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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


O drama da feitiçaria,a história do Jeremias Bendito...

Publicado por Nkemo Sabay activado 30 Marzo 2010, 11:59am

Etiquetas: #Notícias do Uíge

No seio da família que o escorraçou, o nome é uma piada. Nem o bíblico Jeremias nem o Bendito que anuncia coisa boa, o safaram. “Sou da aldeia do Casseche, aqui mesmo perto, depois do aeroporto, próximo daquelas montanhas lá ao fundo (indica com o dedo a cordilheira montanhosa que bordeia a cidade do Uíge) e estou aqui há cinco anos. Me acusaram de feiticeiro. A minha mãe estava concebida e tinha dores de parto”.

“Eu era muito pequeno ainda, tinha cinco anos. Os meus tios vieram ter co migo e disseram: ‘a tua mãe não consegue ter o filho. É você’. E começaram a bater-me. Infelizmente a minha mãe morreu ao ter os bebés. Eram gémeos” – conta, com a tristeza a inundar a alma e o espaço.

“Felizmente o meu pai, que é do Huambo e catequista, não acredita nessas coisas do feitiço e tirou-me da aldeia. Ele fugiu comigo, me protegeu mas também não aguentou com a situação”.

Mudou de aldeia, foi para o Cunga Kiximba, “e arranjou outra mulher, que é a minha madrasta. Nem ele nem ela me visitam. Aqui ninguém me vem ver. Não faço ideia porquê” – explica, pesaroso.

Entrado no Lar São José aos 13 anos, hoje Jeremias Bendito é um adolescente de 18 anos, que estuda a oitava classe no Instituto Normal de Educação, no período da tarde. Diz que quer ser professor e seguir em frente na vida: “Quando for adulto, quero me casar.

Por enquanto a minha preocupação são os estudos, aprender muitas coisas, fazer muitos cursos, só depois pensar em ter casa própria e constituir família. Tenho de preparar bem o futuro”. Acreditas em feitiço? fizemos a pergunta, sem rodeios, ao rapaz. Sem vacilar, a resposta foi um rotundo NÃO. Não só não acredita em feitiço como nunca tinha ouvido falar no fenómeno antes da grave acusação que mudaria para sempre a sua infância e adolescência. Jeremias Bendito nunca voltou à aldeia onde nasceu – Casseche, a uns 10 km da cidade do Uíge – por uma razão elementar: “Tenho medo que me possam fazer mal lá”.

E abre o seu coração ao jornalista, para os planos que alimenta para mais daqui a alguns anos: “Quero voltar lá como adulto, com vida feita noutro lugar, de preferência na cidade. Voltarei só para saudar as pessoas, mas não para viver”.

Sereno, diz que lamenta tudo o que lhe aconteceu mas vive conformado, pois “aqui no Uíge é mesmo assim, as pessoas acreditam muito em feitiço, faz parte da cultura, são poucos os que não acreditam”.

No fim do diálogo, quando a reportagem de O PAÍS lhe pede para explicar o que pensa da família que o acusou, rejeitou e mudou para sempre o curso da sua vida, saiu-se com a mais improvável das respostas: “Quando for adulto, vou saber perdoá-los”.



João Vemba: acusador é o próprio pai

Tem 12 anos, é natural do município do Bembe e encontra-se “escondido” no Lar São José há três anos. A sua história é, como a de todos os outros, de soberbo sofrimento e incompreensão.

Relata que tudo aconteceu quando o avô morreu. Foi nada mais e nada menos que o próprio pai a acusá-lo de ser o responsável pela morte do ancião. Custou-lhe uma surra monumental, até que um tio dele se condoeu e conduziu-o até ao lar da Igreja Católica.

De Cangola, outro município da província do Uíge, é Manuel Ginga António Domingos, 17 anos, acusado da prática de feitiçaria em Fevereiro de 2005, na sequência da morte da mãe. A acusadora foi uma prima, e foi o suficiente para ver o mundo desabar e encontrar refúgio na casa onde outros rapazes aliviavam o mesmo calvário. Ninguém o visita e já se conformou que o seu futuro está no Lar que o acolheu. Estudar para ser alguém um dia e seguir o seu caminho, as motivações essenciais.

As mesmas, por sinal, de Armando dos Santos, com 11 anos, que um padre resgatou no município do Púri, a terra de que nem ouvir falar quer. Não pensa em voltar e agradece, para sempre, a ajuda oportuna do padre, pois quem o detestava e o acusava de feitiçaria eram familiares directos.

Não o queriam, claramente. Das terras do Bungo, município que dista uns 70 km da sede provincial do Uíge, chegou Sebastião Francisco, hoje com 15 anos de idade. A morte do pai e da mãe, já de si uma tragédia horrível, trouxelhe como complemento macabro a odiosa acusação de feitiçaria. Foram as próprias irmãs mais velhas a “descobrirem”, sabe Deus com que artes, que o malvado era ele.Expulsaram-no e o poiso seguro acabou por ser o célebre lar de meninos acusados de feitiçaria, na capital da província.


Poiso dos acusados

Gerido por um catequista de 68 anos, Pedro Vieira dos Santos (ver outra peça), o Lar São José que alberga no Uíge crianças acusadas de feitiçaria, tem na verdade uma alma mater: a irmã Adelina Afonso, nascida em São Tomé mas que se sente uma filha do Uíge, pelo tempo que leva na região e o modo como se integrou.

O PAÍS foi vê-la no Instituto Médio de Educação, entidade tutelada pela Igreja Católica, de que é a directora. A conversa girou em torno do feitiço e a acção da Igreja no apoio às crianças perseguidas sob a acusação de praticantes de tais ritos.

Emociona-se quando fala do bispo Dom Francisco da Mata Mourisca que durante quarenta anos seguidos dirigiu a Diocese do Uíge e da maneira como o influente homem de Deus concebeu o Lar São José: “O senhor bispo teve a ideia depois da realidade que encontrou. Via muitas crianças à noite perdidas na rua. Iam ao Paço Episcopal pedir ajuda, comida… Foi ajudando como podia, mas depois os catequistas foram comunicando vários casos de meninos rejeitados pelas famílias em muitos municípios, Bembe, Damba, Maquela, Sanza… Resolveu juntá-las num mesmo locale assim nasceu o lar”.

O envolvimento da madre com o lar tem um ano. Actua como uma espécie de supervisora da casa, trabalhando em estreita colaboração com o pastor que lida diariamente com os problemas.

Explica que as crianças acolhidas no lar são absolutamente abandonadas pelos familiares, não as visitam e não querem saber delas. E o que é pior, revela, “há casos em que a família aparece e quer fazer mal aos meninos. Temos de protegê-los, cuidar da sua integridade física”.

Na opinião da madre Adelina Afonso, os familiares não levam de volta as crianças entregues ao lar porque “ficam com medo que outros parentes possam não gostar e começar ali um grande desentendimento familiar”.


Padrinhos na Itália 

Uma via encontrada para o apoio espiritual e material às crianças acusadas de feitiçaria do Lar São José , de acordo com explicações dadas a O PAÍS pela madre católica, é a vinculação de cada uma delas a uma família na Itália.

“Todos os meninos têm um padrinho na Itália que eles chamam de pai”, disse-nos. Trocam fotografias e, sobretudo na época natalícia, há o receber e enviar de postais.

Convidada a opinar sobre toda esta complexa problemática do feitiço envolvendo crianças, com acusações tão graves e tão marcantes que as lesam para sempre na sua integridade moral, a freira fá-lo com visível tristeza e vai relatando, à medida que deles se recorda, os casos mais chocantes, como o de dois irmãos que no Bembe estavam amarrados no meio da floresta, prontos para serem mortos, e por sorte ia a passar alguém que os libertou.

“Os meninos fugiram a toda a velocidade para a Casa das Irmãs da Misericórdia e estas trouxeram-nos para cá. São muitas histórias horríveis, tristes, inacreditáveis. Se forem falar com a irmã Rosa Esperança e o frei Bimpa vão saber de muitas histórias”, rematou. A dizer verdade, bastou-nos a comovente manhã passada com os meninos no Lar São José e o próprio depoimento da madre. Tudo demasiado rude e cruel para persistir na experiência!

 

Por: Luís Fernando, no Uige Fotos: Jacinto Figueiredo                                                                             Opais.net

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