Overblog
Edit post Seguir este blog Administration + Create my blog

Portal da Damba e da História do Kongo

Portal da Damba e da História do Kongo

Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


CONTACTO DE CULTURAS NO CONGO PORTUGUES (5)

Publicado por Muana Damba activado 19 Octubre 2011, 03:49am

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

CONTACTO DE CULTURAS

NO CONGO PORTUGUES

ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO.


 

Por Dr MANUEL ALFREDO DE MORAIS MARTINS. (Administrador da Damba 1945-1953).


Alfredo de Morais Martins.

 

 

                                                              ALIMENTAçÃO (2)


 

Apesar de o indígena do Congo designar actualmente o feijão por “ncassa”, aém de outros nomes, este a que Cavazzi se refere não deve ser o feijão vulgar, oriundo da América e por nós levado para a África, pois ele diz apenas que é “símile al nostro fagioulo”. Em Itália o feijão já havia sido introduzido em 1528 ou 1529 e a sua disseminação, ali, deve-se ao Papa Clemente VII .


 Monsenhor Cuvelier inclui os inhames entre as plantas alimentícias cultivadas pelos indígenas do Congo antes da chegada dos Portugueses. Na mais de uma vez referida História do Reino do Congo fala-se no inhame como sendo uma raiz que constituía o alimento quotidiano dos Congueses, a qual era comida assada ou cozida. Essa referência é no entanto feita antes de começar a tratar da agricultura. Cavazzi também não menciona o inhame entre as plantas cultivadas. Somos levados portanto a admitir que o obtinham por colheita, como de resto ainda hoje, em parte, acontece. Das onze variedades de inhames ( Dioscoreaceae) que Jonh Gossweiller indica como existentes em Angola, há oito comestíveis, das quais apenas três cultivadas e, destas, porventura a mais aproveitada não é oriunda de África. É a “Disiosocoreia alata L.), da qual Gossssweiler  diz: “ Esta planta, oriunda da Índia e das ilhas dos mares do Sul, encontra-se hoje dispersa pelas regiões quentes e temperadas do orbe e, em algumas partes, muito cultivada. Os seus tubérculos conservam a vitalidade durante muitos meses fora da terra e foi este motivo que se realizou a sua dispersão pelos traficantes, através do continente africano, antes de aparecer a mandioca e o milho em Angola”. Quer de produção espontânea quer cultivado, o que é certo é que o inhame, planta trepadeira produzindo tubérculos hipógeos ou aéreos, entrava na alimentação dos Congueses.


 Outra planta cultivada era a bananeira, mas não aquela que produz as bananas que normalmente consumimos. As únicas bananeiras cultivadas em África nessa época deviam ser variedades da “ Musa paradisiarca L.”, conhecida por banana pão. As bananeiras desta espécie são consideradas como as primeiras plantas cultivadas pelo homem. Originária da Ásia, entrou em África pelo Egipto e daí se difundiu. “Outros frutos há que se nomeiam Bananas, os quais julgamos serem Musas do Egipto e de Sória;… e são frutos muito aromáticos, e de bom alimento”, diz Pigafetta. Cavazzi faz-lhes referência e indica duas variedades, uma de frutos compridos e grossos, “como il braccio nostro ed há circa due palmi di perímetro” e outra de frutos “ più piccoli, quasi la meta”.


 Cultivaram ainda algumas variedades de abóboras, pelo menos as cabaças ( Legenaria vulgaris Serv.)que aproveitavam como vasilhas depois de secas, como ainda hoje sucede.


 A agricultura era actividade exclusivamente feminina e o amanho da terra limitava-se a uma cava pouco profunda. A História do Reino do Congo (Bibl.Vat) afirma:” São as mulheres  que semeiam e cultivam. Revolvem o solo apenas superficialmente”. Mais adiante insiste: “ Os homens não trabalham. Todo o dia permanecem sentados com as pernas cruzadas. As mulheres trabalham a terra com uma enxada que não revolve mais que a superfície do solo. Elas ocupam-se das culturas alimentares”. Cavazzi traça um quadro muito mais realista do labor feminino e que, mutatis mutandis, ainda hoje é válido: “ Uomini e bestie da lavoro, delle quali esiste piuttosto penúria, no si trovano addetti ai campi: tocca al sesso gentile fino il maneggio della zappa. Le sofferenze delle donne, a questo riguardo, sono incredibili, sfinite debbono riposarsi ad ogni tre o quattro colpi de zappa, e sovente s’abbandonano al suolo finché non si ripgliano in forze. Fanno estrema pena specialmente quando allattano, e peggio se sono incinte. Per tema di lasciare il frutto del loro seno a rischio di essere divorato da belve o da formiche, como narrermo in luogo più opportuno, costumano, le madri, di lascare i bambini cadenti com lunga fascia fino ai lombi, se che, abassando o alzando le spalle, essi trabalzano quà e là, accrescendo la stanchezza e lo sfinimento delle portatrici”.


 Logo aseguir, Cavazzi faz notar que, dada a ausência quase completa de mão- de- obra masculina no amanho dos campos, não é de estranhar que as áreas cultivadas sejam pequenas e frequentes os períodos de escassez. Nessas ocasiões tinham de alimentar-se quase exclusivamente de ervas até à maturação das searas, pouco faltando para morrerem de fome. Pragas  de gafanhotos aumentavam a carência. Deste passo se pode inferir que o homem não era totalmente alheio aos trabalhos agrícolas, o que está em inteira concordância com o que ainda hoje se passa com todas as populações atrasadas; ao homem cabem alguns trabalhos preparatórios das lavras, sobretudo a derruba de árvores e o corte de arbustos. Outra conclusão a extrair é a de que não guardavam quantidades suficientes de géneros, ou por as produções serem escassas ou por não usarem ainda celeiros. De resto, um passo da História do Reino do Congo é bem elucidativo a este respeito: ” Eles não cuidam de guardar coisa alguma para amanhã. Quando têm vitualhas, comem tudo num dia e jejuam depois”. Cavazzi, no entanto, fala mais adiante da existência de algumas vasilhas destinadas à guarda de raízes, sementes, legumes, unguentos, óleo, etc. Devemos notar que se refere a simples vasilhas (zuchette)  e não aceleiros, podendo portanto deduzir-se que serviriam apenas para guardar pequenas quantidades, logo após a colheita.


 Além da enxada, a única alfaia empregue era uma espécie de machado de ferro destinado a rachar lenha e, por certo, a cortar paus e que usavam também nas viagens e na guerra.


 Uma operação preliminar da preparação da terra era a queimada. A ela se refere a História do Reino do Congo “ Todos os anos é necessário queimar o capim, porque cada ano ele fica mais alto do que um homem de grande estatura”. Cavazzi também alude às queimadas.


 Para a farinação usavam pilões de madeira, onde os cereais eram grosseiramente triturados; moíam-nos depois numa pedra escavada até reduzirem quase a pó.

 

 

                                                                     Em colaboração de João Garcia e Artur Méndes.

 

 

 


Archivos

Ultimos Posts