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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


A primeira província do Reino do Kongo: KÔNGO DYA PÂNGALA.

Publicado por Muana Damba activado 25 Febrero 2013, 04:04am

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

 

 

Por Patrício Cipriano Mampuya Batsikama

  

Batsikama

 

 

 

Esta província se localizaria na parte de Angola que fica entre as regiões ao Norte do Kwânza até possivelmente mais além do rio Kunene. É possível que nos finais do século XV, aquando da
entrada do reino do Kôngo na literatura europeia, esta parte tenha sido reduzida ou, ainda, repartida naturalmente em “kinkâyi”dispersos, com as consequentes influências do desmembramento territorial, sem no entanto perder o embrionário sentido social e político, tal como ficou patente nos séculos XVI com os Jagas, século XVII com Nzîng’a Mbande e século XVIII com os Imbângala. Eis porque as lendas das origens ainda dão importância à mesma lógica da criação do reino do Kôngo, tal como já o mostramos.

 

Batsikama 9a

 

 

Ponto controverso é a nossa tentativa de localizar no Sul a origem primordial das populações que irão fundar o reino do Kôngo, sobretudo porque a produção científica sobre o assunto não parece bastante e consistente. Contudo, as informações reunidas por Hermenegildo Capello e Roberto Ivens na interes-
sante viagem de exploração antropológica que empreenderam ao sul de Angola88, nos meados e fim do século XIX, são interessantes e bastante encorajadoras para a tarefa que nos assiste. um certo
esforço investigativo ainda será necessário nestes tempos para que se reuna dados que possam ser comparados e confrontar as informações dessa e outras fontes possíveis. Contudo, mesmo em face de tais limitações circunstanciais, podemos aqui abordar com atenção especial esse território meridional angolano, que se chamaria Mbângala, ou Kôngo dya Mbãngala, para reconstruir a sua população e distribui-la ao seu espaço.


Com efeito, comecemos por analisar a seguinte citação de H. baumann:

 

Todo o Sul-Angola estaria ligado com Oeste, inclusive os Ambos estabelecidos no Sudeste africano; encontramos
os (Ovi-)Mboundo, os (A)Mboundous e os Ngangela- Mbouela-Mboundas ao Sul-Este de Angola e os Tchokwe,
Luena, Louimbi-Songo-Mbangala ao Nordeste da mesma província”. “O grupo Ambo, inclusive os Ndonga, o Houmbé, os Hânda e os Ndombe, marca a transição entre os Hereros e os Mboundous90 tanto linguisticamente quer de ponto de vista da civilização.

 

Vamos agora tentar organizar essa balbúrdia de “topónimos” e informações, visando nosso intento. Os Ambos (Ambundu, bambundu), os Mbunda, os Ndundu e mesmo os Humbe (Wûmbu ou Hûmbu), seriam os diferentes habitantes de Mpûmbu de Kôngo-dya-Mpângala.  “Os bambûnda se chamam a eles próprios Ambunu”, escreveu Torday, que aqui seriam as “raças” do Mpûmbu de bandûndu ou Kôngo-dya-Mulaza. Os Padres Luca e Marcellino, dois missionários do século XVII, designam- os Mubûmbi, uma designação que J. Cuvelier e F. bonctinck identificam com bawûmbu. Mubûmbi – que deriva do verbo
bûmba (agarrar, apossar-se, assenhorar-se) – é um sinónimo incontestável de mubûndi ou mumbûnda. À rigor, as tribos de Ngangela (sic), Mbwêla e Ndôngo, por exemplo, só podem ser encontrados, seguindo a semântica, num Mbâmba (no caso da primeira), num Mpêmba (a segunda) e num Nsûndi (a terceira).

 

Batsikama-10.jpga.jpg

 

Do Sul ao Norte, em harmonia com o princípio da emigração, começa-se no Mpûmbu austral (do Kôngo-dya-Mpângala) passando por todo Mpûmbu que incluia, no sentido Este-Oeste, os territórios de Mpûmbu, Ndôngo e lulômbe.


O resto deste Mbâmba seria constituído da seguinte maneira:

 

a) MBÂMBA = colectividades de locais (bairros) de Mbânda e de Mbâmba; a leste, aquelas de Mpângala (Ngangela) e de Ngânda (Hânda); Assim António Cadornega escreve: “…o capitão mor lopo Soares laço fazendo aquella conquista do reino de benguela, muitas jornadas pello sertão dentro, chegará a este caudalozo rio Cuneni, e que outra banda delle tinha suas terras e senhorio hum rei ou apontentado por nome Mazumbo a Calunga”. Este seria o espaço fronteiriço setentrional de Mbâmba de Mbângala
(Benguela): Mazûmbu ou Mayûmbu’a Kalûnga seria o Mpûmbu de Mbâmba Kalûnga.

b) MPÊMBA, terá sido formado pelos bairros de Mpêmba e de Ndêmbo a Oeste – circunscrições que Pigafetta chamou respectivamente de Tshimpemba e Malêmba – e por Mbwêla102 e Kwîmba
(lwîmbi), a leste. Esta zona deveria, de igual modo, ser a parte dos Yaka do Sul do Kunene, sbre a qual falou António Cavazzi, citado também por Planquaert. Aliás, Mesquitela lima publicou as suas
investigações sobre esses Kyaka em obra de três volumes.

c) NSÛNDI, que dependiam dos bairros de Mpûmbu e lulômbe a Oeste; de Matâmba e de Mbêmbe, duas circunscrições que Cavazzi situa ao Sul de bengale (Mbângala), na direcção de Oriente.

 

Depois da fundação do Kôngo-dya-Mpângala, iniciariam as separações internas entre as populações e uma busca de novas conquistas territoriais. Entre os Kwanyama, por exemplo, há muitos antigos relatos desta separação, não obstante misturadas com subsídios mais recentes. E como veremos mais tarde, as
populações «!Kung» ainda lembram do nobre Ding, ou Senhor [de] Tsînga, que se separou da “Assembleia a volta da fogueira” para sair em conquista de outros domínios territoriais. Para melhor
compreensão dessa mistura, é aqui propício decompor essa lenda tradicional em suas unidades oracionais, embora tal exercício não seja cómodo. Comecemos por citar Inância gomes de Oliveira:

 

Atendendo à região, se as condições climáticas permaneceram, era possível que na estação seca ao evaporar-se a água das chuvas encontrassem peixes com abundância nas cacimbas...


A tradição oral conserva a narrativa da separação dos Cuanuama da tribo Donga, do Sodeste Africano, facto que explica a adopção da nomenclatura atribuída a tribo. Não há na realidade um ponto intermediário que
possa explicar o período da dominação do caçador Musindi, a constituição da sua tribo e a separação da
Donga.


Apenas vem confirmar que a família tribal vem do Sudoeste e que sofrendo uma crise de crescimento, e consequentemente alimentar, a Cuanhama se separa, conduzida por um patriarca, à procura de uma terra não-ocupada para se estabelecer.

 

A lenda apenas encerra a separação dos Ovakwanyama – os da carne. Uma fracção da tribo Donga [demando] o Norte para lá da floresta situada à cara de víveres, tendo encontrado grande abundância de caça e peixe, resolveu estabelecer- se, [enviada] esta notícia ao Soba. Quando os emissários trouxeram ordem para que o grupo regressasse à terra ancestral, desobedeceram, [limitado] o antigo chefe apronunciar: “deixai-os com a sua carne.

 

Inácia Gomes de Oliveira sublinha que essa separação dos Kwanyama com os Donga, Kwamati e Divale dataria já na época da penetração dos Europeus no continente negro. No entanto Luc de Heusch, que estuda as origens dos lûnda, conta a mesma “lenda” que alude a uma lagoa a secar por razões climáticas como “motivo” para a migração. Na descrição paradigmática da nossa tabela de comparação analítica, esta “Versão lûnda” estaria na origem dessa migração. Vamos aqui utilizá-la como amostra para análise.


A separação referida seria aquela que: 1) levou possivelmente a instalação das populações Kwanyama onde hoje estão; 2) terá hipoteticamente levado a que essas populações se denominem, ou sejam denominadas, de Kwanyama. Isto indiciaria que haveria antes uma outra designação que os denominava. qual seria?


A emigração sob égide de Musîndi é muito popular entre várias populações na região que vamos agora adentrar (Kôngo-dya-Mulaza), região de entre-Kwângu-Kwîlu. Ora, não só a população dessa região
parece ser anterior a essa época da penetração europeia, como também, diante de dados e artefactos arqueológicos da região dos Kwânama, poderemos possivelmente atestar essa anterioridade.


Com efeito, em Abril de 1999, na fronteira entre as províncias de Huambo e benguela, mais exactamente no município de balômbo, assistimos a escavação de uma sepultura de aproximadamente 1,20cm para o enterro de um cadáver. Durante a escavação apareceram alguns restos de “vasos”, cerca de quatro, que acabamos recolhendo para examinar por curiosidade antropológica. Notamos, entre vários aspectos, que as mesmas apresentavam as características da geometrização Côkwe. Curiosamente os escavadores, ao emergir desses objectos, desistiram de continuar a escavação naquele exacto perímetro  pois, tal como nos foi depois explicado, aqueles objectos eram sagrados por causa dos “desenhos” nele gravados – que o povo foi capaz de reconhecer como tais.


Alguns anos antes disso, como investigadores do museu nacional de antropologia de Angola, já havíamos desenvolvido com base em artefactos arqueológicos vários paralelismos entre as populações Côkwe e Kwanyama: 1) a máscara Mwana pwo; 2) a escultura Cibind Irung, que se confunde com Sîndi (Musîndi) Kwanyâma e Hânda, etc.


Estes factos nos levaram a concluir que, pela profundidade do buraco feito por aqueles escavadores, e aparentando ser um terreno de recente uso como cemitério, pela dificuldade de acesso e distância, é muito provável que esses objectos pertençam a uma época muito distante, podendo mesmo ser muito antes da penetração dos Europeus. Ao perceberem a presença dos objectos, os cavadores exclamaram para os presentes “ilundu!”, nome dado a um tipo de espíritos muito respeitados pelos Kwanyamas.

 

Mas, há uma outra coincidência digna de nota: o terreno em questão fica ao pé duma pequena montanha, áreas tradicionalmente designadas como “kahûndu” ou “kamûndu” naquela região. O mesmo termo (lûndu) designa as palavras “origens” (lûnda ou lûndu nyi Sênga)  e “espíritos” (ilûndu/antepassados).


Na nossa primeira viagem de exploração à região, em 1998, um cidadão Kwanyama de nome Kaluvûndu Pedro, explicou-nos que o povo Kwanyâma já não mais desenterrava os seus mortos respei- táveis. E é provável que assim seja, se levarmos também em conta a conclusão que avançou Verly em 1955, no seu  artigo intitulado “le«Roi divin» chez les Ovimbundu et les Kimbûndu de l’Angola”.


Assim, nessa escavação podemos ao menos hipotecar três versões: 1) pelas pequenas partes dos diferentes vasos desinterrados, tudo indicava – a crer nos estudos de Verly sobre o “rei”
divino – que possivelmente uma população muito próxima dos Kwanyâma terão habitado lá antes da chegada dos Europeus, tal como levou a observar Cavazzi; 2) a separação dos Kwanyâma
de outras populações seria apenas uma questão secundária. 3) O facto de os Kwanyâma reconhecerem as geometrizações Côkwe pode implicar que nos tempos antigos (Era de Musindi?), ambas as
populações ter-se-iam fundido num só povo.


Registo de Codornega em 1681 revela a existência de uma autoridade no Kôngo-dya-Mbângala chamada “Casîndi”, igualmente mencionada nas tradições dos Kwanyama.


As migrações dirigidas pelo Musindi parecem ser atestadas já antes da penetração europeia, de modo que a concentração das populações, com base na arqueologia, situaria essas migrações na antiguidade116, embora um pouco imprecisa pela escassez de dados arqueológicos e incompletude de sistematizações quanto a sua evolução histórica, particularmente no que se refere as proveniências e instalações territoriais. 

 

 

Extrato do livro: A origem meridional do Reino do Kongo

 


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