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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


A linhagem que reina é sempre “estrangeira”

Publicado por Muana Damba activado 10 Junio 2013, 00:21am

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

 

 

Por Patrício Cipriano Mampuya Batsikama

 

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Reza a tradição Kôngo que a Mãe das origens chama-se “Nove”. Para os Kwanyama, essa mesma Mãe chama-se Nyambali. De acordo com a lenda kôngo Mazînga, a Mãe ancestral de todos os Kôngo, tinha nove seios. Semelhantemente Ngambali (Nyambali) é o nome da reunião de nove pedras entre as populações de

Kakôngola (Caprivi/Namíbia), assim como em Kawûndu (!Kaund) das populações vizinhas do parque de Kaudom na Namíbia.

 

De acordo com Inácia gomes de Oliveria,

 

Os  Ova-Kwanhali guerreiros, uma ascendência cujas funções sociais consistiam em harmonizar as discrepâncias sociais e resolver os conflitos que podiam surgir das migrações. Foi essa linhagem que impunha sempre o chefe. O soba Cuanhama diz-se descendente dos  Ova-Kwanhali, que têm predominância na execução administrativa.
 criaram sempre, como pastores.

 

Ainda hoje os sobas (Osoma) das comunidades “zimbabweanas” (bantu) em quase todas regiões fronteiriças entre Angola e Namíbia associam suas origens aos !Kung, principalmente os Hînga (Yînga). Notável é também o facto de os Kwânyama namibianos defenderem até hoje que o enterro do rei MandumeYa-Ndemufayo tinha de ocorrer em Namíbia, e não em Angola, porque é na terra de origem que se enterram os mortos. Assim argumentam porque o rei pertencia ao “clã” de  Ova-Kwanime (Yînga ou Pamba), localizado geograficamente na região de Njiha (Ondjiva, ou Ji/’ha), na Namíbia. Esta situação é de tal interesse no seio  as tradições culturais dos povos da região que circulam entre os namibianos a possibilidade de o “túmulo” de Mandume ya Ndemufayo, situado em Angola, encontrar-se vazio, enquanto outros dizem estar ele enterrado em Angola e na Namibia. Os dois lados destas teses sustentam que um chefe só podia ser enterrado na sua Mulêmba, termo que pode significar, tal como
vimos, 1) terra dos tios maternos, isto é, terra da origem, e 2) colégio administrativo. Com a confusão semântica que os termos Ombala e Mulemba comportam actualmente, é difícil determinar com base neles o local do seu verdadeiro túmulo, o futuro dependendo dos jogos diplomáticos entre Angola e Namíbia.

Na  Namíbia é tradição os sobas das “sociedades bantu” associarem suas origens de realeza aos clãs dos !Kung, tal como indicam as observações de Richard lee e Robert Hicthcock quando escrevem: escrevem: escrevem: “traditions have it that the royal line was founded by marriage between Ovambo men and hunter women”.

 

Tanto para a tradição popular, como para esses autores, as “hunter women” sempre foram de origem !Kung. Do mesmo modo, muitos sobas em regiões como benguela legitimam a sua autoridade
evocando a linhagem real de Mavînga, isto é, Yînga, como sua ascendência. Eis como um dos nossos informantes argumenta: “Muwela era o Ondjango onde íamos resolver os assuntos da terra/país
lá que todos os nossos antepassados iam rezar em hora dos seus, desde Mavinga até Kamunda”.  A Mavînga aqui referida Mwata pertecence ao Kwându Kubângu, enquanto os Mwata eram autóctones
de Mavînga, segundo a tradição dos nossos informantes.

Este dado pode portanto pressupor a afirmação hipotética de que os Mwata são da linhagem de Mavînga, mas apenas suposição – digna de uma investigação académica relevante. Mas quanto ao
Kamûnda, lembrou-nos um Soba de que não se trata dos musseques (bairros) que se encontram nas cidades de benguela e Huila. Para ele Kamûnda significa “pequena Mavînga”, e não “pequena montanha” como nós traduziríamos. Eis o que afirma o soba Kaluvûndu Pedro, para esclarecer: “os Mwâta casaram, fizeram filhos e tornaram-se um povo grande, mas é Muwêla que era o local de encontro. E sempre marcaram sua presença”. quer dizer, os Mwata, que são autóctones de Mavînga,
 foram se estabelecer em Kamûnda, criaram uma outra  Mavînga que a tradição local refere como a
pequena Mavînga, ou ainda a linhagem matrilinear que justifica a autoridade como originária de Mavînga, isto é, dos Ova-Inga de Inância de Oliveira. Assim, os Ova-Kwanhali de Inácia gomes de
Oliveira tornam-se os Ova-Kwankali de Estermann e outros autores anglófonos, sobretudo. A família dos Ova-Inga terá sequenciado a dos Ova-Kwankala, embora seus membros representem diferentes
funções económicas nas suas sociedades (os primeiros são caçadores e os segundos são pastores).

No Moxico o Soba Sakaya Mwali relatou que “Ma-Kônde era do clã Senga na origem, na região de  lûndu, e por isto reclamou legitimidade perante  Sâ Kalênde, seu irmão mais velho”. Juntando as peças desta locução teremos os topónimos e patronímicos seguintes:  Ma-Kônde, Saka  lênde,  lûndu nyi Sênga. Ora, os Yînga de !Kawûndu (!Kaudom68) em Namíbia são também chamados de “Sênga” pelos Ju/’Hoansi, isto é, como a linhagem-mãe. Curiosamente, «!Kaudom» ou Kawûndu diz-se também Ka-lûndu entre os Kwanyama de Mbukusu (nas duas margens do rio Okavangu), evocando-se aí o mito do herói caçador informado por R. lee.

Não só há vestígios da “etno-história” dos !Kung entre os Kwanyâma, como também estes vestígios estendem-se mesmo aos Côkwe. Indo ao panorama kôngo, pode-se tirar partido destes vestígios da seguinte forma:

1) As populações se reconhecem e se posicionam nas suas funções sociais pelos seus patrónimos (nome da linhagem) que, aliás, regulamentam as redes sociais de relacionamento. É na base disso que todos sabem que apenas os Yînga podiam reinar (administrativa ou politicamente) perante as linhagens Nyômba, Omuramba (que são considerados como “descendentes” de Yînga), Mbukusu (descendentes da linhagem de Pamba), Mongongo (Ngôngolo), etc.

Portanto, os da linhagem de Yînga não podiam eleger o Osoma, isto é o rei. Mpânzu, e não podem auto-eleger-se.

2) Entre os  Kwanyâma e  umbûndu os termos Otjo-mbali (mãe-ancestral), Yînga e Muwêla (Huila), legitimam a eleição de qualquer autoridade ao “trono”. Isso indicaria, baseado nos estudos existentes e nos dados colhidos na nossa pesquisa de campo, que a matrilinhagem oriunda dos !Kung ainda intervém na gerência pública das populações zimbabweayanas do Sul de Angola. Da mesma forma, a sucessão ao poder no reino entre os Kôngo era matrilinear, sempre relacionado com a linha uterina de Mazînga.

3) O professor Andrew Smith da univesidade de Cap Town, na Namíbia, observou que que “a área de Nyae Nyae-Doe foi dominada durante séculos pelas autoridades estrangeiras”. No primeiro volume deste estudo mostramos que os “Ntinu” de Mbânza-Kôngo eram estrangeiros ou, para repetir a expressão de Andrew Smith, Os Kôngo têm os Ñzînga que são eleitos pelos Nsaku e “ousiders”. Os cronistas confirmam largamente este facto, com destaque para Cavazzi e Cadornega, e mesmo Van Wing.




Extratos do livro: A ORIGEM MERIDIONAL DO REINO DO KONGO





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