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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Damba,1945-1953 (14)

Publicado por Nkemo Sabay activado 24 Marzo 2011, 07:07am

Etiquetas: #Fragmentos históricos da Damba

 

Por Dr MANUEL ALFREDO DE MORAIS MARTINS.(Administrador da Damba 1945-1953).



VIDA FAMILIAR E VIDA SOCIAL.

 

Damba Grupo de habitantes em 1946

   Dambianos de origem lusitana em 1946.

 

A Maria Helena e eu depressa nos adaptámos a viver na pequena comunidade da vila da Damba, composta de apenas oito famílias de funcionários e comerciantes, com educação e desenvolvimento intelectual muito díspares mas aparentemente nivelados pelo sentimento de pertença a um grupo diferenciado, pela procedência, pela cor da pele e pela cultura, da população circundante.

No dia a dia, as relações sociais, para além das visitas protocolares das senhoras quando na Damba alguma nova família se fixava, tendiam a ser comandadas pela existência de barreiras tácitas, agrupando se as famílias dos funcionários administrativos, do médico, do veterinário, da professora do posto escolar e de um dos comerciantes, de um lado, e do outro o enfermeiro, o ajudante de pecuária e os restantes comerciantes.
Cada um destes subgrupos integrava também as famílias negras e mistas que neles se enquadravam. O total nivelamento apenas funcionava em dias ou circunstâncias especiais, como durante a visita anual do Senhor Arcebispo de Luanda, nas raras visitas do governador geral da colónia e, mais tarde, quando da realização de festividades colectivas possibilitadas pela construção de um edifício a esse fim destinado.

Mesmo os rurais africanos reconheciam esta diferenciação e lembro me, a propósito, de que em certa ocasião, o Mandioca, cozinheiro de um dos funcionários, ao achar incorrecto um qualquer procedimento de uma filha do patrão, a ter admoestado desta maneira:" Menina, se volta a fazer isso até parece filha de um comerciante e não de um branco fino."


Só dois anos depois de ter chegado à Damba é que foi instalada a rede de distribuição da energia eléctrica fornecida por um gerador, accionado por motor diesel, que funcionava apenas desde o anoitecer até as 23 horas. Para a fixação da hora de paragem do gerador consultaram se os chefes de todas as famílias e lembro me de que um dos comerciantes alvitrou as 21 horas, por ser essa a hora a que normalmente se deitava.

E muitos outros talvez não tenham feito o mesmo alvitre apenas por vergonha. Como instalámos diversos candeeiros ao longo da única avenida e no adro da igreja, o aspecto nocturno da Damba de todo se modificou. A tal ponto que um cipaio do posto de Camatambo, que tinha vindo em serviço à vila, ao regressar confessou ao chefe do posto a sua admiração pelo melhoramento que encontrara, nos seguintes termos: "Senhor chefe, coisa boa é a luz na Damba Agora, de noite, quem perder agulha pode achar agulha."

Antes disso a iluminação em cada casa era fornecida por candeeiros de petróleo, desde os Petromax, com camisa incandescente, até aos vulgares, com torcida de algodão e chaminés amovíveis.

Durante o dia, o meu trabalho na secretaria da Administração ou em serviço externo preenchia o meu tempo, e a minha mulher, para além da direcção da actividade doméstica, ia se entretendo com a leitura e, nos três primeiros meses, com a confecção de algumas peças de vestuário para o bebé que estava para nascer. Convivia também muito com a mulher do administrador, com quem trocava visitas diárias, e menos assiduamente com outras senhoras. Empenhava se também em instruir os criados na fé cristã, dedicando semanalmente algum tempo ao ensino do catecismo. O cozinheiro, Francisco de seu nome, era natural de Camabatela, ambaquista portanto, e pertencia a uma família com tradição cristã. Assim sendo já não carecia de grandes ensinamentos.Mas o outro criado, mais moço, o Cassa, nunca tivera contacto com nenhum missionário ou simples catequista, aceitava com agrado a catequese. Com agrado e também com o aproveitamento revelado no episódio que vou relatar. A Maria Helena quis saber se ele tinha assimilado as primeiras noções transmitidas e perguntou lhe o que é que sabia sobre a criação do mundo e da humanidade e sobre o pecado original. O bom do Cassa desbobinou aquilo que do Génesis tinha apreendido, terminando com esta tirada reveladora de que bem tinha entendido as consequências do pecado original: "E como o Adão e a Eva desobedeceram a Deus, foram expulsos do paraíso e por isso é que há toda esta chatice do trabalho."

Mas voltemos à lembrança da rotina diária. Aos serões, sem rádio e com iluminação deficiente, iamo nos entretendo com a leitura de algum livro e com a dos jornais que, por atacado, eram trazidos pela camioneta da carreira quinzenal que, como já referi, fazia a ligação da estação do caminho de ferro do Lucala a Maquela do Zombo. À falta de melhor divertimento, também iamos acompanhando o voejar, por vezes
trágico, de borboletas e de outros insectos nocturnos em volta da chaminé do candeeiro. Seguíamos, igualmente, a evolução das simpáticas osgas pelas paredes, sempre à coca de alguma mosca desprevenida. Em uma das noites rimo nos com vontade do percalço que a uma delas aconteceu. Ao avistar aquilo que, na penumbra, parecia uma mosca pousada na parede e em boa posição, iniciou a aproximação, pata ante pata, e ao chegar à distância conveniente, formou o salto para a abocanhar. Mas o pior é que não se tratava de uma mosca mas sim da cabeça de um prego e a boa da osga, ao sentir a dor e porventura o fracasso, se é que as osgas são passíveis desse sentimento, como que envergonhada, correu pela parede acima e foi esconder se num buraco existente na junção desta com o tecto.

Durante meses seguidos as horas de lazer da comunidade da vila da Damba eram poucas e assentavam, quase que exclusivamente, em alguma festividade a que compareciam, também, os habitantes das sedes dos postos, os fazendeiros e famílias e também gente ida de Maquela do Zombo, que era a vila mais próxima. Uma proximidade muito relativa, pois a distância que separava os dois agregados ultrapassava a centena de quilómetros. À gente de Maquela também se juntavam os engenheiros e técnicos superiores das minas de cobre do Mavoio e respectivas famílias. Estas minas eram exploradas pela Empresa do Cobre de Angola, pertencente ao grupo da CUF.

O programa das festas era sempre o mesmo: torneio de tiro aos pombos ou aos pratos, desafios de futebol e de voleibol e serão de convívio, com música e dança e também uma refeição comunitária com petiscos e doces oferecidos pelas senhoras da terra. Em Maquela e no Mavoio igualmente se organizavam festejos do mesmo tipo a que a população da vila da Damba também comparecia.

Para além destas festividades, que nem em todos os anos se realizavam, também acontecia passar pela Damba, lá de longe em longe, um cinema ambulante, com sessões realizadas na oficina de carpintaria e de móveis de junco da Administração, e para as quais cada um dos assistentes tinha de levar de casa a cadeira em que se sentaria.Não faltavam, também, bancos improvisados em que pranchas e tábuas da oficina
assentavam em tijolos ou blocos de cimento. Nessas bancadas se acomodavam os habitantes das aldeias vizinhas que não tivessem levado cadeiras. Os filmes eram velhos e a máquina de projectar já muito cansada, o que ocasionava frequentes interrupções. No regresso a casa, não raras vezes se tinha de procurar, sobretudo nos dedos dos pés, as pulgas penetrantes, bitacaias ou matacanhas, no falar corrente, em início do seu trabalho de penetração na pele para sequente implantação do saco com ovos.

Caso falado e relembrado foi o espectáculo dado por um prestidigitador e entertainer conhecido pelo nome artístico de Professor Ferusa e por um seu companheiro cujo nome já olvidei, e que preenchiam um serão com passes de magia, imitações e canções, em playback, de artistas conhecidos e que eles, com inegável graça, procuravam mimar.

Um fotógrafo ambulante, de apelido Silva e mais conhecido por Silva Batoteiro, que percorria as aldeias à procura de fregueses que necessitassem de retratos para os seus documentos oficiais ou para ostentarem nas suas habitações, quando da passagem pela Damba, improvisava, no Hotel, serões de jogo com uma roleta portátil, com que se entretinham alguns comerciantes e empregados. Era um jogo clandestino mas que as autoridades toleravam por servir de passatempo a quem dele tanto precisava. E dizia se que o bom do Silva, revoltado com o apodo de Batoteiro que o marcava, costumaria dizer: «Toda a gente joga a batota mas eu é que sou o bode respiratório».

Os domingos eram dias de repouso, por todos respeitado, e a residência do administrador funcionava, durante a tarde, como ponto de reunião de algumas das famílias, quase sempre as do médico, do veterinário e do secretário da administração. Conversava se, jogava se alguma inocente partida de cartas e também se merendava. Por vezes servia de anfitrião o médico, o veterinário ou o secretário e, de longe em longe, a reunião dominical era feita em algum dos postos administrativos mais próximos (Camatambo e 31 de Janeiro) e na residência do respectivo chefe.

 

Continua...

 

 

                                              Com a colaboração de João Garcia e Artur Méndes.

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