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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


As origens do Reino do Congo segundo a tradição oral.

Publicado por Muana Damba activado 27 Septiembre 2012, 04:35am

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

 

Por Patrício Cipriano Mampuya Batsikama


 

Batsikama

 

 

 

O ponto de partida das origens do Kôngo, se escutarmos os depositários de tradições orais ancestrais, é pior do que uma confusão. todavia, todos reconhecem que “Nsûndi tufila ntu, Mbâmba tulâmbudila malu” ou “Ntu kuna ntându, malu mu mayânda ma nzâdi”, ou ainda, “Mpânzu ku ntu, Kyângala kunnima”.


Estas citações constantemente repetidas pelos depositários dos repertórios orais, talvez por confusão, marcam o movimento-mestre, segundo o qual os antigos – aqueles que são simplesmente descendentes – teriam tomado nas ocupações do país. Mesmo os Missionários que recolhem as tradições orais no século XVII ou XVIII, como Bernardo da Gallo, António Cavazzi, entre outros, ouviram estas frases nos Kôngo.


Então, tomando o mapa geográfico do antigo Reino do Kôngo, conforme debuxado pelos autores, observamos, logo, que Nsûndi fica no Norte, Mbâmba no Sul e Mpêmba no Centro. Por esta via, digamos que Nsûndi tem outras equivalências, nas quais Mpânzu e Mpûmbu interviram também, e Mbâmba muda-se com Kyângala (pode verificar-se nos livros da linealogia de Jean Cuvelier e Joseph De Munck. Cf. bibliografia). Comecemos por explicar estes repertórios dispersos e seus contrastes. No seu ilustre Dicionário kikôngo-francês, laman dá os significados a estas palavras que estimamos como raízes de Nsûndi:

sûnda: estabelecer-se, instalar-se, residir;


sûnda: acabar, cessar, terminar;


sûnda: superar, ultrapassar, ser preferível, superior a, melhor do que, ser o primeiro, estar em frente de uma corrida, um concurso, atravessar a água, nadar, flutuar.


tomamos Ntându, Norte, cujas raízes são:


tânda: flutuar, nadar, passar a nadar ou ir aqui e acolá, andar;


tânda: quem é grande;


tândaba: ir aqui e acolá, num lugar certo, num país;


tândula: largar, tornar grande, esticar, aumentar, cercar um país.



Quanto a Mbâmba e yânda (kyângala e Mayânda):

MBÂMBA:


bâmba: colar, fixado pelo barro, agarrar, fechar, apertar;


bâmbakana: associar-se, juntar-se (num trabalho), apaziguar, amizade;


bâmbakasa (enriquecido por bambakana): separar-se, deixar-se, ir cada um para sua costa.



YÂNDA:


(ma)yânda: começo, origem, princípio, razão, causa, fundamento;


yânduka (yândula): sentir calor, muito calor; aquecer-se, derreter- se como a banha (ao sol), aquecer;


yândula: retomar, propagar, divulgar.


KYÂNGAlA:


ky-ângala: suor, transpiração, calor, atmosfera sufocante;


yângala: o que é grande;


yânga(la)kana (não existe no dicionário laman): estender-se, retomar-se como uma planta trepadeira. Sinónimo de yânzakana (cf. laman): estender-se como uma planta trepadeira, variante de yânzama;


yângama (verbo de estado de yângika): flutuar sobre (uma superfície liquida), visível, estar elevado, gigantesco; yângama: largar-se.

Estas contiguidades linguísticas autorizam-nos a afirmar que o mundo dos Kôngo não parece começar na Mbâmba, mas sim no Sul. Na verdade, isto refere-se à concepção da cosmogonia dos Kôngo. (Ma)yânda significa o Sul, para além da origem. Portanto, lembre-se ainda que, neste país do sul, informam-nos essas proximidades linguísticas, «faz-se muito calor» (tal afirmação é apoiada pelas palavras yânduka e Kyângala). Aliás, a tradição recolhida por Bernardo Da Gallo e Jerome de Montesarchio, nos séculos XVII e XVIII, copiada e também registada por Monsenhor Jean Cuve-
lier, diz directamente que o país onde o primeiro rei Kôngo estabeleceu a sua capital era Nzânz’a Nkâtu109. Esta palavra traduz-se literalmente “Não tem gente”, gente designando aqui a flora. Os tradutores da Bíblia apoiam-nos verosimilhantemente quando equivalem “DESERtO” a “Nsi’a Nkâtu”110, sendo NZANZ’A NKAtu uma variante. Então, que deserto? O nosso continente tem apenas dois. O Sahara, no Norte, e – a opção menos contraditória – o KAlAHARI, no Sul, por outras palavras, no (MA)YÂNDA.


Na toponímia desta região, os autores assinalaram, e continuam ainda a assinalar, o topónimo de MBÂNGAlA111, exactamente na parte meridional de Angola. Portanto, nos Kôngo, a palavra mbângala designa a época marcada pela falta de chuva, tempo seco e de grande calor (Agosto – Setembro). Além disso, em Kikôngo (conferir nos Dicionários Laman e Bentley), a expressão kuna mbângala traduz-se por há muito tempo. Deste modo, a palavra MBÂNGAlA ainda guarda as sequelas do seu velho sen- tido! E quando Jean Cuvelier fala de KÔNGO-DYA-MBÂNGAlA NZÛNDu TADI e Jean Van Wing do KÔNGO-DYA-MBÂNGAlA como país das origens, segundo foram informados, a língua, portanto, confirma-o literalmente. Desta maneira, perguntamos resumidamente: onde se situam as origens do Kôngo?


De acordo com os elementos da língua aqui analisados, essas origens começam no Kalahari inferior, onde encontramos uma região chamada MBÂNGAlA pelos antigos etnógrafos (Delachaux, por exemplo, assinala-o no seu livro). Hoje, esta região é povoada pelos umbûndu, Côkwe, Nyaneka e Nkúmbe. Os elementos da língua confirmam que mbângala, quer seja palavra abstracta (há muito tempo) ou realidade climática, é a ORIGEM do Kôngo e que o país teria sido constituído aí pela primeira vez.

 

Assim, foi provavelmente nessa região que se fortaleceram as amizades e as fraternidades a fim de evitar ou prever outros turvos. Na mesma altura, tudo indica que teria sido aí mesmo que, pela primeira vez, houve cismo, cujo objectivo parecia ser a extensão, o alargamento do país, assim como o sentido da palavra yângama e yândula acima mencionada.

 

 

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Do outro lado, Nsûndi e Ntându, segundo as suas raízes – sûnda: estabelecer-se, instalar-se, findar, acabar e tândaba: ir aqui e acolá. -, demonstram uma sequência e conclusão de uma obra ou fim de uma História. Ademais, para os Vîli, cidadãos de Lwângu, a palavra Nsûndi significa uma instalação.

 

Vamos abrir parênteses para explicar a palavra LWÂNGU – lu –prefixo que significa acção e – vângu – que deriva de vânga, isto é, fazer, formar, acabar, cumprir, determinar e terminar. Assim, lwângu, em relação a Kyângala (mesma raiz e sentido que mbângala, Mbâmba também consta nesta lista, se bem que com raiz diferente), cujo sentido é o começo, a origem parece, de forma verosímil, precisar a obra de Kôngo como FUNDAçãO DO PAíS DELES. Lwângu está localizado no Norte e Mbângala no Sul. Esta é outra prova evidente que lwângu, semanticamente, significa fim (Norte), em relação a Mbângala, que é o começo (Sul). Fechemos parênteses.


Como afirma Denis Paulme, baseando-se nas vicissitudes das línguas Bantu, “as tradições indígenas são confusas, indicam entretanto que, além dos reinos de Loango e do Congo, os estados poderosos foram
constituídos com as soberanias de origem comum. Por causa da cisão, as migrações sob conduta dos membros da família reais propagariam a mesma civilização do próximo ao próximo”118. No século XV, o Loango e seus tributários foram submetidos ao soberano do Congo ou Manicongo, cuja autoridade se estendia desde Sette Cama do Norte até ao Alto Zambeze”.


Denise Paulme, apesar de ser cientista que já mereceu o direito nas civilizações africanas, escreve estas linhas tendo em mente todas as ironias a respeito da tradição Oral. Até mesmo o grande historiador africano Joseph Ki-Zerbo (Histoire de l’Afrique, Payot, Paris, 1979) pensava da mesma forma, isto é, que a tradição oral, por ter conhecido muitas alterações, deve ser escolhida e peneirada. Várias vezes, a falta de método compatível obriga qualquer cientista até sapiente a pensar desta forma. Portanto, ao afirmar que a autoridade de Manicongo, ou melhor, Mani-Kongo foi reconhecida em Alto Zambeze (Yambesi), indica uma ligação entre o Reino do Kôngo e esta região. Os povos daí são Côkwe, umbûndu e até Nyaneka e Nkûmbe. Alto Zambeze situa-se no Kalahari inferior! (sic!). Voltaremos a estudar nos subcapítulos seguintes as afinidades e filiações entre Kôngo-Côkwe, Kôngo-Nyaneka-Nkúmbe e
Kôngo-umbûndu.

 

Extrato do livro: " As origens do Reino do Kongo " editado por:



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