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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


FRAGMENTOS HISTÓRICOS DA DAMBA 22.

Publicado por Nkemo Sabay activado 31 Agosto 2010, 12:51pm

Etiquetas: #Fragmentos históricos da Damba

 

 

Por José da Silva Cardoso

 

 

 

CIVILIZAÇÃO DO INDÍGENA ( COLONIZAÇÃO )

 

“ A influência do comércio na civilização é inegável, mas só o Estado pode conseguir encaminhá-la, por forma a tirar-se o maior proveito possível para ela, se souber e poder criar o conjunto de circunstâncias que pode evitar ou restringir as influências perniciosas desse factor, a facultar ou ampliar as consequências vantajosas que dele se pode esperar.

 

A função do comércio, sob o ponto de vista civilizador, Seria criar necessidades nos indígenas, fazer-lhe nascer hábitos de conforto, que depois exploraria retirando daí o devido lucro para o seu esforço de trabalho. É inegável que seria esta uma das melhores formas de civilizar o indígena, por isso que a acção prolongada deste processo modificaria profundamente o meio e o habitat do indígena. Porquanto, acção do comércio sobre o indígena manifesta-se sobre uma grande massa de indivíduos sob um aspecto intensivo, persistente, firme e constante, que tantas são as condições indispensáveis para que a forma de actuar seja capaz de produzir transformações profundas do meio, as quais, não sendo exercidas pela forma lenta, característica de pertinácia comercial, não consentem ao indígena que se ajuste perfeitamente às suas novas condições de vida, tornando-se fugaz e enganadora a impressão de conforto e de bem-estar que pudesse transportar para o sertão a camada superficial de civilização que, nem sequer mesmo sob este aspecto restrito, lá se encontra actualmente.

 

Não aconteceu, porem, assim. O comércio, em vez de vir criar nos indígenas necessidades civilizadas, veio explorar-lhe aquelas que eles já tinham, as necessidades cafreais; e que eram apenas vícios ou manifestações de maus instintos, arreigados por remota ancestralidade .Vendeu-lhes o álcool necessário para sua incorrigível embriagues,a pólvora e as armas com que alimentar as eternas lutas cafreais; falsificou-lhes os cobertores com que deviam agasalhar-se; substitui-lhes os magníficos panos de tecelagem gentílica pelos mais reles algodões que os centros europeus são capazes de produzir, e impingiu-lhes por vestuário o rebotalho dos adelos e ferros-velhos da Europa, procurando satisfazer a tendência para o esgazeamento gentílico com as cores berrantes de uniformes em segunda-mão , com botões de latão e agaloados oxidados.

 

Numa palavra, despejou em África o lixo e os cacos da civilização de entre os quais surge o preto semi-civilizado, produto com se topa em todas as colónias europeias, do norte ao sul da África, sendo muito escassas e honrosas excepções que se encontram, atestando-se quanto vale o indígena, quanto dele pode esperar-se, para a transformação do seu meio e para a correcção de seus próprios defeitos, se for devidamente encaminhado.

 

O indígena semi-civilizado, comparado com o das regiões mais remotas da tribo a que pertence, comparado com os seus irmãos que ainda não sofreram as influências de agentes civilizadores, dá-nos, como regra geral, uma impressão desagradável dos efeitos que sobre ele exerceu a civilização, salientando-se do contacto que teve com esta, a demonstração de que rapidamente lhe assimilou os inconvenientes a parte defeituosa.

 

A sua aparência exterior não nos deixa a menor dúvida de que o seu congénere virgem,que habita o mato, se lhe avantaja sob todos os pontos de vista, sendo preferível a ele em todos os casos.

 

(…) Sob o ponto de vista moral, não se nos avantaja o quadro, podendo dizer-se que o indígena semi-civilizado imita abominavelmente os trejeitos morais da humanidade. As qualidades sãs que constituem o rudimento moral do carácter da raça a que pertence, perde-as rapidamente com a defeituosa educação que adquiriu; o seu contacto com o branco ordinário, que é aquele com que usualmente se relaciona, destrói-lhe o respeito, a delicadeza e o pudor naturais, que são substituídos por um tosco descaramento e por um insólito amor próprio mal concebido, o que lhe dá um aspecto desagradável e agressivo, especialmente quando reconhece no acolhimento do branco que os seus falsos méritos são menosprezados ou mesmo rebaixados, o que é frequente.

 

É manifesta a sua grande aptidão para absorver a assimilar todos os defeitos e vícios da civilização, e sua instintiva repulsão para com as virtudes que ela poderia introduzir-lhe.A natural adversão pelo trabalho manual, agrava-se no seu novo estado social; desliga-se com ostensivo desprendimento dos hábitos de solidariedade ; despreza as tradições tribais; e, perdida a fé e perdida a esperança que podiam brotar-lhe das suas crenças infantis, sem que se lhe forme uma sólida consciência, transforma-se num verdadeiro náufrago no mar de paixões e de ambições em que pretendeu singrar”

 

 

                                                      Em colaboração com ARTUR MÉNDES.

 

                    

      

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