Overblog
Edit post Seguir este blog Administration + Create my blog

Portal da Damba e da História do Kongo

Portal da Damba e da História do Kongo

Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


As viagens no interior da Damba.

Publicado por Nkemo Sabay activado 7 Enero 2011, 07:43am

Etiquetas: #Fragmentos históricos da Damba

 

Por Dr MANUEL ALFREDO DE MORAIS MARTINS.(Administrador da Damba 1945-1953).


Só doze anos depois, ao empreender pesquisas aprofundadas sobre a interinfluência cultural que marcou o contacto dos portugueses com os congueses, é que tive oportunidade de me debruçar com detença sobre os reflexos permanentes desse contacto em vários aspectos da cultura da gente da Damba, entre os quais detectei a existência de centenas de termos de origem portuguesa integrados no falar local, após natural adaptação às sua particularidades fonéticas. Estes termos estavam sobretudo ligados a novidades introduzidas pela colonização portuguesa em diversos aspectos da vida material, social e religiosa, com destaque para os relacionados com a vida material. 


Cubata

 

 

Quando , já noite velha, o cansaço provocado por um dia de intenso trabalho de notação de dados estatísticos ou por longa jornada, não permitia a continuação da conversa com os velhos informadores que me iam desvendando os mais variados aspectos da cultura local, armava a cama de viagem na cubata posta à minha disposição pelo soba da região ou pelo chefe da povoação onde tinha decorrido o recenseamento, e depressa entrava em bem tranquilo sono que se prolongava até ao amanhecer do dia seguinte.  Sempre me senti em plena segurança naquelas cubatas de pau a pique, com frágeis paredes revestidas de capim e com a tosca porta apenas encostada. A espingarda ficava sempre à guarda do cipaio na cubata a ele destinada. A cama de viagem ou burro, pouco cómoda , era constituída por um rectângulo de forte lona, apoiado em três suportes de madeira, articulados, em forma de tesoura, que de manhã eram encolhidos, metendo-se o conjunto em saco próprio para fácil transporte. Este saco, o caixote com os trastes de cozinha e os alimentos e condimentos indispensáveis e a mala com a roupa, eram transportados por um grupo de carregadores, sempre os mesmos durante toda a campanha e todos eles residentes na sanzala do mais prestigiado mfumu a txi da região da Damba, o velho e cego D. Miguel Naconge, que já exercia aquelas funções antes da ocupação definitiva da zona. Este trabalho dos carregadores era considerado como de prestígio, sendo sempre muito bem tratados e alimentados em todas as sanzalas em que pernoitávamos. Além desta tarefa, tinham também a seu cargo o serviço da tipoia ou machila, semelhante às usadas na ilha da Madeira para transporte de turistas e que eu apenas utilizava na travessia, a vau, de cursos de água onde não existisse ponte pênsil. Estavam isentos do pagamento do imposto pessoal e no final do recenseamento eram premiados com uma boa gratificação. Estes homens também tinham a seu cargo o transporte do seu soba, D. Miguel Naconge, quando se queria deslocar à Administração ou a qualquer das suas povoações, já que ele, devido à idade e à cegueira, tinha dificuldade em se locomover. 

 

Mas, como atrás ia dizendo, o tranquilo e profundo sono não possibilitava o conhecimento do que, durante a noite, ocorria na cubata onde me abrigava. De uma vez, na povoação de Banza Ncaca, da região do Huando de Baixo, ao acordar dei com o forro do chamado capacete colonial completamente roído pelas baratas, durante a noite. O salgado da transpiração transformara o tecido em apetitoso manjar para os vorazes insectos. Em outra ocasião, na povoação de Bulo Matumbi, nos morros do Pete e junto à estrada que da Damba seguia para o Bembe, ao acordar não dei com as peúgas que, na véspera, tinha deixado junto das botas. Uma cobaia de estimação do dono da cubata e de cuja presença eu não me apercebera, tinha-as levado e escondido num dos cantos, atrás de pequena mala. 

 

Mas, de longe em longe, também acontecia ser acordado por alguém da sanzala que, com todo o cuidado, esgravatava na porta e em voz baixa me chamava. Tratava-se sempre de alguém que , por qualquer ressentimento, pretendia denunciar alguma irregularidade do soba ou do chefe de povoação. Uma noite, na povoação de Pelo, sede do já referido sobado do Pete, fui acordado por um residente que me quis informar de que o soba Pedro Cussonga estava a esconder a presença de um rapaz, regressado do Congo Belga, cujo nome e filiação me indicou. No dia seguinte, ao fim da notação dos nomes dos moços que tinham chegado à idade de pagarem imposto, perguntei ao soba se não se tinha esquecido de ninguém. Perante a sua resposta negativa, limitei-me a indagar, com toda a naturalidade, onde estava o tal rapaz regressado do Congo Belga. Ainda tentou persistir na negativa, mas perante a minha insistência e os gestos e expressões de admiração dos circunstantes por eu estar a par da sua tentativa de escamoteação, meteu os pés pelas mãos, fingindo ter-se esquecido de o indicar. O meu  informador nocturno que se havia colocado mesmo em frente da minha mesa de trabalho, era dos que mostravam maior admiração, batendo com a mão direita na boca, em sinal de espanto por eu ter adivinhado a tramóia.

   

Ao recordar estes trabalhos do recenseamento e que, por acréscimo, constituíam também, como já referi, verdadeiras campanhas de investigação etnográfica, vão-me acudindo à memória episódios que alteravam o esquema da rotina diária. 

 

Certa vez, estava eu na sede do sobado do Cusso-Madimba, sobranceira ao vale do rio Lefunde, afluente do Mbridge e de onde se descortina maravilhosa paisagem, tendo por fundo a serra da Canda e, mais próxima, uma extensa e fértil planície que se espraia ao longo daqueles rios.

  

Quase ao declinar do dia, comecei a notar um certo alvoroço entre os circunstantes. Indaguei de que se tratava e logo o soba Luvumbo me informou de que se estava a aproximar um automóvel. Eu nada de estranho ouvia e mais uma vez me admirei da apurada acuidade auditiva que, a par da visual, caracteriza a população rural africana. Passado algum tempo, comecei a notar o distante som de um motor de automóvel e depois a poeira levantada pela sua movimentação, e depressa chegou à aldeia o velho carro da Missão Católica de Maquela do Zombo, conduzido pelo único sacerdote nela em serviço, o Padre Benevenuto dos Santos, que tinha a seu cargo a evangelização do concelho do Zombo e da circunscrição da Damba, área extensíssima, que a norte confinava com o Congo Belga,  a leste terminava no limite do posto do Cuilo Futa com a circunscrição do Cuango, e depois, já na área da Damba, com a circunscrição do Pombo, a oeste com a circunscrição de S. Salvador do Congo e a sul com os concelhos de Ambaca e do Uige. 

 

Vinha o Padre Benevenuto em viagem de catequização.  Com o apoio do soba Luvumbo logo o convidei a ficar na cubata que me estava destinada e a compartilhar do meu frugal jantar que, nesse dia, foi enriquecido por sobremesa constituída por um pouco do vinho fino destinado à celebração da eucaristia. Na manhã seguinte, após a missa em que participei, o sacerdote reuniu os cristãos ali existentes e averiguou, entre as crianças, os progressos da aprendizagem da leitura e da escrita e também dos fundamentos da doutrina católica que o catequista local lhes ia transmitindo. 

 

E vem a propósito recordar o quanto custava, a minha mulher e a mim, como católicos praticantes, a falta de prática religiosa comunitária nos três primeiros anos de permanência na Damba. No primeiro ano, só em Agosto, quando da visita pastoral do Senhor Arcebispo de Luanda, D. Moisés Alves de Pinho, pudemos tomar parte na eucaristia., aproveitando-se também a oportunidade para levar à pia baptismal a nossa filha primogénita, a Ana Maria, nascida no mês anterior. 

 

Nesta mesma operação de recenseamento na região do Cusso, procurei satisfazer um pedido de Monsenhor Manuel Alves da Cunha que foi, durante largos anos, vigário-geral da diocese de Luanda e era um dos mais destacados estudiosos da história de Angola. O pedido tinha-me sido transmitido pelo Rev°. Cónego Barata, superior da Missão Católica de S. Salvador do Congo e tratava da localização de uma missão dos padres capuchinhos italianos, edificada nesta região em meados do século XVII. Fui fazendo indagações em todas as povoações visitadas, e na Banza Cusso obtive e confirmei a informação pretendida. O ancião Movodi, chefe de uma das principais linhagens da região, levou-me ao topo de pequena elevação situada à beira da aldeia, dizendo-me que os antigos referiam que ali tinha existido uma casa de brancos que não compravam nem vendiam, e que essa informação, por sua vez, já a eles tinha sido transmitida por outros anciãos, não contemporâneos da presença dos tais brancos. A referência a brancos que não compravam nem vendiam, levou-me a concluir que teriam sido os capuchinhos italianos os tais brancos, e que a notícia havia sido transmitida de geração em geração e que nascera há muito tempo, pois se havia perdido o conhecimento da verdadeira actividade por eles exercida. Transmiti mais tarde esta informação ao padre Hilarino de Cassaco, superior da missão dos capuchinhos italianos fundada na Damba em 1948, e que visitando o local, dali levou uma pedra que viria a ser a primeira a colocar nos alicerces do primeiro edifício de carácter definitivo construíido para residência dos missionários.


A perda do conhecimento da actividade daqueles brancos atribuo-a à antiguidade da construção e também à circunstancia de se ter verificado um hiato de mais de dois séculos na evangelização daquela zona.


Vim mais tarde a averiguar que o missionário capuchinho italiano João António Cavazzi  de Montecúccolo no Nº. IV livro quarto da sua DESCRIÇÃO HISTÓRICA DOS TRÊS REINOS DO CONGO, MATAMBA E ANGOLA, na página 366 do primeiro volume da edição portuguesa  informa que a evangelização do Cusso  se iniciou no penúltimo dia do ano de 1649, com a chegada alí dos Padres capuchinhos Boaventura de Corella e Francisco de Veas. Contudo, em nota de pé de página,  o tradutor afirma que a chegada dos missionários ocorreu em 28 de Dezembro de 1648, de acordo com o testemunho do Padre António de Teruel ,na página 91 da sua DESCRIPCION NARRATIVA DE LA MISION SERAFICADE LOS PADRES CAPUCHINOS Y SUS PROGRESSOS EN EL REYNO DEL CONGO, escrita em 1662-1663 e descoberta  na Biblioteca Nacional de Madrid ( Ms. 3533 e 3574 ). 

 

Mas voltemos à recordação das operações do recenseamento. Para aproveitar bem o tempo trabalhava sempre até ao anoitecer e nos dias em que terminava um sobado, empreendia a viagem para a sede do que, no dia seguinte, começaria a recensear...


Essas viagens nocturnas eram um tanto penosas mas também ofereciam momentos de grande prazer a par de outros de possível risco e em que a adrenalina entrava com força na corrente sanguínea. Em noites de céu sem nuvens, enquanto marchava e ouvia a tagarelice e as canções entoadas pelos machileiros, contemplava, embevecido, o esplendor da noite africana, com o Cruzeiro do Sul a pontificar entre miríades de estrelas. A par do barulho dos nossos passos, ouviam-se, também, inúmeros outros sons, quer o piar ou até o canto melodioso de aves, quer as restolhadas de antílopes em fuga, assustados com a nossa presença. Mas havia, também, o tropear mais forte e acompanhado por vezes de mugidos, que assinalava a presença próxima de manadas de pacaças. E nessas ocasiões aceleravam-se as batidas do coração e um certo receio punha-me todos os sentidos bem despertos.


Nas zonas de mata deparava, por vezes, com o maravilhoso e inesquecível espectáculo de centenas de pirilampos que por todos os lados voejavam, deixando no ar os seus rastos luminosos. Na passagem de cursos de água havia que fazer prodígios de equilíbrio em estreitos e bamboleantes pontões ou atravessar, pouco à vontade, alguma ponte pênsil de lianas. 

 

                       

 

Archivos

Ultimos Posts