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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


A HISTÓRIA DA DAMBA – EPISÓDIOS SOLTOS (2)

Publicado por Muana Damba activado 6 Diciembre 2011, 13:28pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos da Damba

 


Por René Pelissier


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UMA INSATISFAÇÃO CRESCENTE

O primeiro ano da República iria caracterizar-se, no Kongo, pela ocupação efectiva de vastos territórios e por uma profunda agitação na população africana. Na circunscrição de S. Salvador, os Congos juraram em 1910, a exemplo dos Solongos, recusar-se a pagar o imposto. Com efeito, as populações submetidas indignavam-se por ver que o gentio independente nem contribuía nem fornecia carregadores. Durante o Verão de 1910 foi detectada uma grande conjura, principalmente nas regiões de Madimba, Quimbubuge, Canda, Côco e Mateca, isto é, nas zonas mais afastadas da circunscrição de S. Salvador.

A missão católica de Madimba esteve ameaçada e 400 homens armados de Madimba entraram em S. Salvador em Agosto de 1910, pedindo que o administrador José Antunes dos Santos os ouvisse. Queriam uma isenção de imposto, visto que as gentes da DAMBA não o pagavam. Esta demonstração de força dos povos de Madimba e arredores preludiava a que dois anos depois viria a verificar-se em condições semelhantes.


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Mal Faria Leal conseguira efectuar a cobrança de imposto em proporções satisfatórias ao voltar ao norte da sua jurisdição, estalava um movimento sedicioso entre os Zombos, que eram tidos por pacíficos. A força de abusos sobre os carregadores, os comerciantes tinham acabado por desgastar a boa vontade dos Zombos. Para mais, os soldados indígenas viviam ali como em terra conquistada, do mesmo modo que os seus colegas de muitas regiões da África.

Um soba zombo foi morto à baioneta por membros do destacamento de Maquela e os parentes da vítima pretenderam aplicar a pena de talião. A crise veio à luz do dia no início de Maio de 1911.A resistência passiva da população inquietou tanto as autoridades e os comerciantes do Zombo que os fez imaginar-se cercados. O alarme era grave.

COMEÇO DA OCUPAÇÃO (estação seca de 1911)

Faria Leal passou sem dificuldades, com 26 homens, de S. Salvador a Maquela do Zombo (14 de maio 1911) O próprio governador do distrito, o tenente de marinha José maria da Silva Cardoso, chegou de urgência a Maquela com tropas e uma peça de artilharia. A 25 de Maio houve uma grande fundação, convocada por Faria Lela. O perito de S. Salvador viu perfeitamente onde residia o ponto sensível : havia que distribuir de maneira mais equitativa as tarefas de carregadores ampliando as zonas de recrutamento sempre mais para longe de Maquela do Zombo. Para isso, era preciso ocupar Quibocolo, Damba, Quimbubuje, etc, e moralizar as condições de cobrança de imposto e de recrutamento de carregadores. Era um velho drama da administração portuguesa em África. As fases desse alastramento da influência portuguesa foram as seguintes:

i) - Quibocolo. O local do forte foi escolhido em Junho e dotado de um oficial, 40 soldados e uma peça. Os Portugueses chegavam ali um pouco tarde, visto que a missão baptista já lá existia desde 1899;


ii) - Bembe. A 19 de Junho 1911.


iii) - O sul de Madimba. Este recrudescimento de actividade administrativa, desconhecida no interior do distrito desde 1901, prosseguiu em Junho 1911…”

iv) Damba. Alguns meses depois, foi construído um fortim em Damba (na época, o forte de 5 de Outubro), demasiado afastado de Maquela do Zombo para que, sem ele, a vigilância fosse ali apertada e o imposto cobrado sem resistências. Para o conseguir, Faria Leal conseguiu arranjar, naquele distrito vazio de soldados, 125 homens e 400 carregadores. S acções violentas foram poucas, embora os Congos tivessem tentado impedir a passagem da coluna para sul. As gentes de Damba pediram paz ao ver a metralhadora Nordenfeldt. Os quatro comerciantes (dos quis um era ingles) que lá viviam estavam ilesos. A 10 de Outubro, os sobas locais chegaram acordo: não queriam guerra com o governo. Pagaram, pois, uma pesada multa para cobrir as despesas da ocupação. O forte de adobe que ali foi erguido era um dos mais importantes do distrito, guarnecido por 70 soldados indígenas que ficaram entregues ao cacimbo do planalto (1180 m) com uma metralhadora.

“Um vasto S. Tomé”

Esta actividade militar de 1911 (instalação em Quibocolo,Quimbubuge, Bembe e DAMBA) permitiu, principalmente, um nítido reforço do tráfico comercial interior. Em 1910-1911, a residência de S. Salvador exportou 864 Kg de marfim e 216.500 Kg de borracha. As casas comerciais eram 4 em S. Salvador,21 no Zombo,4 na Damba, uma no Cuango e nenhuma em Bembe. Os Portugueses do interior estavam a tomar a iniciativa da comercialização da borracha clandestinamente importada do Congo belga. Mas também aí o sistemático dolo dos compradores portugueses ou dos seus agentes africanos, em prejuízo dos vendedores, era uma causa de descontentamento que Faria Leal, no entanto, considerava menor que no centro de Angola.

Reconhecendo embora que os três principais produtos trocados pela borracha eram armas, pólvora e panos, afirma que “nunca a autoridade portuguesa de S .Salvador autorizou o tráfico de escravos, nunca o comercio de Noqui se enlameou com tal permuta…O antigo livro de contractos, está em branco desde a ocupação da circunscrição.


E toda a gente sabe o que queriam dizer os antigos contractos. Em 1911 tinha, talvez, fundamentos para assim se elogiar a si próprio – apenas de a sua ida a Bembe em 1903 testemunhar com muita clareza o que se passava enquanto a administração estava longe, mostrando que as partidas de recrutas para Cabinda nem sempre eram voluntárias -- , mas a sua comparação vem carregada de presságios quando acrescenta: o Congo é um vastíssimo S. Thomé… tendo sobretudo a vantagem de possuir os braços necessários para um grande desenvolvimento agrícola”.

Saída de Faria Leal

Faria de leal que queria ocupar o Pombo, aleste da Damba, durante a estação seca (cacimbo) de 1912, não teria tempo para realizar o seu projecto, pois parece ter deixado S. Salvador a seguir a Março de 1912 e, de qualquer modo, antes de Junho de 1912. Esse brigadeiro sem exército, que “fizera” dois – mesmo três –“reis” do Kongo, não desejava ter perante si senão simples executantes. Em contrapartida, o seu anticlericalismo levou-o, por hostilidade para com as missões católicas, a defender as missões baptistas e, sem disso tivesse consciência, favorecer, ao mesmo tempo, os sentimentos nacionalistas congueses. Terminou os seus 16 anos de Congo com uma brutal apreciação do valor guerreiro dos Bakongo. “ Todo o gentio do Congo só é papão para meninos”. Mas enganava-se.

É inegável que a ocupação portuguesa teve em 1911 um grande progresso, mas, mas – por falta de soldados, de energia e de créditos – era ainda muito insuficiente. Cerca de um quarto da área do Kongo podia ser tido por português, isto é, pagava imposto. Ali, como noutros locais, era esse o critério supremo da materialidade da presença portuguesa.


Em 191º-1911, último ano antes do desmembramento da residência de S. salvador, esta rendeu ao Estado 48.946$550, 20.869$105 dos quais a titulo de imposto de cubata. Mas até junto das portas dos fortins era frequente a insubmissão.



 In “História das Campanhas de Angola” - Uma compilação de Artur Méndes

 

 


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