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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


A FESTA DE FAMÍLIA DE XANGA OLIVEIRA

Publicado por Muana Damba activado 24 Diciembre 2011, 14:21pm

Etiquetas: #Cultura

Por António Jacinto

 

 


(Crónica do antigamente no antanho)

--“ O que é natal do preto?”

--“Um litro de vinho e uma esteira!”

(Sentença proferida na Rua da Pedreira, noite alta, naquele 24 de Dezembro de

1945, pelo DR MANON, - “ o homem diabólico, o rei do cigarro eléctrico”…)

O viveiro dos imbutos de café era canseira e uma preocupação do Velho Xanga Oliveira. Vivia este numa casa de velhas tábuas de mafumeira que deixavam entrar as estrelas pelas fendas, carícia do céu descida sobre o catre apodrecido. Casa, mesmo ao lado dos engenhos de fabrico de óleo de palma e do descasque de café.

Era seu trabalho o guardar, de noite, a fábrica e os armazéns. Como ocupação extra cabia-lhe o colher água do rio e regar os viveiros do café e, ao lado, o do palmar sombo, isto já com dia claro e o sol a calcinar as rochas de beira-rio.

Pela noite, depois de – no cair da tarde – reunir alguma lenha, sentava-se ele à beira da fogueira que ia alimentando, avivava, num espertamento de todas as horas da longa vigília. Uma fogueira que espantava os bichos da selva e os ladrões – os bichos dos povoados – e que o aquecia. E, de tempos a tempos, talvez por intervalos de hora a hora, ia tocar o “sino”. Era um tambor de duzentos litros, de ferro galvanizado, vazio, já velho e amassado de tantas pancadas, cujo troar informava ao feitor de que ao artrítico guarda-nocturno não deixava dormir no seu posto.

Todas as manhãs lá ia Xanga, de regador na mão, cobertor corrido do nó ao pescoço, descendo por todo o corpo, a tirar água do rio para os viveiros. Pelos buracos do velho cobertor o frio punha arrepios de gelo na pele engelhada do ancião.

Lá ia ele, xacata-xacata, em passo miudinho, que o reumático autorizava, a remoer o sonho, que acalentava há muito, de comprar umas botas de borracha, de cano alto, à pescador, como usava o tractorista Alfredo. Umas botas que lhe permitissem entrar pelo rio sem se molhar.

Malfadado reumatismo a apertar os tornozelos como torniquete torturador! Umas botas como as do Alfredo, o sonho e a obsessão do Xanga!

Sem elas não se sentia realizado. Depois delas, então sim, o velho Xanga sentir-se-ia um homem completamente feliz. Quem nunca pôs a sua felicidade e todas as alegrias na alegria de um desejo, numa aspiração, numa vontade, mesmo insignificante? Esses podem compreender o drama e a tristeza do velho Xanga que, tendo percorrido a vida com salários magros, ainda não pudera comprar umas botas – as que, desejo tardio, lhe rasgariam, enfim, a boca num riso largo, e pleno.

Mas, era bom e diligente este velho Xanga. Não deixava nunca de regar as plantinhas do novo café que queriam romper da terra, já elevada e gretada da pressão que as sementes germinadas exerciam. E paciente era o seu cuidado com os viveiros do palmar sombo, derreado ao sol castigador, no amoroso entretecer de ramadas e defesas, para evitar o acesso aos quiombos devoradores de coconote.

Naquele 24 de Dezembro o Xanga, tarde em meio, já andava a reunir lenha para a fogueira daquela noite. Com certo afã. Depois, vestiu-se de lavado e subiu à residência principal, em busca de “boas-festas”.

Alegraram-se-lhe os olhos e o coração com uma camisa bela, de caqui, com presilhas como as dos militares de que tanto gostava. A senhora dera-lha, embora o feitor ainda a usasse. A senhora gabou que lhe ficava jeitosa. Não sem que, num sorriso dissimulado numa cara a fingir de zangada, lhe ralhasse por há muito tempo já não trazer passarinhos para a senhora.

Ela a Dª “São”, tinha gaiolas de bordão com xexés, maracachões, viúvas, catetes, rabos-de- junco, januários, bimbas, cardiais, bicos-de-lacre,mbalacaxongos, francolins, jingundos, beija- flores, rolas (destas: as diembes, as fucumbas, as caculoxixes, as caúlulos, as capalalas, as valameios, os mucudis, as queleleques, as caúembes, as cacalumbas, as rolas de gravata, as rolas brancas, as que cantavam “agá-ó”, “agá-ó” e outras muitas espécies, que só rolas, dos seus costumes, das suas histórias, dos seus cantos, era o Xanga capaz de falar um dia inteirinho, com resto de conversa para outro dia …), com tudo que fosse ave, cantasse e tivesse plumagem de cores insuspeitadas. Pois dera-lhe agora em querer um pombo verde. E caçá-lo? Eles são velozes e vivem longe dos muxitos. Caçar quiûtuas demanda caminhadas e paciência e sorte até se descobrir onde armar os laços! Paciência era que faltava à senhora. Sofria dores no ventre e febres intermitentes. E aí o Xanga a prometer ir em busca, à farmácia da selva, de mbuze e de queza, que eram muito boas para males que tais.

A senhora a duvidar, a duvidar, mas a pedir que trouxesse, que fosse trazendo, a duvidar porque o Xanga não melhorava do reumatismo. Pois acreditasse a senhora, se não fosse o caxinde-ca-nadnji, ele nem conseguiria andar. E terminou a pedir mais.

--E os jindoce, minha senhora?

E, falando-lhe ela na falta de dentes e chamando-lhe guloso, já lhe deu umas amêndoas.

Dali, foi à cantina do feitor, a pedir também as “boas-festas”.

O senhor Ferreira estava em maré de distribuir as “boas-festas”. Ordens de Luanda: um litro de vinho a cada homem e uma caneca de farinha torrada com açúcar mascavado para “fazer boca”, como quem diz, para aperitivo. Eram ordens do patão e, quando ele viesse, a pagamentos, no fim do mês, que lhe pedissem mais. No “ano-bom” haveria mais “boas-festas”, como habitualmente, bem magras.

O Xanga recebeu farinha e o vinho. Pediu mais um litro que mandou assentar no gordo livro de débitos.

E desceu para o seu pouso, a acender o fogo, a preparar a refeição da noite. Pelo caminho, foi buscar uma cabaça de marufo que tinha escondido entre fetos de beira-rio. Fresquinho!

Noite feita, tendo jantado o seu habitual junji, achegou-se ao fogo, a beberricar o vinho, preparando-se para passar uma noite de vigília. Lá da residência chegavam-lhe ruídos alegres de um jantar fora do normal. O feitor e mais empregados consoavam. O patrão mandara champanhe e as rolhas a saltarem pareciam foguetes.

Sabe-se lá como e por quê, começou a desbobinar episódios desligados da sua vida passada. Lembrou-se menino, a acompanhar a mãe à lavra de milho. Ideia vaga dos irmãos. Ele próprio a trabalhar também. E do padre Saganha que primeiro falara desse Jesus Cristo e do Natal dos brancos.

Depois, já menos nubloso, mas ainda perdido na distância do tempo, estava ele soldado. Com a coluna do “tuga”. Eugénio de Almeida, o conhecido “ Quingando”. Admiração e temor pelos soldados landins, da Outra Costa. E ele promovido, envergonhado, a cabo nessa campanha dos Dembos. Depois, feito o cozinheiro de campanha dos oficiais. Sorriu ao lembrar-se daquela vez. Lembrança a vir, manso-macio, como onça a achegar-se de bebedouro de antílopes. Ele e o trem à frente, para preparar o jantar num acampamento previamente determinado. Partira pela manhã, atravessara o rio Lombiji e preparara terreno para acampamento. Depois, deitara-se aos segredos e esmeros da refeição da noite. Entretanto, aquele Março vinha feio, de quente e de trovoadas. Pela tarde chovera, com Deus zangado a ralhar com os homens. As águas, das ravinas para o rio, iam engrossando, a avolumar-se, a tomar a forma de corrente caudalosa.

Era quase noite quando a coluna chegou. Impossível, então, atravessar o rio a vau. Mesmob com o cavalo, o “Quingando” teve de desistir. Estava furioso, se estava! Praguejava, como só ele sabia. E teve de decidir a passagem da noite na outra margem. O pior é que já não tinha mantimentos. Gritou para o Xanga . Que amarrasse as batatas e o bacalhau num pano e lho atirasse da outra margem. Assim fez o Xanga. Mas tinha o coração pequeno como passarinho implume caído do ninho e tremiam-lhe os joelhos num batuque arrítmico. Se errasse, ou não desse à trouxa o impulso suficiente para atingir a outra margem, teria de aturar a irascibilidade de um comandante esfomeado. Felizmente, conseguira. Sorria agora dessa passagem. E como para distender os nervos tensos de tal recordar, como dose de remorso, nova golada de vinho. E o marufo para cortar o gosto.

Tinha quatro companheiras. A Quieza, a primeira, a Vunje, a segunda. Como era o nome da terceira? Vezes lhe parecia Luzia, vezes se firmava em Luísa. A última fora a Umba. A Vunje era má. Mas trabalhadora. Dizem que trazia em si promessa não cumprida à Quianda do Quiaposse. Morrera de feitiço. Também os filhos dela se foram. A xinguilar, a bungular, a espumar pela boca. O doutor do Gulongo falara de ataques epilépticos. Os brancos não sabem nada destes feitiços dos pretos. Epiléptico é que é então?”. A Quianda é que fazia aquilo, vinha pedir a alma da pessoa. A Vunje não tinha nada doença. Nem os filhos. Era feitiço mesmo.

Teve muitos filhos. Ele agora já nem de lembra dos nomes nem da cara de todos. A vida cumprindo-se, todos andam no mundo. Em Luanda, em Malanje, no Sul, na guerra nova das matas, sabe-se lá por onde. Só ele ficou naquela terra do Cariavo. Só ele, e só, ali está. Que bom que está o marufo!

Conhece todos os paus, todos os pássaros, todas as estrelas. Aquele gussusso ali, ele o viu pequeno. Agora é uma árvore que já tem ramos mortos. Ele conhece o bangulula (como é? O pica pau) que todos os dias ali vem trabalhar como se fosse machado de lenhador. E pírulas, que anuncia a chuva no mais alto ramo do mucumbi, é também seu conhecido. As rãs, os grilos, as cigarras não ensaiam partitura que ele não conheça. Nem a floresta, nem o céu, nem a noite têm mistérios que não haja desvendado. Ele conhece as cores de toda a noite, até aquelas que as trevas lutam com indecisa luz que teima em surgir. Cafucufuco, camenemene ou madrugada tudo é a mesma coisa. É um vir suave de uma vida que se segue à vida ampla da noite. As cores, desde o violeta até os rosas e os laranjas, as sombras enroladas em volta a cavalgarem os morros, os brancos dos nevoeiros a banharem-se no rio, as cores são sempre as mesmas, renovadas e repetidas na aparente diversidade dos dias. Ele conhece tudo, que tudo já viu. Só não sabe por que ainda não tem umas botas como as do tractorista Alfredo.

Padre Saganha quis que ele fosse catequista. Ora ele nunca aprendera a ler. Também os outros padres que vieram depois lhe falaram no tal Menino Jesus. Do Natal. Da bondade do Pai Celeste. Também os meninos dos patrões lhe contaram das prendas que o Menino Jesus punha nos sapatos dos meninos. Ele, então, já não era menino. Também ele e os irmãos nunca tiveram sapatos. E os filhos dele também não. Então o Menino Jesus poderia ter dado sapatos aos meninos como os dele? Bem, ele já tinha visto muitas fotografias do Menino Jesus. O Menino Jesus era branco. Então não podia andar pelos matos a entrar nas casas de capim dos meninos pobres. Nem tempo, teria, ainda que quisesse.

Mas Deus? Ele nunca vira um retracto de Deus. Deus seria branco? Não lhe parecia. Deus não era branco nem preto. Deus tinha muitas formas, muitos feitios. Deus era Pai de todos. Se a vida andava mal era por causa dos pecados. Ele, Xanga, já não tinha pecados. Só um copito a mais, às vezes, nem chega a ser pecado! Gostava da natureza, dos pássaros, das pessoas também. Claro, de marufo, porque não?! Gostava de Deus. Então, Deus havia de gostar dele. Bem, é certo que o mundo era muito grande e Deus tinha muita gente para quem olhar. Não podia estar a olhar para o Xanga, ali perdido no mato, numa fazenda de café, longe das cidades e dos caminhos-de-ferro. Mas ele podia chamar a atenção de Deus. Isso não era mal.

Pousou a garrafa quase vazia. Levantou-se a cambalear. Bêbado? Foi buscar toda a lenha para a fogueira. E casca de coconote. O que dava bom fogo era palha de dendém e o bagaço seco, restos do fabrico de azeite de palma. Trabalhou duro – nem as trevas, nem as pernas incertas ajudavam – para fazer uma fogueira muito grande, que a visse Deus lá do Céu. Quando as labaredas se altearam, ele comparou as chamas à Lua. Maiores que a Lua, cogitou aprovativamente. Se ele via a Lua, Deus teria de ver aquela fogueira. Não julgasse Deus que era um fogo qualquer. Foi-se ao tambor e, num frenesim de doido, bateu, bateu elevando aos ares sons cavos de ferro vibrado com gana. Nunca tocara tão alto e por tanto tempo o “sino”.

Arfando cansaço, extenuado, a boca seca, alcançou a garrafa do chão, levou-a aos lábios murchos e ingurgitou o vinho todo.

Ergeu os olhos, de braços abertos, a garrafa numa mão o ferro de bater o tambor na outra:

--Ó Deus, olha para este preto Xanga Oliveira que já é muito velho. Nunca lhe destes nada. Olha só estes pés doentes. Manda-me amanhã, sem falta, umas botas como as do Alfredo. Não te esqueças, “Ngana” Deus. Só umas botas, peço por favor. Umas botas só. Estou a pedir pouco. Eu não quero mais nada, mais na…

Não concluiu. O chão ondulou, num repente, como águas de rio enchente. Vórtice, a fogueira oscilou, pôs-se a mudar de lugar, como se andassem por ali cazumbis desatados a bailar com as labaredas. A cabeça começou-lhe a rodar agitada por ventos de feiticeiros. As pernas tremeram mais, numa fraqueza, e o estomago começou a enrolar-se, numa náusea. Num imprevisto, o chão ergueu-se, ergueu-se, subiu até bater-lhe com força na cabeça. Dor que não ficou. Porque o Xanga, mal tocou o chão, adormeceu.



Im “FÁBULAS DE SANJI”

Campo de Trabalho de Chão Bom, 25.03.1969

 

 

                                                                           Texto enviado por Artur Méndes.

 


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