Overblog
Edit post Seguir este blog Administration + Create my blog

Portal da Damba e da História do Kongo

Portal da Damba e da História do Kongo

Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


DAMBA,1945-1953 (13)

Publicado por Nkemo Sabay activado 12 Marzo 2011, 03:31am

Etiquetas: #Fragmentos históricos da Damba

Por Dr MANUEL ALFREDO DE MORAIS MARTINS.(Administrador da Damba 1945-1953).

 

                                           OS RITOS DE INICIAçÃO DA PUBERDADE.(2)

 

     

                                Bild5.jpg

 

Terminados os ritos e considerados os moços como prontos daquela verdadeira escola da vida e capazes de se comportarem como adultos, tem lugar a cerimónia do regresso à aldeia. Os moços são normalmente pintados e revestidos de vários enfeites, e, no meio de grandes festejos, são recebidos com todas as honras pelas comunidades a que pertencem. Em muitas sociedades este regresso é considerado como que uma ressurreição. A criança morreu e renasce já como homem feito. Naquelas festas, além dos habitantes da aldeia, tomam também parte os amigos e parentes que residem em outros locais. As bebidas tradicionais animam os circunstantes e há batuque e danças próprias da solenidade. Os novos iniciados são os heróis da festa e tudo lhes é permitido nesse dia.

 

Dada a riqueza e o profundo significado destes ritos, não podia acreditar que eles já não tivessem lugar na área da circunscrição da Damba, como se afirmava nos relatórios anuais dos administradores, sabendo que as suas populações estavam rigorosamente integradas na sua cultura tradicional. Resolvi tirar o caso a limpo quando já estava na circunscrição havia mais de dois anos e se tinham estabelecido e firmado laços de amizade entre mim e muitos dos chefes tradicionais. Em conversa com um deles, O soba Kiala kia Ginga, perguntei, a certa altura, se, na verdade, já não se faziam as cerimónias do longo ou mukanda ( circuncisão ). Imediatamente me garantiu ser verdade que ela não se realizavam desde que, anos antes, um administrador as tinha proibido. Passado algum tempo voltei à carga e, em face de nova resposta negativa, só lhe disse que da próxima vez que elas se realizassem na sua área, eu gostaria de assistir. Voltou a negar mas já não com tanta veemência e com um sorriso que me levou a crer que, em breve, a minha curiosidade seria satisfeita. Na verdade, passados meses, na época seca, o Kiala kia Ginga foi ter comigo ao meu gabinete e convidou me a assistir à cerimonia que, dentro de dias se realizaria nas proximidades da sua aldeia. Lá fui e levei comigo a máquina fotográfica para poder mostrar depois ao administrador que não tinha razão ao afirmar, nos relatórios, que o costume desaparecera, e também para ficar com documentação gráfica da cerimónia a que poucos brancos tinham acesso.

 

O acampamento, situado perto da Kimaiala, aldeia do Soba Kiala kia Ginga, estava implantado dentro de alto cercado, feito de paus e caules de gramíneas ligados por lianas e cordas feitas de casca de árvores, e era constituído por alguns toscos abrigos para os iniciandos e seus mestres. Na parte oposta à entrada situava se pequena casa onde se guardavam os objectos de carácter sagrado, ligados ao culto dos antepassados e a outras práticas de cariz religioso ou mágico. No caminho de acesso ao acampamento e no próprio cercado, estavam implantados os sinais indicadores da realização dos ritos de iniciação, destinados a impedir a aproximação de mulheres e dos não iniciados. À beira do caminho estavam cravados um pau com a ponta queimada e um outro mais baixo e mais grosso com a parte superior esculpida em forma antropomórfica. A rematar a palissada do cercado havia varas encimadas por penachos de fibras, fazendo lembrar vassouras.

 

Logo após a minha chegada teve início a prática da circuncisão, antecedida e acompanhada por danças e cânticos ao som de tambores percutidos em ritmo acelerado e de estridentes toques de apitos. O mestre operador foi o meu amigo Camata, hábil escultor de máscaras. Fiquei impressionado com o barbarismo da operação, feita sem os mínimos cuidados de assépsia e inteiramente a sangue frio, admirei a perícia do operador e, mais ainda, a férrea vontade e o estoicismo dos operados, que suportaram o corte do prepúcio sem um queixume. Apenas o mais novo de todos é que, antes da operação, começou em altos gritos ( lueka, lueka29 ) a pedir que o operassem depressa.

 

Desta vez levei comigo mercurocromo e convenci o operador a desinfectar com ele as feridas. Aplicou o, na verdade, mas depois da minha saída não deixou, por certo, de utilizar os remédios tradicionais: cinzas de plantas medicinais, argila e óleo de palma.Após a operação, foram pintados nas caras dos pacientes traços feitos com argila branca. E para impedir que o campo operatório tocasse nas coxas, foram aplicadas, por debaixo do pénis, barrinhas de madeira, mantidas na posição conveniente por dois cordéis fixados às extremidades e amarrados atrás das costas. As coxas já se conservavam forçadamente abertas e imobilizadas através da prisão dos pés a pequenas estacas cravadas no solo em posição conveniente.

 

Comecei logo e continuei, depois, a lançar campanha de persuasão no sentido de a circuncisão propriamente dita ser feita pelo médico, continuando todas as outras práticas rituais a processar­se segundo o esquema tradicional e sem a mínima interferência de gente estranha ao grupo. Não acreditava muito na eficácia da campanha e foi com certa surpresa que, um ano depois, recebi de um outro soba, o de Sala Cussonga, o pedido de comparência do médico na sua sanzala, em determinado dia da semana seguinte, a fim de proceder à circuncisão dos rapazes que tinham chegado à idade de serem submetidos aos ritos de iniciação da puberdade. Lá fui com o médico e um enfermeiro, no dia aprazado. Foi feita a circuncisão de cerca de uma dezena de moços com todos os cuidados da técnica cirúrgica, desde a anestesia local com novocaina, a prévia desinfecção do campo operatório, o corte do prepúcio com instrumento apropriado, a sutura e a aplicação de pensos.

 

Como o número de pacientes era superior ao que prevíramos, acabou se, a certa altura, a novocaina, ficando ainda por operar uns quatro ou cinco. Como o médico não quis intervir a sangue frio, entraram em funções os curandeiros especialistas que, até ai, se tinham limitado a observar o trabalho do colega branco e em atitude que bem revelava a frustração de que se achavam possuídos por se verem arredados da sua prestigiosa actividade tradicional. Imediatamente se abriram os seus rostos, até aí ensombrados, e, com notável rapidez, procederam à operação. O próprio médico não escondia a sua admiração em face da perícia dos quimbandas (30).

 

Passados dias voltámos ao local para serem retirados os pontos das suturas e não sem surpresa verifiquei que entre os operados pelo médico se notavam duas ou três pequenas infecções, enquanto que todos os tratados pelos quimbandas se encontravam quase cicatrizados e sem o mais leve sinal de infecção. A explicação parece fácil em face das circunstâncias que se seguiram à operação. Enquanto que os operados pelo médico se mantiveram com o penso e sem tratamento nos dias que se seguiram à operação, os outros foram quotidianamente lavados e tratados com os remédios tradicionais e de provada eficácia.

 

A campanha de propaganda para a intervenção do médico, só teve êxito, para além deste caso, entre os destribalizados que passaram a afluir ao hospital para ali serem circuncidados. Embora não se submetessem ao rito completo, celebrado segundo os padrões tradicionais, não dispensavam a circuncisão, pois sabiam que nenhuma mulher da região os quereria para marido se não lhes fosse feita tal operação. Para elas, um homem não circuncidado não é um verdadeiro homem e é sempre alvo de troças.

 

E qual ou quais as razões do insucesso parcial da campanha? Não cheguei a apurá las, mas afigura se me que poderá ter sido uma reacção conservadora dos anciãos e dos membros do grupo mais especialmente dedicados às relações com o sagrado, que não veriam com bons olhos a intervenção de estranhos numa das instituições mais importantes da sua cultura, e que, devido à anestesia, punha de lado, logo no início dos rituais, uma das provas tendentes a dar firmeza de ânimo aos jovens, habituando os a aceitar e a suportar virilmente as dores físicas.

 

(30) Quimbanda é termo do quimbundo que significa adivinho e curandeiro e que já entrou no português corrente, encontrando se registado nos dicionários.

 

                                                                   Em colaboração de João Garcia e Artur Méndes.

 


Archivos

Ultimos Posts