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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


CONTACTO DE CULTURAS NO CONGO PORTUGUES (1)

Publicado por Muana Damba activado 29 Septiembre 2011, 14:37pm

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

 

Por Dr MANUEL ALFREDO DE MORAIS MARTINS. (Administrador da Damba 1945-1953).


Alfredo de Morais Martins.

 

 

Introdução.


A EVOLUÇÃO DO CONTACTO

 

Segundo as tradições indígenas e alguns documentos do século XVII nelas baseados, o estabelecimento dos Congueses na região que hoje ocupam, e que já ocupavam no tempo da descoberta, deve datar do final do século XIII.


 Quando Diogo Cão aportou ao Zaire, em 1482, entrou logo em contacto com a gente da terra. O chefe daquela região ribeirinha, denominada de Soio ou Sonho, era dependente de um outro mais poderoso que vivia no interior, numa povoação denominada Mbanza Kongo. As relações foram tão amistosas que Diogo Cão, de acordo com aquele chefe, conseguiu trazer para Lisboa alguns indígenas e deixou em terra alguns portugueses para explorarem a região. Passadas quinze luas, como havia prometido, voltou novamente ao Zaire e com ele regressaram os pretos que havia trazido. Vestiam à europeia, já falavam  o português  e contavam maravilhas do que haviam visto e da forma como tinham sido tratados. Os marinheiros que haviam ficado no Zaire e que se tinham internado até Mbanza Kongo, a fim de conhecerem o respectivo chefe e lhe oferecerem presentes em nome do rei de Portugal, também ali tiveram óptimo acolhimento.


 Assim se iniciou pacificamente, sob o signo da mútua confiança, o longo processo de contacto que, com maior ou menor intensidade, se havia de manter até aos nossos dias.


 Com Diogo Cão vieram para o reino mais indígenas, alguns da família do chefe principal, que nós passámos a tratar por rei do Congo, e que em Lisboa foram instruídos, educados e baptizados.


 Em 1490 segue para o Congo uma verdadeira expedição, de carácter inteiramente pacífico e cujo fim primordial era estabelecer mais fortes relações de amizade com o rei do Congo e iniciar a evangelização e a valorização da terra e das gentes.

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 Dessa embaixada faziam parte fidalgos, missionários e artífices, não faltando também mulheres para ensinarem as da terra a amassar o pão. Satisfazia-se o desejo do rei, que, por intermédio dos primeiros portugueses que o visitaram, havia solicitado o envio de missionários e também de “Mestres de Carpentaria, e de Padraria pêra fazerem Igrejas, e outras Casas d’Oraçam, assim como as havia nestes Regnos: e também lhe enviasse Lavradores pera amassarem bois, e lhe ensinarem o proveito, e culto da terra. E assi lhe mandasse alguns molheres pêra ensinarem aas do seu Regno amassr pam, porque folgaria, que com toda a possibilidade, seus Regnos de Portugal “.


 Com esta embaixada regressaram também os indígenas que se encontravam em Lisboa.


 Depois de uma pequena estadia no desembarcadouro do Zaire, durante a qual foi baptizado o chefe local, com o nome de D. Manuel, seguiu a expedição civilizadora para a Mbanza real. Foi recebida com entusiasmo indescritível e iniciou logo a sua acção. Passado pouco tempo, foi baptizado o rei, que recebeu o nome de D. João.


 Decorrido algum tempo, como era fatal, o rei do Congo e muitos dos seus súbditos começaram a verificar que o modo de vida imposto pela nova religião não se adequava aos padrões tradicionais da cultura local. Decresceu o entusiasmo e entra-se até numa fase de hostilidade, mais ou menos declarada, contra os missionários. Quase todos abandonaram o Mbanza Kongo e começaram a catequizar no interior. Alguns seguiram para a região de Nzundi, chefiada por um filho do rei e que, mais tarde, lhe veio a suceder, após sangrentas lutas com um irmão, chefe dos elementos conservadores da população que regiam contra a modificação dos costumes ancestrais imposta pela nossa religião.


 Entretanto toda a população mantinha cordiais relações com os portugueses que se dedicavam ao negócio e que, a troco de marfim, panos de fibra de palmeiras, peles finas e manilhas de cobre, iam introduzindo mercadorias da Europa. Estas relações eram naturalmente aceites pela generalidade da população, porque, além de não violentarem os traços fundamentais das suas instituições, lhes proporcionavam a oportunidade de entrarem na posse de tantas maravilhas que fascinavam as suas imaginações e de alguns artigos realmente úteis.


 Com a subida ao poder do novo rei, que recebeu o nome de D. Afonso I, o contacto entre as duas culturas em presença entrou num período da sua maior pujança. Este chefe indígena era dotado de admiráveis qualidades de receptividade e, tendo-se convertido ao Cristianismo e estando plenamente conquistado pela superioridade da cultura portuguesa, queria transformar integralmente a fisionomia do seu reino, fazendo dele um retrato fiel do reino de Portugal.


 Como verificaremos noutros passos deste trabalho, os seus intuitos não foram atingidos, porque a cultura de um povo não se pode transformar na curta duração de uma existência humana, não pode abandonar os seus padrões e substitui-los pelos de outra muito diferente e, em certos aspectos, antagónica.


 Além disso empregou a violência, como veremos mais adiante, para fazer desaparecer as práticas e os símbolos religiosos tradicionais. Disso resultou, como não podia deixar de ser, uma reacção intensa por parte da grande maioria da população e talvez até um efervoramento das crenças antigas, como tantas vezes tem acontecido em situações idênticas.


 Foi durante o seu longo reinado (1506 – 1543) que D. Manuel I enviou ao Congo Simão da Silva para lhe servir de conselheiro e o ajudar a governar os seus domínios segundo o molde português.


 Nesta época pretendia-se estabelecer entre os dois reinos uma aliança, sem haver da nossa parte um intuito de conquista ou de ocupação militar.


 O presolitismo que animava os nossos reis queria transformar a precária organização política que encontráramos no Congo num reino civilizado que servisse de baluarte do Cristianismo e de base da futura expansão do Reino de Cristo a todo o continente africano, constituindo ao mesmo tempo uma zona de expansão natural para o nosso comércio.


 Desejáva-se estender à África a Respublica Christiana.


 O Regimento dado por D. Manuel I a Simão da Silva, no qual se davam instruções completas e minuciosas sobre a maneira como deviam ser conduzidas as relações com o reino do Congo, constitui um admirável documento pelo qual se pode avaliar o espírito que orientava a actividade colonizadora de Portugal. Era o puro colonialismo missionário, baseado na ética cristã, que pelos séculos fora viria a caracterizar sempre as nossas relações com os povos atrasados.


 Ultrapassaríamos a finalidades deste pequeno esboço histórico se nos detivéssemos na apreciação deste Regimento. A ele nos iremos referindo, na sequência do trabalho, sempre que seja oportuno ou necessário.
 Após a morte de D. Afonso, a intensidade da acção civilizadora decresceu bastante, não só por os seus sucessores não possuírem qualidades que se comparassem com as suas, como também por termos de atender à colonização de outros territórios, sobretudo do Brasil. Além disso, íamo-nos compenetrando de que a transformação integral e rápida das instituições locais era uma miragem irrealizável.


 Continuou a evangelização, com altos e baixos na sua intensidade e até entremeados por soluções de continuidade, e mantiveram-se as relações comerciais, tanto nos centros principais como nos sertões. Imperava agora o tráfico de escravos, pois as plantações do Brasil demandavam abundante mão-de-obra. Como veremos a seu tempo, os reis reagiam contra certos abusos cometidos neste negócio, mas apenas contra abusos, porque a instituição da escravatura existia também na cultura local. 

 

 

 

                                                      Em colaboração de João Garcia e Artur Méndes.

 


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