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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


A Revolta dos dambianos não começou em 1961 !

Publicado por Nkemo Sabay activado 5 Mayo 2011, 12:55pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos da Damba

 

Por Dr. Camilo Afonso Nanizau Nsaovinga. 

Dr Camilo Afonso Nanizau.

Nesta data que nos lembramos de todos quantos se bateram pelos ideiais de uma Angola independente em geral e da dignificação da Ndamba em particular. A história da Ndamba(1) está sendo escrita. É preciso continuar a busca dos factos históricos escritos e conjugados com os da oralidade, para que possamos ter uma história com os todos os contributos dos participantes activos e passivos (os detentores da Oralidade, Mbanda-Mbanda, Mfumu za Mavata, za Nzunga, za Makanda, I mpovi, amigos e naturais da Ndamba). A contribuição destes actores todos, permitirá o surgimento da  história da nossa região e não só, tal como nos foi legada pelos nossos antepassados,  antes da presença portuguesa e depois. Os elementos descritivos da região feitos pelos missionários,  comerciantes,administradores, militares e outros que por ali passaram, justificam bem a bravura e a tenacidade das acções dos soberanos e das suas populações.

De relembrar que a Ndamba só ascendeceu a categoria de Circunscrição em 1911, após o acto de bravura levado à cabo pelo Grande Namputu, no Nsangi-Mabubu. A situação do imposto de cubata introduzida e outras acções lesivas à identidade cultural e a soberania da região, fomentaram as mais variadas acções de protesto e de resistência contra a presença portuguesa. O imposto indígena criado em 1906, por Eduardo Costa, como medida de soberania, de educação dos indígenas e de fomento de Angola, foi normalizado por Norton de Matos, então Alto Comissário de Angola, na sua circular de de 17 de Agosto de 1913, onde instruía as autoridades locais no sentido de obterem a cobrança pacífica, com um intuito mais politico do que financeiro, devendo considerar-se como o acto final de ocupação, pacificação e administração das regiões do interior e por isso mesmo só se deve tentar a sua cobrança nas áreas onde aquelas circunstâncias se dêem"(J.Capela,1977,p.86).

É evidente que, para as regiões da Damba, Nsoso, Nkama-Ntambo, Mpombo a situação criada não foi bem vinda. As reações fizeram-se sentir bem cedo. Enquanto em Makela-ma-Azombo, já pagavam o imposto, nestas regiões houve resistências ao pagamento do mesmo. Os Bazombo de Makela farão assim despoletar a "bomba relógio" na região. Hélio Felgas, governador do Distrito do Congo, descreveu o facto ao afirmar: " A própria docilidade dos Muzombos esteve em risco de se quebrar em Maio de 1911, para o que em não pouco devem ter contribuido os exemplos dados pelos povos do Quimbubege e da Damba, vizinhos do Zombo (a ocupação de Maquela fez-se em Março de 1896). Aqueles indo em 1910, armados, a S.Salvador declarar ao residente português local, que não pagariam o imposto de cubata enquanto os indígenas das regiões vizinhas, em especial os da Damba, não o pagassem. Os da Damba maltratando em 1909, o major Galhardo a quem o soba Namputu ofendeu na povoação de Nsangi. Qualquer dos atrevimentos ficara sem correcção com grave despretígio para nós. E os Dambas apodavam os Muzombos de fracalhões e incitavam-nos à rebeldia"(H.Felgas,1958,p.157).

Claro, que a resposta dos soberanos da região da Ndamba tinha a ver com a alteração do quadro político em que viviam. Até 1909 apenas existiam na Ndamba, 4 comerciantes, que pagavam impostos de estadia, ao Soberano Minguiedi Nakunzi, no Kyanica. Morais Martins que foi Administrador da Ndamba, escreveu na sua obra, Contacto de Culturas no Congo Português, o seguinte:" Anteriormente as relações com o colonizador eram apenas comerciais, não havia sujeição a uma autoridade europeia e,pelo contrário eram os comerciantes que dependiam dos chefes indígenas, sendo obrigados a pagar-lhes os impostos. Morreu há poucos meses na aldeia de Kianica,nos arredores da Damba,o Velho "Mfumu - a - nsi" D. Miguel Nakunge, a quem muitas vezes ouvimos relembrar, com saudade evidente, os tempos em que recebia avultados impostos dos comerciantes portugueses estabelecidos no local onde hoje existe a Vila da Damba, e que eram constituídos por espingardas, pólvora, aguardente e panos. Com o estabelecimento das capitanias-mores e dos postos militares, iniciado poucos anos antes, tudo se modificou e criou-se um espírito de reacção contra o domínio directo do Branco e que se fazia sentir por intermédio da cobrança de impostos, de requisição de trabalhadores para obras públicas, de carregadores, etc"(M.A.M.M,1958,p.156).

Minguiedi Nankunzi ( no meio )

                       Soba Mingiedi Nakunzi, no meio, (foto de Morais Martins))

Dentre outros motivos de rebeldia das populações da região da Ndamba e circunvizinhas, estes foram os que originaram, numa primeira fase, a emigração das populações para o Congo ex-Belga. E como segunda fase, as acções levadas à cabo em Abril e Maio de 1961. Como ficou aludido ,a história está a ser escrita com todo o cuidado. Faremos a nossa contribuição para o enriquecimento da nossa história local e regional, e finalmente, deixarmos marcados os elementos históricos da região na História Geral de Angola.

Estes comerciantes natos deixaram as suas marcas no passado, e contribuiram no presente,  com as suas actividades comerciais, venda de mikates, táxi, mercados Cala-Boca, Roque Santeiro, etc, na vida da Nação nos momentos muito dificéis da guerra e não só. O modelo dos Mazandu-Bakongo está presente em todo país. Para finalizar novamente com Morais Martins ao descrever os Bazombo e os Andamba: " Um grupo étnico que cedo se distinguiu nas lides comerciais, foi o dos Bazombo ou Bambata, habitantes da região de Mbata e que hoje ocupam grande parte do Concelho do Zombo e quase todo o posto sede do Concelho da Damba. Foram eles os grandes intermediários do comércio e os maiores difusores de elementos culturais introduzidos pelos portugueses, numa extensa área que vai de S.Salvador ao rio Cuango, na direcção oeste-este, e da região do Sosso (actual 31 de Janeiro), ou ainda mais para baixo, até  ao Zaire, na direcção sul-norte. Na região de Mpangu, que actualmente tem como centro principal a importante povoação de Thysville, no Congo Belga, a influência dos Bazombo era tanta, as visitas comerciais eram tão frequentes, que a Via Láctea, por apresentar no firmamento a mesma direcção do principal caminho trilhado pelas caravanas daqueles caminhantes infatigáveis, passou a ser conhecida por, Nzila-Bazombo, isto é, Caminho dos Bazombo"(1958,p.96).

Estes são os  fragmentos da nossa história que irão contribuir para o lapidar do nosso, Nzila - Bazombo. Lusansu ye Kinkulu kya Nsieto (história e cultura da nossa terra).

Nkinzi wa mbote ye Mavimpi kwa yeno Awonso ba Mpamgi zame,

Kuna kwa weno,

Nanizau


(1) Damba em Kikongo.

 

 

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