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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Contactos de Culturas no Congo Português.(30)

Publicado por Muana Damba activado 7 Junio 2012, 03:42am

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

 

CONTACTO DE CULTURAS

                                              NO CONGO PORTUGUES

  ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO.


 

Por Dr MANUEL ALFREDO DE MORAIS MARTINS. (Administrador da Damba 1945-1953).



Alfredo de Morais Martins.

 

 

NAS INTITUIÇÕES SOCIAIS – 2

Devemos frisar que o tráfico de escravos, por ser uma instituição existente na cultura local, não provocou inicialmente qualquer reacção por parte dos Congueses. Os próprios reis o facilitavam, chegando mesmo a fazer remessas de algumas centenas de escravos para Portugal, acedendo aliás aos pedidos dos nossos reis, como no caso de D. Afonso em relação a D. Manuel, o “Venturoso”.

Só depois da sua intensificação, e, sobretudo, dos abusos cometidos pelos seus súbditos no tocante à venda de homens livres, é que o mesmo D. Afonso pediu ao nosso D. João III a aplicação de medidas tendentes a evitar a saída daqueles indivíduos, apresentados aos traficantes portugueses como sendo escravos.

É de justiça salientar que não fomos nós nem os primeiros nem os únicos europeus a exercer o tráfico de escravos no continente africano e que os nossos reis procuraram sempre, dentro da mediada do possível, humanizar as condições em que se realizava. Está sobejamente demonstrado que, mercê desse cuidado, o tráfico de escravos feito pelos nossos negreiros nunca se revestiu da crueza de processos que caracteriza o levado a cabo pelos de muitas outras nações. Por considerarmos insuspeito, transcrevemos o depoimento do missionário belga Monsenhor Cuvelier sobre o assunto feito em nota inserta a p. 232 do seu documento livro “ L’ancien Royaume de Congo”( Bruxelas,1946) : “ Les Portugais avaient beacoup plus que d’autres nations le souci de diminuer les maux de la traite. Dapper énumère toutes les précautions prises par eux avant l’embarquement,á bord des bateaux pour sauver la vie des esclaves. Il ajout: “Tant de soins ne furent jamais donnés par les outres”.

Os escravos do Congo eram apreciados no Brasil pelas suas qualidades. Gaspar Barleus, ao caracterizar, na sua obra “ Rerum per Octnium in Brasilia”, os escravos segundo a região de origem, destaca a aptidão para o trabalho (aptissimi ad opera) dos congueses e Sonhenses. (Citado por Gilberto Freire, in Casa Grande e Senzala) Por outro lado, André João Antonil, no livro “Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas”, diz que “entre os Congos, há alguns bastantemente industriosos e bons não só por o serviço de canna, mas para officios, e para menos da casa”.

Na organização política a nossa influência foi marcante, mas apenas no respeitante ao organismo central, ao “Ntótila” ou Rei, título passámos a dar-lhe.

Quanto à organização regional e local, entrávamos durante algum tempo as suas tendências descentralizadoras, auxiliando o rei na repressão das constantes revoltas, mas não influímos nas suas características próprias, que se foram mantendo quase incólumes até aos nossos dias.

Logo que o contacto afrouxou, as forças desagregadoras que há muito se manifestavam puderam agir livremente e o poder do rei, que havíamos reforçado, foi sendo pouco apouco diminuído até que passou e exercer-se apenas no apertado território que, como vimos no capítulo antecedente, constituía o seu domínio directo.

Passaria a ser apenas um simples chefe local, sem mais poderes nem mais prestígio do que um vulgar soba. A invasão dos “Jagas”, em 1570, ter-lhe-ia dado depois o golpe de misericórdia, dominado e absorvendo a sua gente, se não tivéssemos acorrido a secorrê-lo e a expulsar os invasores.

Evitámos a queda total, mas não podíamos contrariar as tendências descentralizadoras que caracterizam a organização política dos Congueses.

Na realidade, desde há muito, o rei do Congo deixou de ter a mais leve autoridade para além de uma reduzida zona de que S. Salvador do Congo é o centro. A sua influência directa já há séculos que não atinge nem a totalidade do território que hoje constitui o concelho do mesmo nome.

No concelho da Damba, por exemplo, região que noutros tempos dependia das antigas províncias de Mbata e Mpemba, nunca encontrámos qualquer manifestação de dependência do reino do Congo, nem mesmo o mais leve sinal de prestígio do rei.

Em toda a zona habitada por Congueses há, é certo, nas tradições das Kandas, a invocação de Kongo como lugar de origem de todas elas, mas a lembrança de uma unidade política, natural e duradoura, é vaga ou nem chega a existir. Nós, os Portugueses, querendo manter à força uma instituição que, entregue a si própria, teria desaparecido de todo, fomos-lhe dando, ao longo dos séculos e até hoje, um prestígio que não merecia e que agora está a sr aproveitado no Congo Belga como bandeira do movimento nacionalista que pretende a independência imediata de todos os congueses e a reconstituição do antigo reino, como unidade política autónoma. Até o órgão de imprensa, como veremos, tem o nome de “Kongo dia Ngunga”, Congo do Sino, uma designação da velha Banza Congo que o contacto fez nascer. O bimbalhar festivo desses sinos, que, quando foram instalados, chamava os Congueses à união fraternal com os Portugueses sob o signo de uma mesma Fé, vê-se agora transformado, por ironia do destino e mercê, em grande parte, de culpas alheias, em toque de rebate incitando aos seus descendentes à xenofobia.

Quando esboçámos, no princípio deste trabalho, a história da evolução das nossas relações com o Congo, frisámos que no primeiro período do contacto, vivendo um sonho irrealizável, tentámos alargar a “ República Christiana” até aos sertões da África.

Aproveitando a precária organização politica que encontrámos, quisemos transformá-la num verdadeiro reino cristão, testa-de-ponte da conquista espiritual de todo o continente, julgando que a missionação e a introdução dos nossos padrões culturais em breve fariam dele uma réplica perfeita do reino de Portugal. Queríamos fazer uma mutação completa da cultura existente, interessando todas as instituições.

Já vimos que muito se conseguiu no domínio das instituições económicas, não tanto como desejávamos e supúnhamos ser possível, mas só naquilo que não ia inteiramente contra padrões tradicionais ou que a eles se podiam adaptar. Quanto às instituições sociais, já notámos, também no que se relaciona com a organização familiar, que a monogamia que o Cristianismo impunha não foi aceite e que,, no tocante á organização política, os nossos esforços também não foram coroados de êxito. A adaptação da nossa orgânica às instituições políticas tradicionais do Congo deu origem a uma tosca caricatura, como era de esperar.

Continua.

 

 

                                                                      Em colaboração com Artur Méndes

 

 

 


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