da circunscrição, também nosso colega de curso, e levando o comigo em todas as deslocações que tinha de fazer, quer nas visitas aos outros postos ou às plantações de café de europeus, quer no contacto com as populações rurais. Ao Camatambo, seu posto de destino, só o levei alguns dias após a chegada e quando já se ia habituando à vida no mato africano. Estava instalado no hotel da terra mas quase todos os dias jantava na minha casa e conosco passava o serão. Moço muito inteligente, educado e espirituoso, era para nós uma bem agradável companhia.

 

Passado algum tempo levei o novamente ao posto, com o aspirante que, interinamente, estava por ele responsável, para que este lhe fizesse a entrega dos livros, valores e móveis da secretaria e também de todo o recheio da parte do edifício destinada a habitação. Lá os deixei e, passados dois dias, voltei ao Camatambo para os levar de novo para a Damba onde o Mário Gonçalves permaneceu mais um curto período, findo o qual o fui deixar no posto para definitiva fixação. Ali ficou entregue a si próprio, sem qualquer contacto com a Administração. Passados uns oito dias recebi dele uma carta em que já se mostrava bem ambientado e me pedia o envio de alguns sacos de cimento, de pincéis e de quaisquer restos de tinta que tivessem sobrado de obras anteriores, pois desejava começar a melhorar as instalações. Muito me agradou a reacção e, de mim para mim, fui forçado a concluir: "temos homem"

 

O pedido foi imediata e integralmente satisfeito e com acréscimo de outros materiais e ferramentas que considerei necessários. Alguns dias depois, fui ao Camatambo e dei com o Mário, empoleirado em tosco andaime, a ultimar a pintura do tecto da sala de jantar. Aconselhei­o a refazer integralmente os pavimentos de todas as divisões e a acrescentar lhes rodapés, também de argamassa de cimento de bom traço, na tentativa de se acabar de vez com os refúgios de mabatas a que em outro passo aludi.

 

O entusiasmo que punha na melhoria das condições de habitabilidade da casa tinha muito a ver com a próxima chegada da noiva que deixara em Lisboa e com quem casou, por procuração, passado pouco tempo.

 

E quando regressou de Luanda com a noiva, atirou se com todo o entusiasmo ao trabalho corrente do posto e à melhoria das condições de vida da população nativa, instalando mesmo uma oficina de carpintaria e de móveis de junco que, a exemplo do que acontecia na da Damba, servia de escola para formação de novos artífices. Passado pouco mais de um ano foi promovido a secretário de circunscrição e colocado em Benguela e algum tempo depois foi transferido para Moçambique onde prosseguiu uma brilhante carreira.

 

Um pouco de compreensão e um amigável apoio nos primeiros passos da vida profissional foram o suficiente para que não se perdesse um exemplar servidor do ultramar.

 

Após a saída do Mário Ferreira Gonçalves do posto de Camatambo, foi ali colocado, interinamente , o aspirante Manuel da Silva Barreiros que estava a trabalhar na administração do concelho e cuja esposa, professora diplomada, tinha ajudado a resolver, com brilho, o problema da falta temporária de docente no posto escolar da Damba. Era uma profissional muito competente e uma verdadeira senhora cujas calma e ponderação contrabalançavam o espírito um tanto irrequieto do marido que era, aliás, um excelente funcionário. Tinha o casal três filhos, duas meninas e um rapaz. As duas mocinhas era amorosas, a mais velhita muito sisuda e a outra, que não teria mais do que dois anitos, irradiava alegria. No meio estava o rapazito, com cerca de quatro anos, cheio de vida e de imaginação e com perfeito à­vontade nas relações com os adultos.

 

Eu gostava muito de conversar com ele e deliciava­me a ouvir as histórias que com fértil imaginação ia inventando, desde movimentadas caçadas a elefantes e pacaças até pormenorizada descrição de uma sua viagem à lua, muito embora a quase vinte anos de distância do feito de Neil Armstrong e companheiros. O miúdo chamava­se Acácio Frias Barreiros e veio a ser político de nomeada como deputado pela UDP e com intervenções na Assembleia da República caracterizadas pela frontalidade e pela irreverência.

 

                                                Com colaboração de João Garcia e Artur Méndes.

 


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